ENSAIOS
DE AMOR DE UM SAMBISTA
por
Jace Theodoro
Cansado da noite de samba e coração rasgados, o sambista acorda como quem pede a eternidade como cama e sono sem fim. Não quero saber mais dela, foi um rio que passou em minha vida, de cada amor tu levarás só o cinismo, adeus meu pandeiro de bamba, assim segue o bamba, entre adormecido e acordado, desfiando letras de canções que contam em meias porções os ganhos e desperdícios das noites de orgia.
O sambista abre os olhos exaustos de cachaça, rabos de galo e cerveja quente. As olheiras não mentem e desafiam o dia claríssimo lá fora. É um homem de hábitos noturnos e encarar o dia de sol arrebentando a menina dos olhos é tarefa que não cabe ao malandro que bebeu na água da Fonte Grande. Que venha a eternidade como cama durante o dia e, ao correr da noite, ele agradece pelos orgasmos múltiplos que incendeiam o que nele é puro sinal de vida.
Pensa na gostosa da Piedade, na peituda da Mug, no samba no pé da cabrocha da Boa Vista, na belezura de ébano da Andaraí e na de beijo quente da Novo Império. Já se sente reanimado para a semana que vem, doido pra que a sexta-feira chegue sem demora, a sexta-feira da Paixão, das paixões.
O carnaval é só pretexto para o sambista e seus ensaios de amor. Fevereiro é mês que ele não quer que chegue. Espera que até lá o tempo estique como a corda dos seus sonhos e os espaços se ampliem como uma quadra recém inaugurada. Quer espaço para que o seu samba do grande amor ganhe mais letra e melodia, e a única coisa que ele não faz nesse meio tempo – com as desculpas do malandro, sr. Chico Buarque - é se guardar pra quando o carnaval chegar...
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