ENTREVISTA COM O INTÉRPRETE EDSON PAPO FURADO
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Técnica |
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"EU
CANTO, PORQUE O INSTANTE EXISTE
Desde criança que esta frase soa nos meus ouvidos. Entramos e lá estava ele o “imorrível”, ele tem muitas vidas que nem gato, porque já nos deu tanto susto... Tenho um carinho muito grande por esta “lenda viva”, assim como o nosso querido Francisco Velasco o denominou. Edson Rodrigues do Nascimento nasceu no município da Serra ES, no dia vinte e cinco de março de mil novecentos e trinta e nove. Veio para Vitória ainda bem pequeno, aliás, ele é pequeno até hoje como ele mesmo diz. Não vou perguntar porque o chamam de Papo Furado, porque ele sempre tem uma versão diferente, então vamos deixar pra lá. O Papo Furado leva a vida de uma maneira simples, lúdica e irreverente ao mesmo tempo. É incrível como que ele tem carisma e conquista as pessoas. Domínio de palco e público nem se fala, e ele nem se esforça para tanto, porque é natural na vida dele, ele nasceu assim. Uma roda de samba com amigos, uma boa comida, a Alice sua mulher, os filhos e netos já são suficiente para sua felicidade. Não esquecendo de uma boa cachacinha claro. Gosta de viver o presente. Passado para ele é peça de museu ou arquivo morto, e o futuro, pra que ele vai pensar se ele nem o conhece? Quando chegamos em sua casa, o encontramos na cozinha junto de sua funcionária para colocar o feijão no fogo que ele mesmo gosta de preparar, um feijãozinho bem gordinho. Falei que ele poderia ficar tranqüilo que eu não tinha pressa, ele me respondeu; “tô sabendo qual é a sua, você não vai ficar para almoçar também não, esta história de não ter pressa é para aproveitar o almoço te conheço neguinha!” Ai eu já o respondi a altura que não convém falar agora, foi apenas uma troca de carinho, risos. Gente vou falar pra vocês uma coisa, além do Papo ter nascido com o dom de cantar e tocar, ele cozinha muito bem. Mas o que eu mais gosto é quando ele faz peixe miraguaia com banana da terra. É o manjar dos deuses. Um dia estávamos eu e ele muito triste com a nossa escola, pela situação que a mesma estava passando ai ele me disse uma coisa que eu não esqueci. Que foi o seguinte: “fica triste não neguinha, porque tanto eu e você podemos até sair da escola, a escola pode até acabar, mas a nossa marca vai estar fincada, sabe porque? Nós não temos vergonha de dizer que somos Piedade.”
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POR
QUE PIEDADE? |
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x
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CANTAR
E TOCAR VIOLÃO QUANDO COMEÇOU E COM QUEM? |
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X
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E SER INTÉRPRETE, QUAL O PRIMEIRO SAMBA ENREDO QUE VOCÊ
DEFENDEU NA AVENIDA? |
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x Foi em mil novecentos e setenta e três quando a diretoria da escola me chamou e me nomeou puxador. O samba foi “Canto os encantos do Espírito Santo” do Waltinho Espingarda. Foi ai que eu aprendi que cantar samba enredo na avenida era a minha praia, e melhor a Piedade foi campeã. x |
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COMO
ERA CANTAR SAMBA NA AVENIDA NAQUELA ÉPOCA, EXISTIA ALGUMA DIFERENÇA
PARA OS DIAS ATUAIS? |
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x “De primeiro” a gente puxava samba sozinho, não tinha ninguém pra ajudar, o puxador era só na garganta mesmo. E eu te confesso era bem melhor que hoje. Agora eles erram e a culpa vai toda em cima do intérprete oficial. Hoje o samba é assim: intérprete oficial, apoio, apoio do apoio... Mas na hora todo mundo quer passar por cima do oficial, ai você vê gente desafinando, gritando, errando... Tem que haver respeito o nome já diz; apoio. Antigamente era muito melhor, depois que inventaram essa coisa de intérprete todo mundo “se acha”, antigamente todo mundo era puxador de samba e dava conta do recado. E íamos para a avenida sozinho mesmo, sem água, sem nada e a bateria acompanhava e o povo que ajudava. A gente cantava tanto que as pessoas às vezes aprendiam o samba na hora, porque não tinha nem gravação de disco. É só você perguntar ao Lajota, ao Alvimar, que eles te falam como a coisa funcionava. x |
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RELACIONAMENTO
DO INTÉRPRETE COM A BATERIA? |
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x O intérprete canta, quem tem que acompanhar é a bateria. Mas vejo acontecer o inverso. Igualmente você cantando e eu com um violão, um cavaquinho ou qualquer instrumento de percussão. Os músicos é que tem que acompanhar o intérprete. Ai a bateria vai trabalhando em cima da voz do intérprete, dando compasso, cadência... Geralmente eu não vou a outra escola, mas eu vejo isso na minha. O intérprete tem que conhecer música, tem que ter uma tonalidade de voz, ele precisa saber pelo menos o básico sobre música para poder ir para a avenida. Como que um médico pode tratar de uma pessoa sem estudar, e sem saber de medicina? Assim é com o intérprete, ele precisa saber tocar alguma coisa, ele precisa saber de música. Já aconteceu de eu estar numa roda e alguém me pedir um lá maior e eu só pra sacanear dei um ré, ai a pessoa cantou, cantou e eu constatei que a figura não sabia nada. x |
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E QUAL ERA SEU TOM DE VOZ NA AVENIDA? |
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x Eu canto em “sol maior”, porque eu canto alto. Mas outra coisa às vezes os mestres de bateria também não entendem e a gente os fala eles não gostam. Por isso que eu me aborreço, e eles falam que eu gosto de ser estrela. x |
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TEM UMA PASSAGEM SUA QUE O TONICO NOS CONTOU EM ENTREVISTA, QUE VOCÊ
SE NEGOU EM GRAVAR NO RIO, NOS FALE SOBRE ISSO? |
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x Só ficou sabendo desta história, quem estava lá comigo. Se eu chegasse aqui e falasse pro pessoal, eles nunca iriam acreditar. O Milvar que era uns dos produtores da gravadora Som Livre me ouviu cantar num boteco em baixo da gravadora, ai ele me chamou e falou o seguinte; do jeito que eu coloquei Zeca Pagodinho, Jovelina e outros mais no mercado, eu vou colocar você também. O Tonico esta ai de “prova”. Ai ele me deu umas fitas cassetes com cópias de músicas, ali tinha João Nogueira, Paulo César Pinheiro, e outros que não me lembro agora, só sei que eram todas inéditas. Ele me falou treina essas músicas depois me telefona que eu vou fazer você o sucesso junto com os outros. Como eu não ligava pra p# nenhuma, eu nem sei o que aconteceu com as fitas, acho que perdi tudo ou então dei pra outras pessoas. Ele me deu as fitas e o gravador também. A minha vida não era aquilo, a minha vida é o que eu sou hoje, feliz com meu cavaco, minha família e minha cachaça. x |
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UMA
COISA QUE TE MARCOU DURANTE SUA VIDA DE AVENIDA? |
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x Teve um ano que eu estava puxando samba, isso tem muito tempo. Geralmente quando estou cantando uma música, eu estou muito concentrado, não presto atenção no que está acontecendo ao meu redor. E este ano eu estava puxando o samba, a minha mulher estava do meu lado, naquela época as pessoas podiam ir com a gente do lado. Eu só vi a presença dela quando eu terminei de cantar. Foi ai que eu senti o quanto eu tiro a verdadeira emoção quando estou cantando. x |
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O QUE VOCÊ ACHA DOS JURADOS DO CARNAVAL, ANTES E AGORA? |
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Jurado é jurado em qualquer lugar e qualquer hora. Assim como
existe em todas as áreas todo mundo pode ser comprado. Mas a
diferença está em cada escola fazer a coisa certa. Porque
nenhum jurado vai lá julgar o que tá certo, e sim, o que
está errado. Se a escola fizer certo, ela não vai ser
julgada e ganhará o carnaval. |
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E
O SAMBA ENREDO, PODE INTERFERIR NUM DESFILE, COMO ESTAMOS COM ESTA NOVA
SAFRA DE SAMBAS HOJE? |
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x O samba pode interferir muito mesmo, pra melhor ou pra pior. Ultimamente eu não tenho falado muito não. Mas acho que a qualidade dos sambas está caindo muito. Antigamente os compositores faziam samba com amor, as vezes eles nem eram da escola, mas faziam samba quando se identificavam com o tema, e quando eram da escola melhor ainda. Agora fazer samba enredo é puro comércio, tem compositor que nem sabe o que fez e intérprete que não sabe o que está cantando. Isso é triste. Claro que tem uma rapaziada boa. Mas a maioria é melhor nem comentar. Esta garotada que esta vindo ai, compõe samba da seguinte forma; plagia uma melodia dali outra de lá e juntam tudo fazendo uma corrente cheia de nozinho e querem ganhar samba. Quero que me desculpem, mas tem gente que ainda não está preparada para fazer samba enredo. Porque fazer samba enredo é muito difícil, você tem que seguir determinadas regras. x |
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E
A VAIDADE NO SAMBA COMO QUE É ISSO? |
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x Vaidoso todo mundo é, o problema é administrar a vaidade. Antigamente a gente brigava na avenida, mostrando a nossa voz, era bom você ouvir as pessoas falando quando as escolas entravam na avenida, éramos intérpretes, mas cada um com seu estilo. E sabíamos cantar, isso que valia. Agora você vê todo mundo querendo dar pernada, e o pior, dar pernada sem saber cantar p# nenhuma. Quero dizer que samba enredo não é pagode. Escrever e cantar samba enredo é um departamento totalmente diferente do pagode. Mas a garotada insiste em misturar as coisas. A falta de humildade deles também é muito grande. A pessoa para aparecer tem que saber fazer, não adianta querer imitar ninguém, tem que ser natural e fazer o que ela sabe. Eu canto com a minha própria voz e nunca imitei ninguém. x |
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O
QUE É NECESSÁRIO PARA UMA ESCOLA DE SAMBA FAZER UM BOM
CARNAVAL E SER CAMPEÃ, JÁ QUE VOCÊ JÁ PRESENCIOU
ALÉM DOS TÍTULOS, MUITAS INGLÓRIAS TAMBÉM
NA SUA ESCOLA? |
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x Realmente eu já vi de tudo dentro da minha escola, de tudo mesmo, e também não vi, não vi as baianas passarem uma vez, que é o que eu tanto gosto. Mas isso já foi superado. Agora o que uma escola precisa mesmo é de uma boa direção. E no dia do desfile ela precisa de harmonia, e muita harmonia competente. Vemos muitos diretores de harmonia desfilando com camisa e não fazendo nada e se metendo onde não os competem. x |
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QUAL
O SAMBA QUE VOCE MAIS GOSTOU DE CANTAR NA AVENIDA? |
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x Todos! Quando eu vou pra avenida, eu vou com a alma, quero dizer quando eu canto, em qualquer lugar eu canto com o que eu tenho dentro de mim, eu coloco a emoção para fora do meu coração. Todos os sambas que eu defendi pela minha escola foram cantados com a alma e emoção. Às vezes tinha samba que eu não gostava, fazia mal-criação... Você já acompanhou isso né neguinha? Às vezes eu era influenciado por terceiros... Mas quando eu ia pra avenida o samba ficava bom, porque era a minha escola que estava ali, não samba de A ou B, era o samba que tinha sido escolhido. Se você for fazer um café e não colocar amor na hora de fazer, o café sai ruim, e com o cantar é a mesma coisa. x |
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O
QUE O PAPO FURADO TEM A DIZER PARA ESSA RAPAZIADA NOVA QUE ESTÁ
CHEGANDO AGORA? |
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x Nada! Não tenho a dizer nada para não me aborrecer. Quero deixar claro que não é com todos. Mas às vezes quando a gente fala com esses meninos que estão compondo ou interpretando, quando a gente vai dar alguma dica, explanar nossa experiência, eles se voltam contra nós, porque eles acham que são os bons. A gente os vê fazendo coisa errada, mas eles não aceitam serem corrigidos. É a minoria que nos escuta. Quando a gente quer ajudar, eles ainda nos ofendem. Então eu não tenho nada a dizer. Você vê neguinho que não trabalha música hora nenhuma e só canta no carnaval. Esse povo terá carreira curta porque não estuda. Queria que houvesse um concurso para ver quem fica mais tempo cantando o mesmo samba enredo sem ficar rouco, ai você ia ver o pau quebrar. Eu sempre saio da avenida e às vezes ficava o dia todo cantando samba. Você sabe disso. Quantas rodas de samba a gente fazia na casa do falecido Jara depois do desfile né neguinha do cabelinho e pico. Tem gente que chega na metade do desfile e já não tem mais voz, inclusive os apoios. x |
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E
O ALUSIVO DA PIEDADE QUE TODO MUNDO FICA ARREPIADO, COMO QUE SURGIU? |
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x Este alusivo na verdade é um samba do Aloísio Paru e do Caroço. Ai eu coloquei um trecho na abertura do samba enredo e pegou. Agora o “alô gente boa da Piedade bate forte no couro e deixa o pêlo arrepiar” eu estava lá no Rio de Janeiro dentro do boteco esperando a hora da minha gravação e todo mundo falava uma coisa, Papo faz isso, Papo faz aquilo, todo mundo querendo mandar em mim, mas como ninguém me manda, na hora de gravar, eu estava dentro do estúdio, ai o produtor mandou eu soltar o grito de guerra depois do alusivo. Mas dentro do boteco, Deus já tinha colocado na minha mente o “Alô gente boa da Piedade, bate forte no couro e deixa o pêlo arrepiar”, só que eu não falei pra ninguém que a coisa já estava pronta, que até hoje eu não sei como, porque eu não tinha pensado nessa frase ela veio de repente, foi obra de Deus mesmo. O Darcizinho da Mangueira era quem estava produzindo o disco na época e ai ficou doido com o grito, falou que seria o sucesso e foi mesmo. Depois da gravação, descemos para o mesmo boteco e ai o samba foi bom. Depois dizem que boteco não é cultura. x |
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NOS
DEIXE UMA MENSAGEM: |
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Aloooooooooo gente boa da Piedaaaaaaaaade, bate forte no couro e deixa o pelo arrepiaaaaaaaaaaaar. Muita
paz, amor e muito, muito samba para todo mundo, porque samba é
cultura e não devemos deixar o samba acabar. Agora pra você
Neguinha do cabelinho de pico vou deixar uma mensagem especial que
é a seguinte: |
“ O FLERTE NOS BANCOS DA PRAÇA
A CONVERSA FIADA
PAPO FURADO SAMBA E CARNAVAL..."
"VERDE VERMELHO E BRANCO PIONEIRA E MAIS QUERIDA
MEU CANTO É FORTE MINHA FAMA NINGUÉM TIRA
IRREVERENTE É MEU JEITO, A BATERIA É QUEM DIZ
MEU SAMBA É RAÇA, É FORÇA, É RAIZ"
(Histórias
e Memórias da rua que virou samba – Leley e Renilson)

