ENTREVISTA COM A PORTA-BANDEIRA DÉBORA SABARÁ
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Técnica |
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"TODO
DIA A INSÔNIA
Nascida na Pró-Matre e crescida na comunidade do bairro de Santa Marta, que é um reduto de sambistas assim como vários existentes em nossa cidade. A Débora não é apenas uma porta-bandeira transexual que gosta de escolas de sambas, ela é quadrilheira de carteirinha, ativista de movimentos populares e culturais, faz fantasias para várias escolas do carnaval capixaba, é representante nacional do movimento LGBT (lésbicas, gays, bi-sexuais e transgêneros), onde defende esta bandeira com muita garra e luta em prol de uma civilização humana, racional e sem preconceitos. Trava uma guerra acirrada contra a homofobia. Sonha e acredita que possa existir um mundo melhor, por isso vive sem medo de ser feliz, e está sempre quebrando barreiras e abrindo caminhos para quem quiser passar. Em sua vida existe uma grande paixão, ao qual ela sente um enorme orgulho, que é o seu filho do coração Caio Felipe que foi para seus braços com apenas cinco dias de nascido. Ser mãe foi mais um sonho realizado em sua vida. Durante toda nossa entrevista, ela fez questão em frisar seu agradecimento a Imperatriz do Forte por tê-la aceito, e por este feito, a escola ganhou o Troféu baiano “Triangulo Rosa” por ser a única escola a dar oportunidade a uma porta-bandeira transexual.
A Equipe Viva Samba teve a honra de bater um papo num lugar muito
simpático que é o “Recreio dos Olhos” com
esta pessoa tão agradável, alegre como as cores do arco-íris,
e de bem com a vida que é a Débora. E por ironia do
destino ou coincidência, era aniversário do mestre-sala
Tony Silvaneto, que juntamente com sua esposa Delma conseguiram três
notas máximas no carnaval capixaba. Sonho que a Débora
almeja conquistar um dia na passarela do samba.
“E
AQUELES QUE FORAM VISTOS DANÇANDO
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COMO SE DEU SUA TRAJETÓRIA NO SAMBA? |
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QUE
TIPO DE TRABALHO VOCÊ COMEÇOU A DESENVOLVER DENTRO DA ESCOLA? |
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REZA A LENDA QUE VOCÊ JÁ DECIDIU UM CAMPEONATO NA AVENIDA
COMO CARNAVALESCA, CONFERE? |
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E
ESTA OPÇÃO EM SER PORTA-BANDEIRA, COMO QUE ACONTECEU? |
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x Olha só, no carnaval desde pequena eu sempre admirava a beleza da porta- bandeira em conduzir o pavilhão, no amor, no respeito. A vontade de ser porta-bandeira foi crescendo dentro de mim, me imaginava conduzindo o pavilhão de uma escola. Eu girando com a bandeira sempre foi um verdadeiro sonho, mesmo sabendo que poderia sofrer preconceito por não ser mulher. Ai eu me lembrava que quando era coreógrafa da comissão de frente, não existia preconceito, eu abria a escola de samba puxando a própria comissão. Então quando surgiu essa idéia, eu conversei com meus amigos em amadurecê-la. Eles acharam interessante, e eu levei adiante este sonho. x |
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MAS
VOCÊ SOFREU ALGUM TIPO DE PRECONCEITO, SÓ PELO FATO DE
SER UMA PORTA-BANDEIRA TRANSEXUAL? |
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x Sim, e como! Sofri preconceito justamente de quem eu não poderia imaginar, o preconceito veio do próprio povo do samba. Sabemos que há muitos anos atrás foram as escolas de samba que acolheram o movimento LGBT. Onde eram pessoas excluídas da sociedade e não tinham onde se divertir. Então essas pessoas vieram mostrar seus talentos, belezas e divertimento através das escolas de samba, eu jamais poderia imaginar que o preconceito viria dos componentes das escolas de samba, mas veio, pouco, mas veio. x |
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E QUAL ESCOLA QUE QUEBROU ESTE TABU E LHE DEU O PAVILHÃO, E O
MESTRE-SALA COMO ENCAROU TER QUE DANÇAR COM UM TRANSEXUAL? |
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x Sou muito agradecida e me sinto honrada com a Imperatriz do Forte por me fazer realizar o sonho de ser porta-bandeira, fiquei muito feliz, felicíssima por ter sido indicada ao prêmio “Faisão de Ouro”, isso é de suma importância para nós, não só da escola de samba, mas também nós transexuais e travestis. Só o fato de ser indicada já quebrava todos aqueles preconceitos que eu sofri, foi muito legal todo mundo me ligando, me parabenizando só por ser indicada, e depois ganhar o troféu foi melhor ainda. Mas só o fato de ser indicada foi tudo de bom, esse prêmio repercutiu em várias cidades do Brasil, outro dia estive em Brasília num movimento e me anunciaram como a porta-bandeira premiada da escola de samba de Vitória, isto é muito interessante, pois é um prêmio inédito para um transexual. Quanto aos mestres-salas; sempre foi muito natural para eles dançarem comigo, até porque os dois que dancei até agora sempre foram meus amigos, que são o Gerdan e Romário. x |
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NÃO CONSTA NO REGULAMENTO DO CARNAVAL CAPIXABA, QUE PRA SER PRIMEIRA
PORTA-BANDEIRA NECESSARIAMENTE TEM QUE SER DO SEXO FEMININO, VOCÊ
JÁ SE IMAGINOU DEFENDENDO A NOTA MÁXIMA PRA SUA ESCOLA
NA AVENIDA? |
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x Claro! Acho que o sonho de todo mundo que está na reserva é ser titular um dia, e no caso da porta-bandeira e mestre-sala não pode ser diferente. Tenho este sonho de conduzir a escola e tentar garantir um dez. Sei que é uma grande responsabilidade, dá um certo medo que é natural numa competição. Mas tomara que um dia eu possa passar na avenida como primeira porta-bandeira e conquistar a nota máxima. x |
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COMO A DEBORA SABARÁ VÊ AS ESCOLAS DE SAMBA CAPIXABA? |
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x Eu consegui ser respeitada no carnaval, consegui o respeito dos integrantes das escolas, quando eu chego às vezes eu sinto um ou dois com deselegância, mas eu administro isso muito bem, mas a maioria das pessoas me respeita muito. Eu participo de processos de ONGS, de movimentos e sempre tento colocar o trabalho das escolas de samba. A escola de samba é muito mais importante que um simples desfile. Quando vejo aquela quantidade de pessoas dentro do Sambão do Povo defendendo a sua bandeira, cantando o samba e quando acaba aquilo tudo a gente vê que não teve morte e não teve violência, a escola de samba passa a ser muito mais importante que o simples fato de desfilar. Temos que trabalhar em rede, em conjunto e com seriedade junto com o poder público, os dirigentes e componentes para podermos englobar todas as tribos. Assim teremos um trabalho mais transparente, rico e sem preconceito. x |
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QUAL SUA ESCOLA DE CORAÇÃO? |
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x Olha só, com todas a lembranças da Andaraí quando eu era criança, a Rosas de Ouro que eu passei muito tempo com ela, inclusive sendo campeã no Grupo de Acesso e também fiz parte da história daquela escola, o que é melhor ainda. Mas hoje eu me sinto tão bem com a comunidade do Forte São João que meu carinho é todo verde e rosa da Imperatriz. Eu chego lá e sou reconhecida e respeitada não só como porta-bandeira, mas como ser humano. Eu subo o morro, desço o morro, ando tranquilamente dentro da comunidade e sou muito bem tratada. Hoje sou Imperatriz. Mas a gente que ama o carnaval acaba dividindo o coração com todas as escolas, seria muito bom se todas as escolas fizessem um bom desfile sempre. x |
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E
A VAIDADE NO MUNDO DO SAMBA? |
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x Para quem convive direto com o preconceito, administrar a vaidade numa agremiação é apenas um detalhe. Basta sabermos contorná-la. Existem pessoas com egos enormes. Eu me sinto tão bem no samba e tem tanta gente que quer ter mais espaço para poder desenvolver um trabalho legal, pessoas como eu querem fazer muito mais, mas às vezes a vaidade de alguns não permite este espaço. Os presidentes deveriam abrir mais a cabeça e dar oportunidade para quem quer trabalhar em prol do carnaval. Se a vaidade for menor o trabalho em equipe funciona melhor. x |
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UM
MOMENTO INESQUECÍVEL NO CARNAVAL CAPIXABA? |
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x Quando meu irmão pediu pra eu desfilar na Andaraí pela primeira vez, ele falou que seria a vontade dele, só que ele veio a falecer antes do carnaval. Quando subi no carro da escola e lembrei dele eu me emocionei durante todo o desfile. Agora como porta-bandeira, quando cheguei no final da avenida e vi a Andressa da Jucutuquara gritando meu nome, foi muito bom. A Andressa foi a pessoa que eu me espelhei e que me deu o maior apoio. Vi o João Felipe, ver outros mestres-salas e portas-bandeiras também que estavam ao meu favor ali me aplaudindo foi emocionante. Quando cheguei no final do desfile estava a comunidade LGBT toda lá fora com água, refrigerante me esperando para tirar fotos e me agradecendo pelo feito de ter quebrado mais uma barreira no nosso mundo. Isso foi muito gratificante. x |
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VAMOS FALAR UM POUCO DA DANÇA DE QUADRILHA NA SUA VIDA? |
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x Por curiosidade com a quadrilha aconteceu igual ao samba, em noventa e oito quando eu comecei a querer dançar quadrilha, eu fui a primeira travesti a entrar em cena, depois de mim vieram um monte, hoje se vocês forem à festa de quadrilha que acontece no Sambão do Povo, nós quadrilheiros conseguimos lotar praticamente metade de toda aquela estrutura, e se você parar e olhar, hoje a maioria das pessoas que dançam quadrilhas, (não estou generalizando), mas a maioria que esta ali se divertindo, são do movimento LGBT entendeu? E este movimento assumiu uma grande parcela de não deixar esta cultura acabar. Este fato aconteceu comigo no passado que também fui apoiada por outras pessoas como o Marcos Aurélio presidente da Imperatriz do Forte e que também sofria o mesmo preconceito. Marcos Aurélio que me apoiou lá em noventa e oito, hoje me apoiou pra eu ser porta-bandeira da escola dele. Isso é muito interessante, eu só tenho a agradecer ao Marcos Aurélio, ao Osvaldo carnavalesco e a todas as pessoas que contribuíram para que eu pudesse realizar estes sonhos, inclusive ao Gerdan que foi o primeiro mestre sala que aceitou dançar comigo. x |
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E O SEU NOME DE REGISTRO VOCÊ AINDA LEMBRA? |
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E A HISTÓRIA DE SER MÃE, COMO ISSO ACONTECEU? |
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E ELE GOSTA DE ESCOLAS DE SAMBAS OU PREFERE SER QUADRILHEIRO? |
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QUAL A MENSAGEM QUE VOCÊ DEIXA PRA TODAS AS TRIBOS DO MUNDO DO
SAMBA? |
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“EU PREFIRO SER ESTA METAMORFOSE AMBULANTE
DO QUE TER AQUELA VELHA OPINIÃO FORMADA SOBRE TUDO.”
(Metamorfose ambulante – Raul Seixas)

Porta-bandeira Débora Sabará
e mestre-sala Romário
