ENTREVISTA COM O APRESENTADOR E SAMBISTA FERREIRA NETO

Ficha Técnica

"EU JÁ PASSEI POR QUASE TUDO NESSA VIDA,
EM MATÉRIA DE GUARIDA
ESPERO AINDA A MINHA VEZ
CONFESSO QUE SOU DE ORIGEM POBRE
MAS MEU CORAÇÃO É NOBRE
FOI ASSIM QUE DEUS ME FEZ...
DEIXA A VIDA ME LEVAR
VIDA LEVA EU
SÓ POSSO LEVANTAR AS MÃOS PRO CÉU
AGRADECER E SER FIEL
AO DESTINO QUE DEUS ME DEU
SE NÃO TENHO TUDO QUE PRECISO
COM O QUE TENHO, VIVO.
DE MANSINHO LÁ VOU EU
SE A COISA NÃO SAI DO JEITO QUE EU QUERO
TAMBÉM NÃO ME DESESPERO
O NEGOCIO É DEIXAR ROLAR
E AOS TRANCOS E BARRANCOS LA VOU EU!
E SOU FELIZ E AGRADEÇO
POR TUDO QUE DEUS ME DEU...”
(Deixa a vida me levar - compositor: Serginho Meriti)

A entrevista de hoje é com um verdadeiro brasileiro e autêntico sambista capixaba que deixa a vida o levar com duas coisas que a maioria do povo gostaria de fazer que é: falar de esportes, mais precisamente futebol e samba. Como ele mesmo diz; “o que eu faço, e mais a minha família, já são suficiente para a minha felicidade”. Filho do seu Zezinho, ou melhor, Zé da bola (in memorian) e da grande dona Yolanda (in memorian). Quem não lembra quando esta senhora passava na ala das baianas da Novo Império e o apresentador da TV Capixaba muito entusiasmado anunciava com emoção: “olha lá a dona Yolanda, ela é a minha mãe”, como se fosse um menino da educação infantil anunciando a chegada da própria mãe na porta da escola.Neto de Zezé fogueteiro ou Zezé cara queimada que foi o primeiro comerciante a ter loja de fogos na Vila Rubim. Estamos falando do José Ferreira da Costa Alves Neto, o famoso Ferreira Neto que leva a alegria do carnaval e do esporte para dentro da casa de milhares de pessoas, ou então para quem bem o conhece fora do vídeo ele é apenas o “Nego”, moço simples que nasceu no dia quatro de maio e não tem medo de ser feliz, assim como nunca deixa de falar em suas origens e infância que passou com muito orgulho entre Vila Rubim e Alto de Caratoíra.

Deus me deu o privilegio de conhecê-lo há muito tempo no mundo do samba, e sei o quanto ele é uma pessoa do bem, feliz e amiga. Adoro quando ele me fala que eu represento uma irmãzinha caçulinha na vida dele e que gosta muito de mim, adoro, porque sei que é verdadeiro, e a recíproca é a mesma. Desculpem-me e nem fiquem com ciúmes meninos de plantão, sei que todos vocês são lindos; mas o Ferreira neto e seu irmão Índio já foram considerados os sambistas mais bonitos do carnaval capixaba. Se houvesse na época concurso para “Muso” do carnaval (risos) com certeza eles ganhariam. Mas a verdadeira beleza desse mestre na arte de ser feliz está na gentileza, carinho e amor por tudo que faz.

A Equipe Viva Samba foi recebida com a mesma alegria contagiante que ele transmite quando está apresentando o “Botequim do Ferreira” ou o desfile das escolas de samba. Então aproveitamos para deixar registrado este momento que jamais poderia passar despercebidos para o mundo do samba capixaba.


COMO SE DEU TODA ESTA PAIXÃO PELO CARNAVAL NA SUA VIDA?

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Na verdade este meu amor é uma coisa inexplicável, eu tenho uma história de vida dentro do carnaval que herdei dos meus pais, pra você ter uma ideia, o papai foi uma figura que em mil novecentos e cinquenta foi convocado para a copa do mundo aqui no Brasil e dentro do Maracanã, quem não queria estar no lugar dele? Então chegou o carnaval e ele fugiu da concentração e veio para Vitória brincar como bom folião que era. A dona Yolanda minha mãe foi nascida e criada em Botafogo no Rio de Janeiro e apaixonada pela Portela, ela saia do bairro para ir aos ensaios lá em Madureira, quem conhece o Rio sabe como é longe. Eu e meu irmão nascemos e a mamãe não admitia passar o carnaval sem que nós tivéssemos fantasias, todo ano nós íamos fantasiados para a matinê do Clube “Náutico Brasil”. Eles sempre acompanharam e fizeram parte da Diretoria da Novo Império e eu e meu irmão Índio acabamos embarcando nessa também. Taí a razão dessa paixão.

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QUANDO VOCÊ COMEÇOU A SE ENVOLVER COM ESTE MUNDO QUE É O SAMBA CAPIXABA, E PORQUE É UM IMPERIANO DE FÉ SEM NEGAR A NINGUÉM?

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Realmente nunca neguei que sou Imperiano, como já te disse já nasci envolvido com o samba. O fato do meu coração bater mais forte para a Novo Império é muito simples, me criei no Alto de Caratoíra, fui comissão de frente durante seis anos, ajudei a minha escola a ganhar quatro títulos, e sem falar que antes de ser comissão de frente tive participações no anonimato desfilando em alas comuns como qualquer outro folião como um morador do bairro e integrante da comunidade e família Imperiana.
Eu nunca fiz parte da diretoria da escola, a minha mãe fez, meu irmão sempre fez, não sei se ele ainda faz. Eu sempre ajudei indiretamente, nunca fiz parte oficialmente com registro em ata. Quando o bloco “Unidos do Bayer” foi fundado na rua Sete de Setembro, eu ajudei e participei da diretoria, era muito legal porque era um bloco irreverente onde todos podiam participar sem discriminação, na verdade era um bloco bem alternativo, e era pau a pau com o “Alegria Alegria” de Caratoíra” e “Unidos de Jucutuquara”. Mas na Novo Império especificamente minha contribuição só foi como folião.

JÁ DESFILOU EM OUTRA ESCOLA DE SAMBA QUE NÃO SEJA A NOVO IMPÉRIO?

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Olha só, eu tenho um carinho muito grande pela Piedade, a única escola que eu desfilei depois da Novo Império foi a Piedade, eu me recordo que naquela época lá em cima onde era a sede da Batucada Mocidade, onde a Piedade ensaiava, a gente ia comer uma rabada com feijão manteiga aos sábados, saíamos da praia, era incrível, hoje eu estou com cinquenta e três anos de idade e me lembro que fazíamos isso com dezoito ou vinte anos, então eu, meu irmão e o Robertão éramos uns dos poucos que subíamos o morro de sunga de praia e sem camisa, e pra você subir o morro sem camisa tinha que ter muita coragem, mas éramos sempre bem recebidos e eu não era o Ferreira Neto não, eu era simplesmente o Nego filho da dona Yolanda, que jogava bola no Parque Moscoso amigo do samba e tal, sempre tive uma identidade e sempre gostei muito daquela turma do samba da Piedade.

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E O “NEGO” HOJE CONTINUA FREQUENTANDO ALGUM REDUTO DE SAMBA, OU É SÓ O FERREIRA NETO QUEM VAI?
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Eu sempre tive um acesso muito legal graças a Deus a qualquer reduto de samba. Quem vai ao samba é o “Nego” e quem trabalha no samba é o Ferreira Neto, mas os dois se formam uma só pessoa que tem sentimentos e emoções, seja quando esta apresentando o “Botequim do Ferreira” ou fazendo comentários do desfile do carnaval capixaba. Hoje é muito fácil você ir numa feijoada seja ela na MUG, Jucutuquara, Piedade, Novo Império... Basta você comprar a camisa e pronto, mas o legal mesmo no samba é você ir comer um caldo de mocotó lá com a rapaziada bacana da Rosas de Ouro, subir a Imperatriz do Forte e comer uma rabada com a mesma decência e dignidade de um verdadeiro sambista. Esta diferença às vezes eu acho que faço porque eu não vou ficar distinguindo o bem e o mal. Eu só vejo e quero sempre o bem.
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NÓS SAMBISTAS CAPIXABAS TEMOS DOIS PARÂMETROS DE CARNAVAL, O ANTES E O DEPOIS DO RECESSO, QUAL A REFERÊNCIA QUE VOCÊ NOS FAZ, JÁ QUE PARTICIPOU DOS DOIS PROCESSOS?
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O meu paralelo é o seguinte: quem me conhece sabe que sou muito grato, tenho dois sentimentos dentro de mim que se chamam sensibilidade e gratidão, o pessoal da imprensa tinha que respeitar um pouco mais do passado do ex-prefeito Hermes Laranja, ele foi o cara que deu o sinal verde para o carnaval capixaba, ou melhor, o ponta pé inicial. O Sinvaldo Siri deu uma contribuição fortíssima, Francisco Gonçalves também, Ismael Bezerra, Mauro Felix Guimarães, Nininho do Alegria Alegria, katuya Saad, Zé Luis da Mocidade da Praia, a gente não pode esquecer nunca dessas pessoas, é até ruim citar nomes porque eu não quero ser injusto e esquecer de alguém, mas o Hermes Laranja foi quem deu o ponta pé inicial para a virada positiva do nosso carnaval. Depois o carnaval caiu no descrédito, não pelo próprio povo e sim por alguns dirigentes de agremiações porque quando recebiam a verba colocavam trinta por cento na escola e setenta no próprio bolso. Então houve uma desmotivação da prefeitura. Os patronos das escolas e as pessoas começaram a perder o interesse e ai ficamos um bom tempo sem carnaval. Eu vou falar uma coisa pra você e com muito orgulho e não é pouca humildade não: a pessoa do José Ferreira da Costa Alves Neto, o “Nego” quero dizer: “eu”. Nos anos noventa ainda encontrei um dia lá na Barra do Jucu com o Luiz Paulo Veloso Lucas, então prefeito de nossa capital e falei: prefeito, vamos voltar com o carnaval capixaba? Ai ele disse: -Como Ferreira se o Sambão do Povo está lá entregue as baratas, vamos gastar muito dinheiro para reformar, o folião já não fica mais na cidade nos dias do carnaval, como vamos fazer isso? Mas mesmo assim fizemos uma reunião com ele e a Cláudia Cabral que era a Secretária de Cultura. E foi assim que o carnaval retornou, até porque ele é um sambista também né?
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E O FATO DO NOSSO CARNAVAL RETORNAR COM UMA SEMANA ANTES, AINDA TÊM GENTE QUE É CONTRA, QUAL SUA OPINIÃO?
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Eu sou totalmente a favor do carnaval capixaba uma semana antes, nesta mesma reunião que te falei, a Cláudia Cabral foi de uma inteligência e sabedoria incrível, e também muito iluminada, quando falou: “nós podíamos pegar o carnaval capixaba e puxar para uma semana antes do carnaval oficial, assim além do folião e aquele sambista que gosta, nós vamos pegar duas classes sociais que vão nos ajudar. Colocaremos na escola de samba as classes A e B. O sucesso do carnaval capixaba deve-se muito ao povo, claro que deve, mas se você põe o carnaval capixaba naquele momento junto com o carnaval oficial do Brasil, não acontecia, porque a cinco anos sem carnaval, o povo já não ficava mais em Vitória, ou iam para o Rio, Bahia e até mesmo para as praias do interior, foi a melhor coisa que foi feita para o renascer das escolas de sambas em Vitória e deve continuar. Hoje nós estamos conversando aqui nesta sala, estamos no mês de abril; se o mês que vem em maio se a prefeitura colocar a disposição dos foliões arquibancadas, mesas de pistas, camarotes, vende tudo, e se o Sambão do Povo hoje tivesse capacidade para oitenta mil pessoas, o espaço lotaria nos dois dias. O nosso carnaval pegou fôlego porque está fora do carnaval oficial. A Cláudia Cabral teve a ideia e o Luiz Paulo acatou e valorizou, o João Coser manteve , isso foi a grande sacada, o João Coser foi fundamental dentro desse processo carnavalesco, não estou fazendo política para ninguém porque no final do segundo tempo eu não preciso disso, mas estou falando em gestores que viabilizaram o ressurgimento do nosso carnaval e gestores que continuam dando sequência a este processo. Uma coisa é você ver um político ir num ensaio de escola de samba porque tem que ir, porque é bom para conseguir voto, outra coisa é você ver o político ali por livre e espontânea vontade e simplesmente porque gosta.
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VOCÊS DA TV CAPIXABA SEMPRE FIZERAM A COBERTURA DO CARNAVAL AO VIVO? COMO COMEÇOU NESTE TRABALHO DE LEVAR O CARNAVAL PARA DENTRO DA CASA DAS PESSOAS?
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Ao vivo nada, os dois primeiros anos da Jerônimo Monteiro eram gravados, só no terceiro ano é que começamos a transmitir ao vivo, foi uma grande vitória para nós da TV e para o público e carnaval capixaba, e estou te falando isso em primeira mão, porque quase ninguém sabia, agora o sambista vai ficar sabendo através de você. Em noventa e oito e noventa e nove era VT, a partir de dois mil ainda na Jerônimo Monteiro começamos a fazer transmissão ao vivo. Agora nós no rádio já fazíamos carnaval desde o início dos anos oitenta, fiz transmissão de carnaval pela rádio Vitória, Espírito Santo, então eu já venho de uma trajetória, mas antes da televisão, eu fazia reportagens de carnaval na Praça Oito, Princesa Isabel e Reta da Penha. E televisão o sinal verde foi aqui pela TV Capixaba com o retorno do carnaval.
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COMO É DEIXAR DE DESFILAR, PARA MOSTRAR AO PÚBLICO QUE ESTÁ EM CASA O QUE VOCÊ ESTÁ VENDO NA AVENIDA COMO SE ESTIVESSE DESFILANDO EM CADA ESCOLA QUE SE APRESENTA?
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É muito legal, é muita emoção, é uma coisa autêntica, verdadeira, cristalina, quem não me conhece não sabe o meninão chorão que eu sou, me emociono muito. Emociono-me só de ver a garra de determinados foliões quando passam, e me dá uma vontade tão grande de entrar na avenida, e, como eu não posso fazer isso naquele momento, eu procuro levar ao telespectador e o folião que está na arquibancada para sambar junto comigo. Esta é a maneira que talvez eu procuro aliviar um pouco a minha vontade, ansiedade, perspectiva, sabe lá o que eu sinto, só sei que eu me torno mais um folião também, e me sinto dentro da avenida.
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PARA O FERREIRA NETO APRESENTADOR, EXISTE DIFERENÇAS ENTRE ESCOLAS CONSIDERADAS GRANDES OU PEQUENAS QUANDO SE ESTÁ TRANSMITINDO PARA O PÚBLICO, OU ESTA CLASSIFICAÇÃO É NULA?
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Veja bem! O sentido que eu dou ao carnaval é fazê-lo ficar bonito, alegre, com alto-astral... Tanto no Botequim do Ferreira, quanto na avenida, pra mim todas as escolas são iguais. Existem responsáveis para tornar o espetáculo cada vez mais belo, e, isso acontecendo, melhor para a televisão, para o público e nós apresentadores e formadores de opiniões. Quanto ao lado técnico existe um corpo de jurados para julgar, nós não julgamos carnaval e sim apresentamos, então ficamos com o lúdico, e procuramos passar alegria para o telespectador. Agora é muito fácil às vezes você ver uma escola considerada grande entrar na avenida e você ver aquela empolgação, ai vem uma escola mais fraca, ou uma escola mais pobre, ou uma escola mesmo muito humilde, e a minha emoção é a mesma se tivesse entrado escola A, B, ou C. Eu não faço essa diferenciação por mais que eu seja rio-branquense, por mais que eu seja botafoguense, por mais que eu seja imperiano, quem me paga é o telespectador, é aquele que está me assistindo eu tenho que ser imparcial, e ao mesmo tempo levar a emoção para o pessoal que está me assistindo em casa, e a minha vontade mesmo a cada escola que passa eu fico louco, a minha vontade é de estar dentro da avenida desfilando nem que fosse empurrando carrinho. Mas eu tenho que trabalhar e tenho que levar meu pão de cada dia para casa.
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E O BOTEQUIM DO FERREIRA, COMO QUE ACONTECE?
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É uma loucura! Uma verdadeira loucura! É um projeto que tem a cara do povo, por quê? Você sabe que hoje as noticias ruins e catastróficas, elas estão nas emissoras de rádio, nas páginas de jornais e nas emissoras de televisão. Quando você tem uma opção de fazer o povo sorrir é outra coisa. Quando o povo vê um programa como o meu que é a cara do povo e dentro da linguagem do povo e que leva alegria aos lares, a pessoa para, olha e diz: “nossa que legal”, então o Botequim do Ferreira hoje é uma outra sensação, uma outra realidade e eu sinto isso no meio da rua. Eu paro no posto de gasolina, eu paro numa quitanda e vejo que tem meninos, ambulantes que estão trabalhando que gritam: “Ferreira manda um alô pra mim no seu botequim” e isso é muito legal, é uma repercussão maravilhosa, e eu recebo isso com muita humildade, eu não tenho vaidade nenhuma, eu digo isso a você do fundo do meu coração: a minha vaidade é a minha família, a minha vaidade é a minha mulher, os meus filhos, as pessoas que me querem bem. Eu não sou materialista e nunca fui, nunca me prendi a dinheiro, toco a minha vida no feijão com arroz. A coisa mais importante que eu faço quando abro uma jornada eu digo o seguinte: “estou aqui de peito aberto, de bem com a vida e fazendo o que gosto” feliz do ser humano que faz o que gosta e eu faço o que gosto. Estou longe dos soberbos e dos narizes empinados.
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AGORA EU QUERO FAZER UMA PERGUNTA PARA O NEGO SAMBISTA, AQUELE NEGO QUE ME CONSIDERA COMO UMA IRMANZINHA CAÇULINHA, EXISTEM DIFERENÇAS ENTRE JURADOS DE SÃO PAULO, JURADOS CAPIXABAS E CARIOCA?
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Eu acho que temos muita gente boa aqui, eu sou muito favorável aos jurados do nosso estado, tem muita gente boa que sabe de carnaval em Domingos Martins, em Linhares, em Cachoeiro, em Ecoporanga, em São Mateus, em Colatina. Temos muita gente que sabe de carnaval no Espírito Santo, acho que nós não precisamos buscar ninguém lá fora. O que acontece às vezes aqui infelizmente, porque não somos um estado pequeno geograficamente, mas é um local em que você se esbarra muito com as pessoas em se tratando da Grande Vitória. Ai você pensa bem, eu sou o Nego, não sou o Ferreira Neto radialista e nem jornalista, sou o Ferreira Neto e me convidam amanhã para ser jurado no quesito bateria, ai todo mundo sabe que fui criado no Alto de Caratoíra, eu vou lá e meto um dez para a bateria da Novo Império porque ela mereceu, e dou uma nota oito ponto alguma coisa para outra escola que mereceu também, o dia que eu passar nessa comunidade que teve nota menor, neguinho me mata. Então esse é o problema deu achar que às vezes jurados capixabas é complicado, porque já aconteceu isso aqui. Conheço gente que tiveram problemas sérios porque foram jurados. Uma vez eu fui fazer uma crítica a uma certa bateria de escola e o mundo caiu na minha cabeça. Mas mesmo assim eu sou favorável, acho que não precisamos buscar ninguém lá fora, acho que temos gente competente aqui e que temos que dar oportunidades. Basta dar uma capacitação técnica e pronto. Estamos meio complicados com os jurados de fora em todos os sentidos.
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CARNAVAL DOIS MIL E DEZ, QUEM VAI FALAR, O NEGO OU O FERREIRA NETO?
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Os dois! Foi um fato lamentável, um fato triste que não deveria ter acontecido e aconteceu para arranhar um pouco a credibilidade do nosso carnaval, mas acho que nosso carnaval é bem superior. Acredito que isso foi um fato sério que na minha opinião jornalisticamente falando foi ruim, mas eu sou um cara que ainda gosto de ver virtudes e não gosto de ficar procurando defeitos. Mas o que acontece é o seguinte: chega uma hora em que se começar a fazer muito tumulto, a prefeitura tira o time, o governo também tira o time, ai eu quero ver, o patrocínio vai embora. A Coca-Cola acreditou, o Banestes está acreditando, a TV Capixaba acreditando e isso não é pouco não. Eu falei isso com você dentro da rádio Espírito Santo logo depois do carnaval. Você lembra em noventa, noventa e um e noventa e dois? Isso pode acabar o carnaval mais uma vez, como acabou o futebol capixaba aqui no Espírito Santo, infelizmente. Sei que se depender do Ferreira, de vocês e mais alguns amantes do carnaval nós levantamos essa bola, mas não é suficiente. Os dirigentes também precisam fazer a parte deles.
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E ESTA SUA VIDA DE CARNAVAL E FUTEBOL, TUDO QUE TODO BRASILEIRO QUER NÃO É VERDADE?

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Bem! São duas coisas que eu cresci convivendo com isso e que amo mesmo. A minha mãe foi nadadora do botafogo, o meu pai foi o primeiro capixaba a vestir a camisa da seleção brasileira, o meu irmão Índio teve uma trajetória no esporte muito legal, eu remei, joguei futebol de salão, basquete, vôlei, enfim, sempre fui muito ligado ao esporte, não especificamente ao futebol, mas ao esporte como um todo, e também ao carnaval. Na minha vida há um paralelo muito gostoso. São duas coisas que o brasileiro ama. Sou um privilegiado. Falar de futebol, de carnaval, de samba, de uma boa rabada com feijão manteiga e uma cervejinha gelada lá no morro da Piedade, pronto acabou, e minha cor ajuda, porque sou neto de escrava com português e minha mãe era índia e meu pai um mulatão, pronto eu sou isso que o povo capixaba conhece e tenho orgulho da minha raça e de ser capixaba. Esta união de raças é que me fez com que continuasse amando o esporte, carnaval e principalmente a alegria de viver. Eu sou um verdadeiro brasileiro e capixaba da gema com muito orgulho.

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VOCE JÁ PASSOU ALGUMA VEZ POR SAIA JUSTA, DURANTE UMA TRANSMISSÃO AO VIVO?

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Já e como já passei! No Botequim do Ferreira uma vez quando a Gisele Simon era Madrinha da Bateria da Mocidade Unida da Glória. Tem no carnaval capixaba também um travesti que se chama Gisele que eu não me lembro o sobre nome agora, então estavam as duas presentes no Botequim, ai eu chamei a Gisele travesti que seria homenageada, mas no telão que vai para o pessoal de casa apareceu a imagem da Gisele Simon e não da Gisele homenageada, nossa eu não sabia o que fazer naquela hora. Ainda bem que eu tinha um outro troféu e acabei dando um troféu para cada uma e ficamos no zero a zero. Esta foi apenas uma. E outra vez foi com a Imperatriz do Forte, eu confundi o primeiro casal de mestre sala e porta bandeira com o segundo casal, ai o Nirlan Coelho me socorreu em trinta segundos e me salvou da bola fora. Mas já aconteceram outras, só que essas duas foram as que me marcaram mais. Mas essa da Gisele foi mais que uma saia justa, eu não sabia como acertar a coisa.

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NÓS QUE O CONHECEMOS SABEMOS QUE NATURALMENTE VOCÊ É UMA PESSOA EMOTIVA, MAS UM FATO QUE TE EMOCIONOU MESMO NO CARNAVAL QUAL FOI?

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Durante este carnaval de dois mil e dez a maior emoção que tive, meu irmão entrou na avenida, a Novo Império fez o melhor carnaval dos últimos vinte anos e eu vi a alas das baianas as mais bonitas e luxuosas também desses últimos anos, e eu vi a minha mãe dentro da avenida e na hora da transmissão em si eu me emocionei legal. Eu te falo uma coisa, até hoje eu não sai de baixo da saia da minha mãe, é incrível, uma coisa é você falar para quarenta, cinquenta, cento e cinquenta mil pessoas e a outra é você sentir emoção ao ver sua escola na avenida e sentir a presença de uma pessoa que significou tanto na sua vida. A dona Yolanda não foi simplesmente uma mulher ou uma mãe, foi uma santa guerreira, ela foi fundamental para minha formação pessoal como ser humano e para o meu irmão também.

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E A MENSAGEM QUE NOS DEIXA?

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A única mensagem que eu posso deixar é que graças a Deus nesses últimos anos que eu tenho feito o Botequim do Ferreira, carnaval capixaba, eu nunca ouvi uma notícia dizendo que mataram fulano, assaltaram sicrano, ou que aconteceu uma porradaria generalizada na concentração, ou briga na saída do desfile. Então o mais importante é continuar levando a vida na esportiva e com o sorriso estampado no rosto, porque nós só temos a crescer. Acho que o Sambão do Povo está pequeno pra nós, quem dera se tivéssemos um espaço físico para ampliar mais aquele lugar, seria o ideal para nós. O Fortalecimento das escolas é importante, acho sim que as escolas têm que seguir o caminho da Mocidade Unida da Glória e da Unidos de Jucutuquara. A Piedade tinha tudo para fazer um bom carnaval, mas infelizmente a própria escola se prejudicou dentro do ponto de vista de alguns componentes, uma escola tradicional tem que ser respeitada sim, mas tem que partir de dentro dela, porque láé o berço do samba. Ela é a primeira escola e madrinha de todas. Eu tenho minha opinião formada e não tenho medo de falar, foi bom a Boa Vista ter ganhado este carnaval, não para a Jucutuquara e MUG que já estão num nível maior, mas para mostrar que a Novo Império, Imperatriz, Piedade... Todo mundo tem que se fortalecer, a São Torquato... Todo mundo tem que crescer. Nós só temos que evoluir e avançar, essa são a grande sacada. Basta os dirigentes levarem a sério. Esta é minha mensagem.

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"A ORIENTAÇÃO INICIAL QUE ALGUÉM RECEBE NA EDUCAÇÃO, TAMBÉM MARCA SUA CONDUTA INTERIOR"
(Platão – Filósofo Grego- 428 a.C.)


 

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