Agora é a hora! O CD com os Sambas de Enredo do Carnaval da Grande Vitória já está pronto e nas mãos dos sambistas, ainda bem que com uma grande antecedência, muito diferente do que foi no ano de 2006, onde o CD foi lançado praticamente com o grito de guerra da primeira escola a desfilar no Sambão do Povo.

E antes de realizar a análise dos sambas para o Carnaval 2007, vamos relembrar os melhores e os piores sambas que passaram no Sambão do Povo a partir de sua reinauguração em 2002, não que os sambas anteriores fossem de pior qualidade ou não merecessem ser valorizados, o ponto principal é que desde a retomada do Carnaval da Grande Vitória em 1998, foi só a partir de 2002 que o começou a ter jurados oficiais para o julgamento do carnaval, sendo assim, as escolas teriam "teoricamente" uma preocupação maior com a qualidade de seu samba. Em uma outra oportunidade faço uma análise dos sambas mais antigos do carnaval da grande Vitória.

Primeiramente gostaria de comentar o avanço que o quesito samba enredo teve no carnaval da Grande Vitória, a diferença do CD 2002 para o 2006 é absurda, algumas composições mantém os mesmos erros primários, mas a melhora é muito significativa. O interessante é que algumas agremiações colecionam a tradição de grandes sambas, outros de sambas medianos e tem escola que não conseguiu nesses cinco anos emplacar nenhum samba de grande qualidade, principalmente pelos seguintes erros:

1- Letras muito extensas - Os sambas com letras muito exageradas pecam no quesito harmonia (pois os componentes não cantam), é de mais difícil assimilação e normalmente as obras tem falhas grotescas nas letras justamente pela falta de métrica, sendo quase impossível se manter uma boa melodia com sambas de até 40 linhas.

2- Melodia simples – Algumas escolas de samba devem deixar de lado uma tradição, o uso demasiado de melodias simples, não são em sua maioria, mas esses são sambas que terminam do jeito que começaram, na mesma tonalidade melódica, sem ousar uma variação para embelezá-lo, acaba prejudicando a harmonia de letra e a musicalidade da obra. Concordo que na falta de criatividade é melhor o costumeiro, que também facilita o canto, mas para o julgador de samba enredo, uma melodia bem construída, com variações melódicas e de harmonia é muito valorizado, e claro, faz bem aos ouvidos do público e do julgador.

3- Palavras inutilizáveis - Tudo bem que carnaval e samba enredo é animação, mas conta também no manual do julgador que deve ser valorizado as linhas melódicas, beleza, riqueza poética, e tanto aqui quanto no carnaval carioca se encontra obras com palavras pouco usuais, que não embelezam, ao contrário, acabam desvalorizando uma obra. Palavras e frases tal como: "Hospital Santa Rita", "Hemoes tá colhendo sangue", "Motor de Avião", "salões desativados", essas coisas só deixam um samba mais feio e não contribuem em nada para sua melhoria, há uma maneira melhor, mais alusiva de expressar certos pontos cruciais de um enredo, ao invés de usar esses absurdos.

4- Enredos fracos - é vergonhosa a quantidade de enredos mal escritos, mal elaborados e mal escolhidos pelas agremiações, muitas vezes dificultando o trabalho dos compositores, e para melhorar ainda mais a qualidade do samba enredo é necessário uma maior interação autor de enredo com o conjunto de compositores da escola. Isso facilita o trabalho final, onde os pontos essenciais do enredo são trabalhados anulando qualquer possibilidade de não relação entre desfile e samba, uma vez que a principal característica de um samba enredo é a sua capacidade de facilitar ao público/espectador uma maior interação/captação dos pontos cruciais do enredo.

Vamos agora conhecer quais foram os grandes sambas de cada agremiação e as obras defeituosas que não emplacaram na passarela do samba, lembro que são obras que vão do carnaval 2002/2006. Cito ainda que por retornar apenas em 2005, a Independentes de São Torquato não está sendo citado nessa coluna:

OS MELHORES:

UNIDOS DE JUCUTUQUARA
NOTA 10 - "Quem é Você? As Máscaras que ocultam também revelam" (2005)
O samba de 2005 que deu o vice-campeonato a Unidos de Jucutuquara é hoje um clássico do carnaval da grande Vitória, é definitivamente a obra mais famosa da escola. Com um refrão contagiante, “Quem é você quero saber...” e uma letra de acordo com o enredo, possui uma melodia arrojada e belas variações, como no trecho “Veneza então, quanta emoção.”, um samba gostoso de ouvir e empolgante na avenida. Mas não podemos esquecer o animado samba 2003 (Casaca), mas lembrado pelo estilo animado do que pelas qualidades de sua letra.

MOCIDADE UNIDA DA GLÓRIA
NOTA 10 - "Eu sou o café e o meu banquete é pra você" (2006)
Grande samba da MUG, no ano anterior já teve um samba que arrasou no sambão do povo com o enredo sobre a Grécia e o refrão “Vou sacudir essa cidade, com a minha Mocidade...”, mas a agremiação de Vila Velha conseguiu se superar em 2006. O samba que fala sobre o café tem uma melodia formidável, de belas variações, refrões fortes, que possuem arrojo e beleza, uma obra contagiante, pena que o resultado na avenida não foi o mesmo, o samba chegou a arrastar, mas sem perder seus méritos e a força de seu melhor refrão “Bota água pra ferver, essa noite brindo a você...”.

INDEPENDENTE DE BOA VISTA
NOTA 10 - "Boa Vista faz do 7 o carnaval da alegria" (2005)
A escola de Cariacica tem uma das melhores safras de composições do carnaval da grande Vitória, todos os últimos sambas estão acima da média, com uma harmonia própria, que valoriza a melodia de tonalidade leve e refrões contagiantes, fica difícil escolher qual a melhor obra da escola. Para não cometer um deslize temos que valorizar o grande samba 2006 homenageando Cariacica e o clássico da escola do ano de 2003 sobre Vitória ("eu já pesquei, meu marlin azul..."), mas meu predileto é o sobre o n° 7, Emersom Xumbrega e Cia. construíram uma obra de fácil captação, melodia refinada e dois refrões totalmente diferentes, o primeiro valorizando a harmonia e o segundo valente, com o objetivo de levantar o público.

NOVO IMPÉRIO
NOTA 9,5 - "Vizinhos, aqui nós temos: Axé, uai e samba no pé" (2004).
Com um enredo falando sobre os nossos vizinhos regionais (Minas, Bahia e Rio de Janeiro), a Novo Império conseguiu construir uma obra animada, que valoriza de forma criativa o enredo e o expressa de maneira adequada. Tem momentos de valorização melódica (Mas, foi nos encantos do Espírito Santo, que eu completei a fantasia...) e a valorização de sua comunidade na parte final do samba. Apesar de ter uma letra longa, essa não atrapalha o desenvolvimento da obra, falta poesia mais sobre entusiasmo na composição da agremiação de Santo Antonio.

ANDARAÍ
NOTA 10 - "Mármore e granito, a força das pedras no Espírito Santo" (2004).
Inovação, essa é a palavra para descrever essa obra valente da agremiação de Santa Marta, composta por uma nova geração de compositores (João Vitor e Felipe Viana), que contribuiu e continua contribuindo e muito para o crescimento da qualidade dos sambas capixabas. O samba é forte, tem refrões nostálgicos (vou cantar, vou sonhar/ Ver o fogo nascer, minha pedra lascar/ pode crer), uma melodia que varia do agradável ao empolgante, e melhor ainda, uma letra que valoriza o enredo, um sambão da venenosa.

UNIDOS DE BARREIROS
NOTA 9,0 - "História-Sonho. Esperança e realidade o Barreiros é só felicidade" (2005).
A Barreiros de 2002/2006 não possui nenhum grande samba, são obras medianas, que às vezes conseguem se superar na avenida, mas em minha opinião o samba 2005 é um pouco superior aos outros. Melodia interessante (principalmente na primeira parte do samba), e um refrão final forte (Timoneiro, ehh/ Me leva pro mar), uma obra convencional, mas apta para ser valorizada.

ROSAS DE OURO
NOTA 9,5 – "Entre todas as Rosas a mais bela sou eu" (2002)
Verdadeiramente uma poesia e o mais belo samba do ano de 2002, a composição consegue assimilar poesia e melodia radiante, boa adaptação do enredo e refrões que unem o lírico a uma letra admirável. A primeira parte do samba é mais bem desenhada harmonicamente, principalmente as quatro linhas finais, um bonito samba, se a gravação do CD não fosse tão ruim seria melhor ainda ouvir essa explosão de bom gosto.

UNIDOS DA PIEDADE
NOTA 10 – "Sou Terra, Água, Fogo e Ar... 50 anos de história. Sou Piedade, sou estrela, vou brilhar" (2005).
A Unidos da Piedade tem um dos melhores conjuntos de composições do carnaval da grande Vitória, muito difícil escolher uma obra entre tantos sambas de qualidade, cito ainda o do ano 2004 (Uma viajem turística, o vôo entre o mar e as montanhas). A obra do ano de 2005 é de grande qualidade melódica, animada, valoriza os 50 anos da escola e acima de tudo, possui um refrão arrebatador (A estrela é do povo, constelação/ Festa do Cinqüentenário, o céu está no chão/ Nasci no berço do samba e quero mais/Muita luz e esperança, amor e paz). A tonalidade tênue da primeira parte do samba ameniza para revelar uma segunda parte (falando sobre a origem da escola) de melodia mais marcheada. O samba de 2005 tem boas características, tanto em sua cadência simples mais eficiente, sendo assim um samba gostoso de ouvir e cantar, mas cito ainda algo que me desagrada muito, que é as duas últimas frases do samba que cantam “parabéns pra você” para a escola, totalmente desnecessário depois de uma boa letra que já está fazendo esta saudação.

PEGA NO SAMBA
NOTA 10 - "Fonte da Capixaba, o centro bebeu de suas águas" (2004)
O samba da agremiação de Consolação é uma delícia de ser escutado, por possuir uma agravável harmonia entre letra e tom melódico. A primeira parte do samba que fala sobre a lenda da índia é um clamor, ainda conta com dois refrões muito bons e alegres. Apesar de ser um pouco longo, a cadência do samba não o deixa perder sua principal característica que é a ternura que admiro tanto em letra quanto melodia. A Pega no Samba teve outros bons sambas, como o do ano 2005 (dai a César o que é de César) e 2002 (o luxo do lixo) mais esses ainda contam com graves imperfeições.

IMPERATRIZ DO FORTE
NOTA 9,5 – "Uma viajem feliz, no rodeio agronegócio da Imperatriz" (2005).
Com um enredo sobre agronegócio, o samba do ano de 2005 é bom, de cadência arrojada, grande atuação do intérprete e acima de tudo, uma melodia valente, de marcação forte que é totalmente contagiante. O samba é muito bom na primeira parte do samba (falando mais sobre os rodeios) e se perde na segunda parte (na qual fala do agronegócio), principalmente porque a composição se enrolou no uso de termos técnicos e nada agradáveis de usar em um samba enredo (processar, distribuir, exportações, mercado, sim senhor, etc...).

TRADIÇÃO SERRANA
NOTA 9,0 – "Benditas Benzedeiras e o reino dos Orixás" (2002)
A Tradição Serrana tem em 2002 seu melhor samba enredo, usando e abusando de termos africanos, utilizando linhas melódicas em sua maioria de bom gosto, o samba é totalmente valorizador do enredo. Uma composição forte, que tem melodia com pontos onde fica evidente sua má construção, de poucas variações, mas a boa letra compensa a falta de inspiração poética e harmônica da obra. Um bom samba, com algumas falhas mais que vale a pena ser escutado, é sem dúvida seu melhor trabalho já apresentado.

CHEGOU O QUE FALTAVA
NOTA 8,5 – "Estórias e lendas de um pescador da Ilha das Caieiras" (2003)
O samba é na verdade uma Marcha enredo, um samba animadinho, de melodia simples e sem variações. O samba é o típico “sambinha legal”, a letra tem nuances de qualidade mais faltou e muito competência criativa em sua elaboração, o que poderia ser bom ficou apenas regular. Ainda lamento os gritinhos de “aiiii” dados pelo intérprete ao longo do samba, totalmente desnecessário. Mas em seu conjunto de elogios, cito a harmonia poética do trecho que fala sobre a relação do rei pela índia, muito inspirado esse trecho, que pena que o samba não acompanhou, ou a capacidade do bom gosto se perdeu em alguma parte do samba.

Agora vamos conhecer quais são os cinco sambas que deveriam ser esquecidos, lembro que de forma alguma estou desmerecendo, desmotivando ou mesmo não valorizando o samba capixaba, na verdade é um fato, nem todo samba é bom, tanto aqui quanto em qualquer lugar do mundo. Toda agremiação pode errar na escolha de seu samba, de seu enredo e todo compositor pode infelizmente não conceber uma grande obra, vejamos quais são os sambas menos interessantes do carnaval da grande Vitória do período de 2002 a 2006:

OS PIORES:

BARREIROS - "Hélio Dórea, Gente Bacana" (2002)
Trechos como “ei gente bacana/ei brotão, bom dia” é duro de ouvir, o samba tem animação mais sua letra é muito ruim.

MUG - "De passo a passo, faço os passos até Anchieta" (2003)
Samba longo, chato, de melodia sofrível, usa e abusa de termos nada usuais (ABAPA, Benevolente, confederação) e acima de tudo, repete o mesmo refrão duas vezes durante a passada do samba, essa é histórica.

CHEGOU O QUE FALTAVA - "Quem ri por último, ri melhor" (2005)
Caramba, esse é duro de escutar, uma marchinha chata, mal construída, de letra absurdamente ruim e trechos bizarros “Tem gente bamba, sambeiro e urubus” além do uso nada radiante do “Quá Quá Quá”, uma grande bola fora da agremiação de Goiabeiras.

BARREIROS – "Barreiros canta a Grande Maruípe" (2003)
Esse samba é de letra sofrível, é animadinho, a melodia tem até momentos de bom gosto, mas cá pra nós, citar que no "Hospital Santa Rita pode cuidar do câncer e que no Hemoes colhe sangue", é muita falta de criatividade.

por Gustavo Fernando*
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VER COLUNAS ANTERIORES:

1- Analise dos Sambas Cariocas de 2007

 

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* O Colunista Gustavo Fernando é estudante de Comunicação Social, sambista, compositor e pesquisador de Sambas de Enredo.
Sugestões, críticas, elogios, etc. Entrar em contato via e-mail: gusfcoutinho@yahoo.com.br