DISCUSSÕES SEM FIM...
por Leonardo Soares

O carnaval capixaba é um objeto de análise interessante. Inúmeras são as discussões a respeito da evolução nos desfiles, falhas estruturais, enredos bons, sambas ruins, qual o melhor profissional. Mas a discussão que é mais lembrada e mais rende opiniões parece ser realmente a questão dos enredos.

É fato que quando passa o carnaval, já fizamos com a certeza de que no próximo desfile, metade das escolas da Grande Vitória (ou mais) falarão sobre temas geográficos regionais, sobre políticos da região ou algo que possa render uma verba extra para investir no desfile.

É chato ter que conviver com a mesma situação ano a ano? Claro que sim. Os enredos parecem cada vez mais desgastados e sem atrativos, principalmente quando os idealizadores não conseguem encontrar um fio condutor correto para TENTAR mascarar o óbvio com criatividade.

O inevitável é que muitos problemas de percurso também devem ser levados em consideração. Não adianta reclamarmos da escola X, que arrisca um enredo morno envolvendo elementos do Espírito Santo, do tipo "Ali Babá nas terras do mármore e granito" ou "A saga de fulano pela incrível rota do Mar e das Montanhas" na tentativa de conseguir apoio financeiro, se sabemos que das 13 agremiações que desfilam no Sambão do Povo, a maioria esmagadora não possui nem uma quadra própria para arrecadar renda para elaborar desfiles meramente criativos.

A criatividade, amigos, é perfeita. Todos pedimos, clamamos, imploramos por escolas criativas. Mas nem só de criatividade se faz um desfile. O dinheiro é necessário. Não adianta fugir da realidade. E no nosso carnaval a iniciativa privada não dá o mínimo de apoio que as agremiações precisam.

Já cansei de ficar pendurado nas grades do setor E vendo escola desfilar a história de município como se a sinopse fosse retirada de sites das prefeituras. Já vi também enredos fraquíssimos sobre políticos daqui do Estado, que só fizeram afundar essas escolas.

Temos um carnaval que já passou por tantos problemas, que o mínimo que podemos e que devemos fazer, é tentar entender também o lado de quem já tem pouco e prefere levar para a avenida o que conseguiu. Afinal, não deve ter coisa pior do que ser membro de uma comunidade, se esforçar o ano inteiro, ensaiar... e quando chega próximo ao dia do desfile, a escola não desfilar
por não ter condições de apresentar carnaval.

É realmente uma situação que rende discussões imensas. Posso estar navegando num vazio? Com certeza! Muitas escolas trazem para a avenida enredos fracos por preguiça de pensar ou por falta de pessoas realmente interessadas em realizar um bom trabalho? Certamente!

Mas não podemos esquecer as escolas que não possuem quadra de ensaios, que não têm instrumentos para os ritmistas, que passam por dificuldades durante um ano inteiro e veem nos enredos burocráticos e 'chatos' uma oportunidade de arrecadar fundos para levar um desfile para o sambódromo e não deixar a comunidade a ver navios... só os milhares de navios, caravelas, barquinhos a remo, caiaques, jangadas e outras embarcações que passam pela avenida em quase todas as escolas todo ano.

Esperam que tenham compreendido o desabafo.

Abraço!


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* Leonardo Soares é ritmista da Mocidade Unida da Glória, estudante de Jornalismo da UVV, repórter da Rádio CBN e faz parte do Blog do Carnaval do Gazeta Online.

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