ENTREVISTA COM KLEBER SIMPATIA INTÉRPRETE OFICIAL DA UNIDOS DE JUCUTUQUARA

Ficha Técnica

 

EU SOU BARRO, EU SOU CHÃO!
EU SOU PÓ, EU SOU POEIRA!
SOU FILHO DESSE TORRÃO
EU SOU A RAÇA BRASILEIRA

EU MORO NO PÉ DO MORRO
QUE FICA AO LADO DE UMA FAVELA
É TÃO PERTO QUE EU ACHO QUE FAÇO PARTE DELA
É LA QUE EU TOCO CAVACO
E NO PARTIDO ALTO SOU CONSIDERADO
SOU O RETRATO FALADO
DO SAMBA CADENCIADO

MINHA FILOSOFIA É
CANTAR OS MEUS VERSOS COM SIMPLICIDADE
E PROVAR QUE O MORRO TAMBÉM
TEM DIREITO A FELICIDADE.

(Zé do Cavaco, Mathias de Freitas e Elaine Machado)



Cleber Gomes, um menino carioca que nasceu no dia vinte e sete de março, aos oito anos perdeu sua mãe e veio morar em Vitória, precisamente no morro do Moscoso. Foi adotado por sua tia Auxiliadora, e avó “dona Maria Coquinho” ao qual ele tem um enorme carinho e admiração. Este menino cresceu vendo e ouvindo movimentos de samba em sua casa, pois seu tio Alci do Cavaco (in memorian) era compositor e não sabia que este sobrinho um dia seria o Cleber com “K” dono de uma voz irreverente e única no samba capixaba. O “tio” Alci de onde estiver deve estar muito orgulhoso com este menino.

Kleber Simpatia, nome artístico adotado por ele, foi para a passarela do samba praticamente por acaso e o próprio administra isto tudo com muita naturalidade e diz que, para ele cantar é uma brincadeira como o carnaval deve ser.

Começou na Imperatriz do Forte de São João, hoje está na Unidos de Jucutuquara fazendo um excelente trabalho e mantendo a casa cheia com sua voz e energia que passa para os que lá vão prestigiar os ensaios. Diz que tem sorte porque sempre as equipes que o acompanham, tanto na Imperatriz como na Jucutuquara interagem bem com o seu jeito de cantar, sem contar com o profissionalismo de cada um.

Sabemos que a posição que o mesmo ocupa é muito cobiçada no mundo do samba, pois quem não tem a vaidade de ser primeiro intérprete e ter sua voz gravada no CD de carnaval? Mas ele não se preocupa com isso e diz: Cada um tem seu momento e o mais importante é saber aproveitá-lo e transformá-lo no melhor, porque nunca conseguiremos agradar o público por unanimidade.

Flamenguista convicto e o que mais gosta de fazer é bater papo e conquistar novas amizades, segundo ele conhecer as pessoas só trás aprendizado em nossas vidas.

“O MUNDO DO SAMBA É UM JOGO, ELE FINGE QUE NOS ENGANA MAS A GENTE ENGANA ELE, ELE ARMA O JOGO, MAS A GENTE PASSA POR CIMA E FAZ O GOL.”
( Kleber Simpatia – Intérprete capixaba)

E VIVA SAMBA!


VOCÊ VEIO PARA VITÓRIA AINDA PEQUENO E JÁ APRECIANDO O SAMBA NOS FALE UM POUCO SOBRE ISSO?

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Então, aos oito anos vim do Rio morar no morro do Moscoso onde fui adotado com muito amor pela minha tia Auxiliadora que passou a ser minha mãe. Meu tio Alci do Cavaco sempre fazia samba pra Lira do Moscoso, Rosas de Ouro, Piedade... E eu sempre acompanhando em casa aquele movimento todo de gente fazendo samba. Era muito legal acompanhar o desfile da Lira do Moscoso da arquibancada. Mas naquela época a bola da vez era a São Torquato e todo mundo esperava por ela na avenida. Era muito bom, minha avó nos levava e junto iam também a farofa, biscoito, suco, tudo pra gente passar a noite toda no Sambão.

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E SUA CHEGADA NO SAMBA COMO ACONTECEU?

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As coisas foram acontecendo naturalmente. Eu cantava em um grupo de pagode lá do Forte de São João, nunca podia imaginar que eu seria intérprete de samba enredo. Um belo dia o Gilson da Rosas e Robinho da Imperatriz me convidaram pra fazer parte do grupo de intérpretes da Imperatriz do Forte. Depois o Gilson saiu e o Lauro da Andaraí assumiu na qual eu tive uma verdadeira aula, tenho grande respeito por Lauro. Aprendi muita coisa com ele. Quando o Lauro saiu da escola a direção me convidou para assumir, foi quando fiz minha estréia e primeira gravação no CD como intérprete oficial, ai veio aquele frio na barriga.

E KLEBER SIMPATIA NA JUCUTUQUARA?

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Foi de uma maneira muito simples, eu fui a quadra da escola defender um samba, recebi o convite do então presidente Rogério Sarmento através do Armando Chafik que era diretor na época, a princípio eu recusei, até porque estava aborrecido porque nosso samba não tinha ganho e eu ainda tinha um compromisso com a Imperatriz mesmo insatisfeito com a gestão da época. No ano seguinte o Rogério me fez o convite de novo e eu aceitei. Mas mesmo assim antes de me anunciarem como intérprete oficial eu passei por um teste sem saber.

NÃO CAUSOU NENHUM MAL ESTAR SUA SAÍDA DA IMPERATRIZ PARA A JUCUTUQUARA?

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Graças a Deus não, o pessoal lá todo me apoiou e continuo amigos de todos até hoje. Até porque na época que eu sai a comunidade não estava muito satisfeita com a gestão. Hoje a Imperatriz é outra escola de samba, é uma escola respeitada e com pessoas sérias.

QUAL O PESO DA RESPONSABILIDADE EM ASSUMIR UMA ESCOLA QUE NA ÉPOCA ERA CAMPEÃ DO CARNAVAL E TEVE INTÉRPRETES CONSAGRADOS COMO LUIZ CARLOS XAVIER E LAURO?

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Foi muito engraçado, acho que minha ficha nunca caiu, parecia que eu estava flutuando, como pra mim é tudo natural, as coisas vão acontecendo, eu não senti nenhum peso. Depois que eu estava dentro que fui me firmando e descobrindo onde eu estava pisando. Conhecia a escola, mas não tinha nenhuma aproximação com a bateria e o grupo, ai a ficha caiu e eu tive que me adaptar. Mas o único nome que me fez tremer na base foi mestre Ditão, quando me dei conta que era ele que estava na bateria eu tremi mesmo. Mas ele é excelente e faz a bateria encaixar com o samba e com nosso modo de cantar, um verdadeiro profissional que me ajudou muito.

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TODO ARTISTA TEM UMA FONTE DE INSPIRAÇÃO, QUAL É A SUA?
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Xavier! Eu adoro, ele é muito bom. Tive muita influência do Gilson e Lauro também, mas o Luiz Carlos Xavier interpretando, num CD, por exemplo, é bom demais. Sempre que ele está na quadra tenho obrigação de reverenciá-lo e anunciá-lo, falo o nome dele mesmo, porque às vezes as pessoas tem memória curta e se você não lembrar, quem já passou fica no esquecimento.
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CANTAR, CANTAR, CANTAR DURANTE SETENTA MINUTOS NA AVENIDA E SEGURAR OS ENSAIOS COM UMA QUADRA LOTADA SEM DEIXAR A PETECA CAIR, COMO ISSO SE EXPLICA?
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Muito simples! Basta começar a cantar. Mas tem um detalhe, aquilo que eu faço é incorporado, não adianta você pedir pra eu fazer agora que não consigo. Descobri que gosto do que eu faço no samba, no dia em que cantei pela primeira vez. Não corri atrás de nada, as coisas vieram e vem acontecendo. Quando vejo a quadra e avenida lotada tudo é uma consequência de um trabalho onde muita gente esta envolvida, e eu simplesmente procuro fazer minha parte da melhor maneira como um profissional que tem um contrato e compromissos a serem cumpridos.

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QUAL FOI SUA REAÇÃO QUANDO O ATUAL PRESIDENTE DA UNIDOS DE JUCUTUQUARA BRAULINO SILVEIRA ANUNCIOU NA IMPRENSA QUE A ESCOLA NÃO DESFILARIA EM DOIS MIL E DOZE?

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Desde os primeiros ensaios eu percebi que algo estranho estava acontecendo, a escola não era a Jucutuquara que eu conhecia. Logo depois desta triste noticia de não desfilar, foi anunciado várias vezes que a escola desfilaria, mas esse “NÃO” foi tão forte que desanimou as pessoas. Em nenhum momento foi levado em consideração a tradição e o sentimento ali existente. Não foi legal ver as pessoas chorando, desesperadas... Eu na condição de estar na escola tinha o papel de levantar este pessoal. No meu setor eu tinha um microfone para animar a quadra, então durante todos os ensaios eu anunciava várias vezes que a escola desfilaria como sempre. Eu acreditei. Quando entrei na Jucutuquara ela já era campeã do carnaval, eu participei de mais três campeonatos verdadeiros com pessoas que sabem fazer carnaval, não seria justo a escola não desfilar, mas isso não me compete. Muita gente pensou que eu abandonaria a escola. Tenho um contrato para defender o samba, mas naquele momento de dificuldades o meu papel foi abraçar a causa e incentivar todo mundo. Mas acredito também que o que está acontecendo hoje é um anúncio de um futuro melhor para a escola. Mas o presidente Braulino colocou a escola na avenida e isto é o importante. Quando comecei a acompanhar o carnaval a bola da vez era a São Torquato, todo mundo ia pra avenida pra vê-la passar, mas um dia já foi Piedade, Novo Império... Todo mundo tem seus momentos, deixar de desfilar não é a melhor opção.

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VAMOS MUDAR O RUMO DA CONVERSA. SUA OPINIÃO SOBRE OS SAMBAS CAPIXABAS?

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Sou a favor que o samba tenha a cara da escola. Não tenho nada contra aos sambas do Rio de Janeiro, até porque tem um pessoal que faz grandes sambas para nós capixabas e eu quero mais que nossos compositores vão lá para melhorarem, mas gosto do estilo do nosso samba. O Rio tem um jeito de fazer, São Paulo tem outro. Olha só, um samba maravilhoso de se cantar foi o “Máscaras” de dois mil e cinco da Jucutuquara (eu não estava na escola ainda), um samba leve e que você se diverte. O Convento da Penha também foi maravilhoso. Temos compositores excelentes como Francisco Velasco. Temos também um problema em Vitória que é na escolha do samba; dificilmente eles convidam o intérprete para sentar-se à mesa julgadora e às vezes quando somos convidados não levam em consideração nossas observações. Sambas apadrinhados quase nunca são os melhores para a escola.

UM MOMENTO MARCANTE DO CARNAVAL EM SUA VIDA?
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No dia do desfile em dois mil e nove, fui em Caratoira cortar o cabelo, na volta, eu dentro do ônibus vi o reflexo da condução de trás escrito terminal de Vila Velha, me deu uma coisa que eu desci e entrei nesse veículo e fui parar lá no Convento da Penha, parei numa lojinha e comprei umas trinta fitinhas e subi, chegando lá o rapaz falou que era pra eu subir rápido porque a igreja ia fechar, já eram quase dezessete horas. Entrei na igreja fiquei diante da Santa e cantei o samba que era em homenagem aquele patrimônio, fiquei arrepiado. Foi um momento meu com Nossa Senhora. Na avenida, eu cantando aquele samba e a escola passando pra mim foi o melhor de minha vida juntando com a despedida da Andressa, ela com aquela fantasia linda cheia de anjos, realmente foi um momento marcante em minha vida. Nunca vou me esquecer.

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“CADA PESSOA QUE PASSA EM NOSSA VIDA, PASSA SOZINHA,
É PORQUE CADA PESSOA É ÚNICA E NENHUMA SUBSTITUI A OUTRA.”

(Charlie Chaplin)




 



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