ENTREVISTA COM O INTÉRPRETE LAURO

Ficha Técnica

"ACENDE A CHAMA ENCENDEIA, AMOR
ENERGIA QUE CLAREA, EU SOU.
FAZ NOSSO POVO SORRIR
A FERRO E FOGO LUTAR,
EM VERDE E ROSA ANDARAÍ VAI TE LEVAR."

(Felipe
Viana e João Vitor)

 

“NÃO CONFUNDA JAMAIS CONHECIMENTO COM SABEDORIA
UM AJUDA A GANHAR A VIDA; O OUTRO A CONSTRUIR UMA VIDA.”
(Sandra Carey)

Sábado, final de tarde, bar do “Ceará” em Jucutuquara. A conversa é simplesmente com um compositor e intérprete muito querido pelos seus colegas. Quando se fala em escola de samba Andaraí, o que vem na minha cabeça é o Lauro, pois ele é a cara da escola. Existem pessoas que já são rotuladas com sua agremiação, mesmo estando afastadas da mesma, o que não é o caso do nosso entrevistado de hoje, pois ele está muito integrado e trabalhando como sempre para entrar bem afinado na avenida.

Quando começou a defender samba como intérprete oficial, a briga não era pequena, pois naquela época só tinham “tigres” em Vitória como: Edson Papo Furado, Lajota, Alvimar Guimarães... E ele era apenas um menino querendo cantar e mostrar que sabia fazer isso muito bem. Hoje ele é o intérprete oficial mais velho que vai para a avenida no carnaval capixaba. É considerado o “vovô” do samba pelo pessoal mais jovem.

Seu nome de batismo é Laurentino da Silva Campos. Nasceu no dia dez de outubro na comunidade de Santa Marta, em Vitória, e se orgulha disso. Além do samba é também apaixonado por futebol, seu time do coração? Botafogo. Vem de uma família de sambistas e fundadores da Andaraí. Casado com a Luciene, pai de três filhas e vovô de três netas. Como ele mesmo diz: “vivo na casa das sete mulheres”. Tem orgulho em dizer que toda sua família é Andaraí, inclusive sua filha é rainha mirim da bateria. “Todo mundo começa cedo nessa luta” diz ele.

O Lauro parece ser uma pessoa um tanto quanto tímida. Assim que começamos a entrevista, a Luciene nos falou que ele estava um pouco nervoso, mas logo o nervosismo passou e a conversa foi muito legal entre uma cervejinha gelada e outra.

Tive o privilegio de dançar na comissão de frente da Andaraí em dois mil e sete diante da voz desse grande intérprete. E, diga-se de passagem, talvez foi a melhor voz que eu já ouvi enquanto dançava. A dicção perfeita, não engolia palavras... Enfim, nós dançávamos sem problemas, porque ouvíamos a musica com uma nitidez maravilhosa. Foi uma das melhores apresentações enquanto comissão de frente que já fiz na avenida. Agradeço e parabenizo este moço que é tão dedicado com o seu trabalho.

O Lauro da Andaraí nasceu com a sabedoria de administrar a vida e conviver bem com quem vive a sua volta. E isto é fato, porque o mesmo é respeitado por todos os compositores e intérpretes que conheço. Este ano ele vai para a avenida com um grupo de peso o acompanhando, que são: Jairinho Liberdade, Gilson Lambari, Jacaré e Robson.

"OLHA A ANDARAÍ AI GENTE... TÁ CERTO, TÁ CERTO...”

 


O QUE É O SAMBA PARA VOCÊ?

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Eu nasci no samba, meus avós foram fundadores da Andaraí e sempre fizeram parte da escola, meu tio Heleno foi mestre de bateria, quando o perdemos ele estava com o apito na boca ensaiando a bateria, meu tio faleceu durante o ensaio da Andaraí. Minha mãe era passista, meu pai ritmista... Toda minha família é do samba, até minha netinha. O samba para mim está na alma gosto dessa coisa chamada samba.

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E NA ANDARAÍ, JÁ COMEÇOU CANTANDO?

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Não, comecei como ritmista, eu tocava repique desde novinho, a partir dos doze ou treze anos eu comecei a cantar nos ensaios, quando o puxador de samba parava para descansar eles me chamavam, eu cantava sambas do Rio de Janeiro. Assim que eu comecei a me envolver como puxador de samba.

SER INTÉRPRETE OFICIAL, COMO ACONTECEU?
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Na época fui convidado por um amigo meu que era compositor da escola, que se chama Carlos Beré. Ele fazia vários sambas, inclusive para o Império da Vila. Foi ele que me incentivou a estar dentro do samba como intérprete. Mas quem me deu oportunidade mesmo, foi o Coronel Nunes em oitenta e seis. Quando veio a gravação do LP, a escola queria trazer um puxador de samba de peso, mas o coronel Evaldo Nunes me deu esta oportunidade e estou ai até hoje.
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COMPOSITOR X INTÉRPRETE X BATERIA?
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Para acontecer um bom trabalho, temos que ter muitos ensaios e um bom entrosamento entre os ritmistas, senão não funciona nada. Outra coisa se você não tiver um bom conhecimento em matéria de música para levar pro pessoal, fica muito complicado. A alma da escola de samba é a bateria então temos que estar muito bem entrosados para encaixar bem com a voz. Muita concentração, muita responsabilidade... a responsabilidade maior é do intérprete.
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PARA UMA ESCOLA DE SAMBA TER UM BOM DESEMPENHO NA AVENIDA, O QUE VOCÊ CONSIDERA MAIS IMPORTANTE?
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Primeiro passo é a organização, senão vai tudo por água abaixo. Se você tiver organização interna a escola chega na concentração bem. Outra coisa quem arma a escola na avenida é a harmonia, o poder da escola está na harmonia, temos que ter essa organização.
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DURANTE ESTA LIDA DE CARNAVAL, QUAL FOI O SAMBA QUE MEXEU COM VOCÊ NA AVENIDA?
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Como você sabe, já disputei e interpretei vários sambas, mas o que mexeu comigo mesmo, foi o de dois mil e quatro da Andaraí o “Mármore e o Granito”. Este samba para mim foi uma pintura, uma obra prima, na verdade aquele samba foi feito para eu cantar. O samba é dos irmãos Felipe Viana e João Vitor. O melhor samba que já interpretei até hoje, um samba leve, alegre, não é um samba corrido, um samba maravilhoso mesmo.
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UM FATO QUE FICOU REGISTRADO NA SUA VIDA DE ESCOLA DE SAMBA?
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O vice-campeonato da minha escola em dois mil e sete. Toda a comunidade trabalhou, todos ficamos muito empolgados e o carnaval aconteceu. Não ficamos em primeiro lugar, mas comemoramos o segundo com honra. O falecimento do Dudu da MUG de maneira tão repentina me chocou muito, ele era muito importante, era como um irmão meu. Em dois mil e oito cantamos juntos na escola de samba. Fiquei inconformado com a perda desse meu amigo.
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E A VAIDADE NO MUNDO DO SAMBA?
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As pessoas que me conhecem sabem que eu tenho os dois pés no chão, sou humilde mesmo sem fazer cena, trato todo mundo bem, aonde chego sou bem aceito. Temos que ter muita paciência com a vaidade dos outros também. As coisas ruins não são poucas e temos que estar preparados para passar por isso.
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QUEM VOCÊ GOSTARIA DE VER DESFILANDO NA SUA ESCOLA DE SAMBA?
Meu sonho vai ser realizado em dois mil e dez, eu sempre desejei ver o Bruno e a Thalita na minha escola. Eu falei isso na quadra da Jucutuquara. Ano passado eu falei no microfone que gostaria de vê-los na minha escola. Estou muito feliz por eles serem nosso casal de mestre sala e porta bandeira.
EXISTEM PESSOAS QUE BASTA OLHARMOS E SABEMOS QUE ESCOLA É, VOCÊÉ A CARA DA ANDARAÍ, JÁ PENSOU EM SER PRESIDENTE ALGUMA VEZ DA SUA AGREMIAÇÃO?
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Não, não e não. Nunca pensei nisso, é muita responsabilidade, meu coração não agüenta. Uma vez formou-se uma comissão de carnaval e eu tomei a frente, não agüentei, é muita carga que temos que carregar. Ser presidente não passa pela minha cabeça.
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VOCÊ JÁ DEFENDEU SAMBA EM OUTRAS AGREMIAÇÕES TAMBÉM?
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Sim, em dois mil e cinco eu defendi o samba do Ibis Bernardes na Jucutuquara e ganhamos o concurso de samba-enredo, o samba das “máscara”, que foi interpretado na avenida por Xavier. Em dois mil e seis eu novamente ganhei o concurso de samba e também fui para a avenida defendendo o samba de Linhares, fomos campeões. Inclusive foi um período muito difícil para mim, perdi minha mãe, minha esposa estava passando por um problema sério de saúde e eu tinha que me dividir entre a saúde dela, minhas filhas e os ensaios. Mas Deus me ajudou eu consegui administrar bem. Hoje minha esposa esta curada.
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SUA INSPIRAÇÃO COMO INTÉRPRETE, DE ONDE VEIO, EXISTE ALGUM ÍDOLO?
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Eu comecei admirando os intérpretes do Rio de Janeiro. Jamelão, Haroldo Melodia, Neguinho da Beija-Flor, até hoje sou fã do Neguinho. Mas o camarada que me inspirou aqui em Vitória que eu sou fã e admiro muito se chama Luiz Carlos Xavier. Todo mundo sabe disso. Em dois mil e seis me senti muito honrado quando ele estava do meu lado defendendo o samba na avenida. Acho Xavier o melhor intérprete de Vitória.
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NOS DEIXE UMA MENSAGEM:
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O que eu posso deixar é uma mensagem de paz alegria, respeito... Briga minha gente é só na avenida, com cada um defendendo a sua escola e que ganhe a melhor. Aqui fora é só amizade.
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"OS DEUSES DA MITOLOGIA
E OS FARAÓS QUEM DIRIA
UNIRAM ÉPOCAS DISTANTES
ERA DE SONHOS FACINANTES
O MUNDO TODO VOU CONTAGIAR
VIM DAS PEDREIRAS, SOU GRANDIOSA.
POTENCIAL DOS QUATRO CANTOS DO PAÍS
SOU DAS ROCHAS, ESTOU FELIZ."

(Mármore e Granito a força das pedras no Espírito Santo – Felipe Viana e João Vitor)


Lauro e sua esposa Luciene

 

 

 

 


 

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