É ASSIM QUE SE FAZ O SAMBA...
por Walter Nicolau

O mais delicioso período pré-carnavalesco é sem sombra de dúvidas as eliminatórias de samba enredo. É o momento quando se pode encontrar todo mundo circulando pelas quadras, independente qual seja sua bandeira de origem, pois após as finais, cada um acaba ficando preso na sua quadra e os encontros acabam um pouco mais difíceis.

A mágica desse momento começa um pouco antes da apresentação dos sambas concorrentes, quando os compositores começam a se mobilizar para formação das parcerias e somente o samba que é capaz de separar formações, às vezes até vitoriosas, também pode unir adversários de anos anteriores, tudo na busca pela honra de fazer sua obra se tornar a trilha sonora do desfile da sua agremiação.

É verdade que o romantismo dos velhos tempos parece ter desaparecido, ou pelo menos, anda bastante escasso. A máxima da ética de outrora, quando um adversário, também cantor era capaz de subir ao palco para defender o samba de outra parceria concorrente, cujo interprete faltou em uma final e lhe dar o título, muito mais preocupado com a escola escolher o que havia de melhor na safra, parece ter sido superado pela vaidade pessoal que tem levado alguns compositores a se portarem muito mais como "inimigos" do que como "adversários" e alguns acabam saindo pelas esquinas falando mal da diretoria, da comissão julgadora, cuspindo "cobras e lagartos", chegando ao cúmulo de deixar de desfilar com a sua ala.

Na verdade, é preciso entender como tem funcionado a formação das parcerias atualmente e isso precisa ser visto de uma forma mais administrativa do que propriamente artística. No atual formato de disputa passou a integrar no grupo um novo modelo de compositor, que passou a ter uma importância da mesma proporção dos letristas e molodistas. O agregador de torcedores e o que disponibiliza recursos para o custeio das despesas é hoje parte real de uma parceria e sua participação é fundamental para fazer acontecer uma grande obra, com belas gravações de divulgação, distribuição de CDS, letras construídas em boa qualidade gráfica, com bons interpretes, etc..e isso tem contribuído para o maior deleite daqueles que prestigiam esse momento. Vale salientar que sou contra ao abuso do poder econômico e que aqueles que julgam os sambas se deixem envolver por esse episódio, pois a escolha deve sempre ser baseada nas observações do comportamento da obra perante a comunidade, as proposta do carnaval a ser feito na avenida e as notas do quesito, independentemente da estrutura financeira apresentada nas quadras, ou seja, deverá vencer sempre o que melhor se encaixar na proposta do enredo e seu desfile.

A modernidade está trazendo algumas curiosidades. A divulgação das obras pelos sites na internet foi um ganho fabuloso para as parcerias, principalmente para aquelas com menor poder de investimento, que desta forma tem a oportunidade de criar uma visibilidade para os sambas dantes impossível. Mas junto a toda essa positividade, também surgiu a explosão maior da vaidade, com compositores e torcedores de parcerias se utilizando dos fóruns disponibilizados pelo mesmo meio de comunicação para ofensas, agressões e desprestígios de seus concorrentes. Esquecem, que a safra de composições pertence a escola, a ala de compositores e não a cada parceria individualmente e sempre que uma parceria ataca a obra de outra, normalmente a que mais se destacou, estará ferindo também a agremiação, e dando "um tiro no próprio pé", pois se um daqueles sambas será o hino do desfile, chegará a confrontação com os sambas das co-irmãs com pelos menos alguns arranhões e eu considero esse o comportamento de OPORTUNISTAS e não de SAMBISTAS e que acaba afastando novos talentos que um dia pensaram em enveredar por essa seara.

Acredito que esse é o momento para todos nós, amantes dessa maravilhosa cultura darmos "VIVAS" aos nossos artistas musicais, expressarmos nosso agradecimento pelas noites e dias dedicados a construção de parte do nosso sonho e nossa alegria, responsáveis por muitas emoções e que enchem nossos dias de poesia e melodias que lavam nossas almas conturbadas pelo dia-a-dia, nos fazendo sonhar com um mundo melhor e também "REFLEXÃO" para aqueles que não tem sabido aproveitar esse grande momento do samba, que possam aprender a superar suas vaidades e encontrarem o verdadeiro espírito competitivo.

Momento de desejarmos as cabeças pensantes de cada agremiação, para que sejam iluminadas em suas escolhas, não sucumbindo às pressões externas e extra samba, para que possamos ser brindados sempre com o melhor que nossos artistas puderam produzir.

* Texto e Colunista gentilmente cedido pelo Site Carnavalesco do Rio de Janeiro (www.carnavalesco.com.br)

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* Walter Nicolau é Vice Presidente de Marketing da Escola de Samba Acadêmicos do Cubango e colunista do Site Carnavalesco do Rio de Janeiro.

Sugestões, dúvidas, criticas ou elogios, favor entrar em contato com:
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