Enquanto não chega ao mercado o CD com os sambas capixabas do carnaval 2007, resolvi fazer uma análise dos sambas cariocas.
Como essa coluna vem para falar dos sambas de enredo e suas várias facetas, nada como falar dos sambas do carnaval 2007 do Rio de Janeiro, porque todo fã de samba enredo que se preze, acompanha as elimatórias dos sambas, corre para as finais e corre mais ainda para escutar as versões oficiais assim que o CD chega às lojas, e como apaixonado e estudioso de sambas enredos, nada melhor que escutar, analisar e discutir os melhores, os piores, as formas de trabalho e como foram compostas essas interessantes e por vezes cultuadas obras musicais.
Vejamos agora minha observação a respeito dos sambas 2007, os comentários estão na ordem da gravação do CD oficial. Confesso que ao contrário de muitos críticos e especialistas em samba, não gostei da safra, a qualidade do CD melhorou, as baterias estão com mais pegada, as músicas estão com uma gravação mais alegre em relação ao ano passado e isso ocorrendo já na primeira passada do samba, mas confesso que se tratando de samba enredo, acho ainda a gravação e as obras do ano de 2005 as melhores dos últimos anos, claro que com algumas ressalvas.
1- VILA IZABEL - O samba que abre o CD é o da atual campeã do carnaval carioca, uma obra dos mesmos autores do samba do ano passado "Soy loco por ti América", apesar de ser mais leve, sem o portunhol do samba 2006, acredito que o enredo “Metamorfoses” poderia ter dado origem a um samba de mais qualidade tanto em letra quanto melodia. O intérprete Tinga leva o samba muito bem, a melodia de poucas variações é gostosa de ouvir e a letra não tem nenhum demérito, samba de passagens rápidas e dois bons refrões. Um samba agradável mais nada marcante. NOTA - 9,6.
2- GRANDE RIO - O enredo “Caxias, o caminho do progresso, o retrato do Brasil” que a Grande Rio vai levar para avenida vai estar acompanhado de um samba longo, de composição métrica mal construída mas com o fator positivo de contar com uma deliciosa melodia. O samba é em tom menor, nada vibrante e para os padrões atuais do carnaval, muito grande. Ainda bem que Wander Pires dá um show na gravação do CD, os refrões são fáceis e arrojados, e as variações melódicas agradáveis, confesso que é um dos sambas que mais gosto de escutar, apesar de discordar e muito de sua qualidade. Frases como “fabricou motor de avião”, “refinaria tem combustível” fazem o samba perder qualidade, mas analisando bem, o enredo foi muito bem trabalhado. Um “grande” samba, de boa melodia e letra fraca. NOTA - 9,3.
3- VIRADOURO - Mais uma vez a escola de Niterói será guiada na avenida por uma obra de Gusttavo Clarão e cantada por Dominguinhos, e mais uma vez teremos uma obra de grande lirismo, poética, em tom baixo e com refrões cheios de ‘oba oba”. Apesar do samba ter momentos de falta de criatividade em sua criação (“no pinball quero brincar”), continuo achando um dos grandes sambas do ano, analisando com cuidado, podemos perceber uma bateria agressiva na segunda passada do samba, contribuindo ainda mais para uma deliciosa degustação desse que não é nenhuma unanimidade entre os especialistas. A obra da Viradouro tem uma melodia esplendida na segunda parte do samba, em um todo de melodia suave e poderá ajudar o carnavalesco Paulo Barros a talvez levar a escola ao título em 2007. NOTA - 9,7.
4- MANGUEIRA - A Mangueira vai para o carnaval 2007 com o enredo sobre a Língua Portuguesa e como deveria ser, vai acompanhado de um samba lindo, com uma letra tão poética quanto lírica, de melodia inspirada e refrões valentes e animados, infelizmente a gravação não foi feita pelo mestre Jamelão, mas foi muito bem guiada por Luizito. O samba enredo da Mangueira é uma verdadeira obra de arte, tudo bem que melodia não é nada excepcional ou inovadora, mas é agradável e qualitativamente acima da média. Parabéns aos compositores por unir alegria (no refrão da casa portuguesa) e poesia (em toda segunda parte do samba). NOTA - 10,0.
5- BEIJA-FLOR - O novamente vencedor Cláudio Russo fez um sambão, para mim, um dos melhores do ano. O enredo sobre África da Beija-Flor é muito bem construído e colaborou e muito para uma obra de boa letra, passagens melódicas agradáveis, apesar de um tom baixo e em alguns momentos de variações rápidas (como na passagem da primeira parte do samba para o refrão do meio). Muitos reclamam do excesso de termos africanos na música, mas consta no enredo, tem que constar no samba. Em minha opinião o samba 2007 da Beija-Flor é o seu melhor dos últimos 3 anos, uma obra empolgante (apesar do tom baixo), de letra correta e harmonicamente agradável. NOTA - 10,0.
6- UNIDOS DA TIJUCA - Acho esse o pior samba dos últimos anos da Tijuca, o enredo sobre fotografia poderia render uma obra mais completa, de letra mais trabalhada e melodia envolvente, mas como o compositor Jorge Remédio ganha seguidas vezes, fica difícil manter o nível. Porém muitos consideram essa a sua melhor obra, mesmo com uma melodia chata e repetitiva, mesmo com uma letra repleta de bobagens... mas vamos também elogiar, o refrão do meio “Pára, o mundo pára...” é muito bom, um dos mais empolgantes do ano. O samba cresce um pouco na segunda parte do samba, mas volta a perder a empolgação com um refrão grande e chato falando mais sobre a escola. A Tijuca tem uma obra que pode crescer na avenida mais não apagará seus defeitos qualitativos. NOTA - 9,4.
7- PORTELA - A letra é boa, a qualidade da obra supera o enredo sobre o Pan-Americano, mas vamos ser realistas, o samba da querida Portela é o mais chato do ano, confesso que não consigo escutar essa tão cultuada obra do jovem Diogo Nogueira, filho do sambista João Nogueira. O samba é bonitinho, de melodia leve, sem grandes variações ou qualidades, uma letra comum, mas falta àquela alma de samba, aquela pegada que na avenida vai fazer falta e muito. O samba do ano passado era a mesma coisa, boa melodia, boa letra, obra admirada, mas na avenida não funcionou, simplesmente porque o samba é muito sem graça, em tom baixo, pouco empolgante. Como ponto positivo a melodia da segunda parte do samba, muito agradável, mas logo depois, volta o comodismo clássico. NOTA - 9,4.
8- IMPÉRIO SERRANO – Não é que o tão criticado samba do Império Serrano se tornou um bom samba na gravação oficial, méritos de Nêgo, um dos melhores intérpretes do carnaval carioca. A composição de Arlindo Cruz é vaga, confunde ainda mais o enredo “Ser diferente é normal”, não tem nenhuma melodia poética, muito menos letra bem trabalhada, mas é delicioso de escutar. O samba tem dois refrões fortes e animados, uma melodia “comum” mais aguerrida e poderá contribuir para um grande desfile do Império, definitivamente um dos sambas que mais gosto de escutar no CD, uma obra que pode empolgar a Sapucaí, lembra muito no quesito harmônico o samba de 2005, aliás, o refrão do meio sobre o próprio Império é uma maravilha. NOTA - 9,7.
9- IMPERATRIZ - Para mim o samba mais difícil de analisar, tanto por suas qualidades melódicas quanto pela péssima letra aliada a uma vaga idéia de enredo sobre a Noruega e o bacalhau idealizada pela carnavalesca Rosa Magalhães. Além de ser o samba que mais escuto do CD, é o de mais variações melódicas, a melodia é rica e totalmente irradiante, a interpretação de Preto Jóia é iluminada, e a animação da gravação é empolgante, mas na contra mão de tudo isso temos a pior letra do ano, cheia de péssimas colocações. O samba é meio marcheado, lembrando aqueles sambinhas clássicos dos anos 80, tal como o Tititi do Sapoti, livre, leve e solto, mas muito legal de se ouvir e curtir. Falta poesia, falta frases líricas mas sobra animação, falta tonalidades bem construídas mas temos variações melódicas belíssimas escondidas em uma letra pobre e grossa. A Imperatriz tem o samba mais “legal” e banal do ano, teremos que esperar a apuração do carnaval para saber o resultado. NOTA - 9,1.
10- MOCIDADE - A Mocidade vai ter mais uma vez uma obra construída pelo recém falecido compositor Toco, autor de antológicos sambas como: “Vira, virou a Mocidade Chegou” e “Chuê, Chuá”. Mais podemos observar que sua capacidade de realizar obras marcantes e inesquecíveis já havia morrido a muito tempo, o samba para 2007 da Mocidade tem uma das melhores letras do ano mas melodia pesada e apática, nada horrível, mas duro de ficar escutando repetidas vezes. Agora o único momento empolgante do samba é no refrão do meio “Amar, viver, sonhar, acreditar”, ele é poético, bem construído e melodicamente admirável. Um samba do mesmo nível dos anos anteriores, bem construído em letra, mas sem a empolgação que fez a Mocidade uma das maiores escolas de samba da década de 90. NOTA - 9,5
11-
SALGUEIRO - O enredo "Candaces" rendeu um samba
agradável, de boa letra, melodia nada radiante mas bem trabalhada,
não é uma obra prima, mas não deixa de ser um grande
samba. Os refrões são valentes, os termos africanos contundentes,
a atuação do intérprete Quinho, satisfatória.
Muitos especialistas acham esse um dos melhores sambas do Salgueiro, eu
apenas considero uma boa obra. O samba une animação, empolgação
e qualidade, deve funcionar muito bem na avenida, contribuindo ainda mais
para o grande carnaval que promete o Renato Laje.
NOTA - 9,8.
12- PORTO DA PEDRA - Talvez a obra prima do ano, mas por enquanto, o melhor samba já levado a avenida pela Porto da Pedra. O samba tem letra excepcional, muito bem construída, uma poesia a ser contemplada, conta ainda com uma melodia pesada mais brilhante, sem falar na sensacional capacidade de unir beleza e arrojo de seus dois refrões, não dá para saber qual o mais admirável. A atuação do intérprete Luizinho é acima da média, concordo que o samba é por vezes pesado, em tom baixo, a primeira vista não emplaca, mas após ouvir algumas vezes não consigo tirar da cabeça o trecho “E o tigre encontra no leão, a maior inspiração, de um mundo novo”, sensacional. NOTA - 10,0.
13- ESTÁCIO DE SÁ - Para finalizar o CD dos sambas de enredo 2007 vem a reedição do samba “Tititi do Sapoti”, uma das obras mais famosas do carnaval carioca em todos os tempos. O samba é praticamente uma marchinha, rápida, de melodia simples, agradável, animada, bem construída sobre uma letra simplória mais correta. A famosa obra tem seu ponto de luz no trecho “Baila no céu a esperança...”, um misto de qualidade melódica e letra. O Tititi do Sapoti é quase garantia de sucesso na avenida, seja pela radiante alegria que emana ou mesmo pela forte pegada da bateria da Estácio de Sá, só não gostei da gravação, a original com Dominguinhos era infinitamente melhor, uma pena. NOTA - 9,7.