ENTREVISTA COM MAURO PINTO

Ficha Técnica

"NINGUÉM SABE A MÁGOA
QUE TRAGO NO PEITO
QUEM ME VER SORRINDO DESSE JEITO
NEM SEQUER SABE DA MINHA SOLIDÃO
É QUE MEU SAMBA ME AJUDA NA VIDA
MINHA DOR VAI PASSANDO ESQUECIDA
VOU VIVENDO ESTA VIDA,
DO JEITO QUE ELA ME LEVAR...
VAMOS FALAR DE MULHER
DA MORENA E DINHEIRO
DO BATUQUE DO SURDO E ATÉ DO PANDEIRO
MAS NÃO FALE DA VIDA
QUE VOCÊ NÃO SABE O QUE EU JÁ PASSEI..."

Do jeito que a vida quer – ( Benito di Paula )

Hoje resolvi subir o morro! Morro este que tem um significado muito grande para mim. Meus pais nasceram lá. É o Morro da Fonte Grande.

Mas o entrevistado de hoje é uma pessoa que já foi muito atuante no Carnaval Capixaba. Reza a lenda que ele continua, mas nos “bastidores”. Estamos falando do Mauro Pinto Ribeiro (Maurinho), que também nasceu na Fonte Grande, no dia seis de dezembro de mil novecentos e cinqüenta e quatro. Sua parteira foi Dona Ilda Ribeiro da Silva, (in memorian), sua avó, a qual sempre teve muito orgulho. Filho da dona Maura e seu Aroldo (in memorian). O Maurinho mora na mesma casa em que nasceu, e além do mais fica num lugar privilegiado, pois a Fonte antes de ser destruída aquela paisagem belíssima, ficava justamente ao lado de sua casa.

Não posso deixar de falar na Dona Maura, ela sempre tinha um cafezinho quentinho, uma água gelada, e um banheiro sempre limpo, quando a gente subia para os ensaios, e até mesmo quando ficávamos a madrugada no barracão para colocar a escola na avenida. E dessa vez não foi diferente, a dona Maura já não está mais entre nós, mas a casa lá estava para receber a Equipe Viva Samba, com a água e a mesa posta para o café. O senhor Aroldo seu pai foi um dos fundadores da Unidos da Piedade, segundo o Maurinho, seu pai sempre foi muito atuante, e, não sabe o porque do seu nome nunca ter sido citado como fundador. Esta é uma das mágoas que o nosso ex-presidente sente.

Hoje o Maurinho esta sempre ajudando as agremiações que o procuram, fazendo projetos de capitação de recursos, mostrando suas experiências como dirigente de entidades, etc...

Ele sempre teve muita evidência no mundo do samba, pois já foi fundador de escola de samba, presidente... Além de ter tido vários cargos em entidades que representam o nosso carnaval.


Nos conte como foi sua trajetória no samba?

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Eu nasci no samba, pouco antes da fundação da Piedade. Sou filho de fundador. Minha casa é em frente à sede do Chapéu do Lado, hoje barracão da Piedade e onde já aconteceram vários ensaios e movimentos voltados para o samba. Então toda a minha vida foi envolvida com samba. Sou um privilegiado.

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O que já fez no nosso carnaval? Quais funções, atividades, como foi sua participação legal na prática?

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Desde que me entendo na vida, sempre estive ativo, fazendo parte da Diretoria da Piedade. Fui presidente da Piedade por dois mandatos. Antes disso, em mil novecentos e oitenta, fui fundador da Mocidade Serrana, onde também fui presidente. Em oitenta e nove ajudamos a Novo Império, Chegou o que Faltava. Em noventa e dois o Luiz Carlos Costa Pereira foi eleito para a ACES (Associação Capixaba das Escolas de Samba). Inclusive no site da Lieses está que foi o Irani, mas não foi. Neste mandato eu fui diretor administrativo. Participei da fundação da LICES onde Bernadeth Ladeslau foi eleita presidente quase por unanimidade, neste mandato fui secretário, e fui também vice-presidente na era Ewaldo Nunes.

Porque o carnaval acabou em noventa e dois?
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Nós fizemos o projeto para o carnaval de noventa e três, como já citei, eu era Diretor Administrativo, mas a Prefeitura vetou. Na verdade o projeto foi vetado pela quantidade de Escolas de Sambas que existiam na época, eram mais de trinta. A ACES neste período tinha primeiro e segundo Grupo e eram dezessete escolas. Mas existia uma outra entidade também que por sinal tinha a mesma sigla da nossa atual Liga. Tinha gente que fundava uma escola de samba em cada bairro.
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O que é o carnaval pra você?
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O carnaval é tudo. Hoje nós temos uma Liga que esta dando a “César o que é de César”. Fico preocupado com alguns que se dizem carnavalescos, falam que amam o samba, batem com a mão no peito com tanta força correndo o risco de ter até um ataque cardíaco dizendo eu amo o carnaval... Isso é tudo segundas intenções... Essas pessoas quando vêem seriedade por parte de alguns procuram logo minar o trabalho que está sendo feito. E foi o que aconteceu no carnaval em relação a minha pessoa.
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O que é ser presidente de Escola de Samba? Já que você foi de duas?
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Ser presidente de uma comunidade como a Piedade te dá uma satisfação incrível, porque você está sendo presidente da primeira escola do Estado, ainda mais do bairro onde tem plantado minhas raízes, onde eu nasci e moro. É uma maravilha... Agora trabalhar numa Escola de Samba que não tem quadra, que não tem a comunidade participando dela é difícil. Alguns anos atrás na época do sucesso da Piedade, as pessoas trabalhavam em troca da fantasia. E tinha gente que nem desfilava, mas iam para o barracão ajudar a escola. E os quatorze títulos que a Piedade conquistou foi em cima disso. Inclusive na LIGA tem que ela só tem doze títulos, mas são quatorze e tem documentos que comprovam isso. Mas enfim, o folião, o público, eles tem que pagar pelo show.
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Na sua visão, como é fazer carnaval hoje?
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Hoje sei que a prefeitura está fazendo um trabalho maravilhoso, quero elogiar a todos. Mas eles estão vendo que o carnaval é serio. Da emprego as comunidades etc. aqui se paga em média dez mil reais a um carnavalesco, e as pessoas acham que é caro, mas não é, quanto tempo ele fica envolvido com a escola, e o desgaste que ele tem. O material pra se fazer carnaval é tudo dolarizado, tudo é caro. As pessoas acham que ser presidente de escola de samba é roubar o dinheiro, mas roubar o que? Os presidentes e dirigentes que colocam seu dinheiro, e ficam atolados em dividas. Não conheço nenhum presidente de escola de samba que ficou rico. É bom ser presidente de escola de samba, porque você tem destaque, te dá mídia. Mas fazer carnaval hoje está difícil nesse sentido. Mas no sentido de organização está melhor.
Eu queria parabenizar a Liga, porque ela está mostrando para os mesmos que o dinheiro público que está sendo usado, está tendo retorno. O carnaval antes de dois mil e dois já era uma maravilha. Com a volta do desfile vejo que as escolas se aperfeiçoaram e estão se profissionalizando. A tendência é um crescimento ainda melhor.
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Porque é tão difícil a iniciativa privada se inserir no nosso carnaval?
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O interesse “POLITICO”! O político vai à escola, quer desfilar, mas só na época de eleição. Mas na hora de fazer a política de samba, ele não abraça a causa. Nós temos três senadores e dez deputados federais, qual deles até hoje teve a iniciativa de ajudar o samba capixaba? Levando projetos para a Petrobrás, por exemplo? Você entra no site da Petrobrás e através do Ministério da Cultura tem milhões de projetos em cidades que nem existem no mapa. O nosso carnaval já passou da hora de ter a iniciativa privada inserida neste contexto. O carnaval é serio. A iniciativa privada não entra porque não há interesse político. Temos várias empresas que poderiam nos ajudar no carnaval. Eu tiro o chapéu para uma representante nossa em Brasília que abraça o samba e através do Ministério do Turismo trás recursos para o nosso carnaval.
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E a Cidade do Samba, como vê em nossa terra?
Olha só! Durante dois anos eu coordenei os jurados em Cabo Frio. Eu fiquei de água na boca com a “Morada do Samba”, que é o espaço que eles tem lá. As escolas do Grupo Especial têm direito a usar a Morada. São oito galpões e mais a área de eventos. Aqui as escolas não têm nenhuma estrutura para abrigar suas alegorias e ainda são punidas por isso. Temos que ter a Cidade do Samba sim, e a Liga tem que ter autonomia para gerenciar depois de pronta, assim sabemos que vai funcionar. Porque se os governantes construírem e não passar para a Liga, vai acontecer o mesmo que nem no Sambão do Povo.
O que é o coração de uma Escola de Samba?
A bateria! Todo mundo que gosta de Escola de Samba vê que o coração é a bateria. Mas falta respeito com os batuqueiros das Escolas de Samba. A bateria não quer nada mais que o respeito.
Quem você gostaria de ver desfilando no Carnaval Capixaba, mesmo estando afastado?
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Olha só! Eu estou afastado entre “aspas”, eu estou nos bastidores, porque eu não estou morto. Quem nasceu no samba como eu, não se afasta. Eu tenho feito alguns trabalhos para algumas escolas. Mas quem eu gostaria de ver seriam aquelas pessoas que lutaram pela formação do nosso carnaval desde a fundação da UEBES (União das Escolas de sambas e batucadas do Espírito Santo), que estão vivas e ainda gostam do nosso samba. Todas as pessoas que lutaram para a formação de Ligas, de Escolas de Sambas, etc.
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Qual a mensagem que você deixa pro mundo do samba:
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Quem quiser ser castigado, seja presidente de Escola de Samba. De preferência da Piedade! Porque todo presidente além de ser massacrado é chamado de ladrão.
Queria agradecer também em memória do Oswaldo Mello, a comissão de carnaval que nós formamos em outra época. A Piedade foi pioneira em formar uma comissão de carnaval aqui no estado. Toda escola tem que trabalhar desta maneira. A Piedade na época não foi campeã, mas conseguiu ficar entre as grandes escolas. Depois disso veio a decadência total. Esta comissão era formada por: Oswaldo, Aldir, José Fernando, Francisco Velasco, Odilvan e eu.
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“MOÇO, AUMENTE ESSE SAMBA
QUE O VERSO NÃO PARA
BATUQUE MAIS FORTE
E A TRISTEZA SE CALA
E EU LEVO ESSA VIDA
DO JEITO QUE ELA ME LEVAR...
É DO JEITO QUE A VIDA QUER
É DESSE JEITO...”


Mauro Pinto e o amigo Costa Pereira


Mauro Pinto e amigos da Unidos da Piedade


 

 


 

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