ENTREVISTA COM O MARCELO JANCKE

Ficha Técnica

"NA TERRA DOS ORIXÁS
UM AMOR SE DIVIDIA
ENTRE UM DEUS QUE ERA DE PAZ
OUTRO DEUS QUE COMBATIA
COMO A LUTA SÓ TERMINA
QUANDO EXISTE UM VENCEDOR
IANSÃ VIROU RAINHA
NA COROA DE XANGÕ"

A deusa dos orixás – ( Romildo S. Bastos e Toninho Nascimento)


Hoje eu recebi em minha casa a visita de um amigo. Somos amigos desde o tempo da banda marcial, do tempo que coreografia de mestre-sala e porta-bandeira era o mestre ajoelhar, erguer a mão para a porta-bandeira e ela dar a volta em torno do mesmo, não é mesmo Maurinho? (risos). Amigos desde os tempos que Athanásio da Pega no Samba e Gibson Muniz tinham cabelos. Ele nasceu no dia treze de março de mil novecentos e setenta, em Baixo Guandu (ES), e ainda pequeno veio morar no Alto de Caratoira, reduto de sambistas. Filho da dona Carmen, onde ele diz que é a fonte de sua inspiração. Sua mãe é um encanto e pessoa.
Não esqueço a vez que ele junto de um grupo de amigos em comum, resolveram fazer uma festa de aniversário para mim, com direito a homenagem, uma boneca vestida de passista em cima do bolo e tudo, mas aconteceu um detalhe; eles esqueceram de me convidar e eu como não sabia de nada, simplesmente não apareci. Todo ano quando este amigo liga me parabenizando, a primeira coisa que ele pergunta é se eu vou a minha festa (risos).

Estamos falando do Marcelo Jancke Abreu, costureiro de carnaval, que não vem de uma família tradicional do mundo do samba. Mas o samba corre em suas veias assim mesmo, ele não sabe explicar isso. Mas diz que talvez ele pode ter dado início a uma nova tradição familiar, acredita que seus sobrinhos darão continuidade ao que ele tem paixão, que é o carnaval de escolas de samba. Imperiano roxo, mas como é um profissional do samba trabalha para várias escolas com muito carinho e dedicação.

Nosso amigo é muito calmo, neste tempo todo de amizade, nunca o vi levantar a voz pra ninguém, gosta muito de ouvir as pessoas, é muito assíduo com sua religião que é o candomblé, mas também respeita todas as outras, até mesmo os que não tem nenhuma as vezes ele tenta me explicar alguma coisa sobre seu santo, mas confesso a vocês que é um tanto complicado. Há anos ele confecciona a roupa da Miss Espírito Santo Gay. Faz também o traje típico da Miss ES infantil, juvenil e mirim.

Fiquei feliz com a visita deste amigo, tive o prazer de preparar um lanchinho pra ele antes de começarmos a entrevista. Se eu continuar desse jeito, quando chegar o carnaval vou ter que desfilar vestida de barril e garrafa pet (risos).


Nos fale da sua trajetória no samba capixaba, como e quando começou?

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Em mil novecentos e oitenta e quatro no barracão do Novo Império com a grandiosa Marlene que até hoje é uma das grandes damas da costura do carnaval capixaba. Comecei como ajudante, trabalhando com colagem de alas. Fiquei durante dois anos, ai a própria Marlene começou a observar que aquilo para mim era pouco. Foi ai que ela me passou alguns quesitos como comissão de frente e depois comecei a tomar conta da roupa do Roberto e da Karla que eram casal de mestre-sala e porta-bandeira na época.

Obs: A Karla além de ter sido porta-bandeira, já foi rainha da bateria do Novo Império e filha da Marlene. O Roberto é irmão do mestre-sala Kira. A Karla e o Roberto eram casados e formavam um excelente casal de mestre-sala e porta bandeira no carnaval capixaba.
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Você tambem já foi destaque, quer falar sobre isso?

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Comecei no Novo Império, na ala do Luizinho que chamava “Gente fina é outra coisa” onde você também participava. Aliás, a ala do Luizinho era uma mistura de bandeiras, porque tinha você da Piedade, Robinho Paizan da Jucutuquara, Athanásio da Pega no Samba, Marilda da São Torquato, Vera da extinta Gurigica, gente dos Originais do Contorno... Enfim era uma verdadeira confraternização de escolas muito legal mesmo. Foi nessa ala que eu desfilei pela primeira vez como destaque.

Como é fazer carnaval em nossa terra?
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É um pouco complicado, devido aos problemas financeiros que as escolas possuem. Você não pode viajar muito com o que se vai fazer, temos que saber trabalhar com poucos recursos é onde entra a criatividade tanto do carnavalesco, quanto a de quem vai confeccionar as fantasias e alegorias.
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Alguns destaques estão deixando de desfilar em nosso carnaval, por conta do descaso atribuido nos carros. Às vezes não conseguem encaixar suas fantasias, outras não tem a haste de apoio, até mesmo destaque chegando e o seu carro não ter queijo para ele desfilar, o que pensa disso tudo?
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Aqui em Vitória, até mesmo em algumas escolas do Rio de Janeiro, existe um problema sério na confecção de alegorias. As escolas não se comunicam com os destaques para fazerem seus encaixes nos carros. Essa comunicação tem que ser durante a montagem das ferragens, porque depois do carro pronto não adianta. Conheço destaques que gastam fortunas em suas fantasias e chegam na hora tem que desfilar sentados porque o carro não ficou devidamente pronto, isso é realmente comum aqui, e um grande absurdo. Temos que ter bons diretores de carnaval, de barracão pesado e uma boa comunicação entre eles e os destaques. Existem também algumas pessoas que a vaidade é tão grande que eles querem que a escola mude todo um projeto de alegoria, porque eles não aceitam por conta de suas fantasias.
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Você também cria fantasias ou só confecciona?
Algumas eu crio, outras não. Mas crio sempre com o entendimento do carnavalesco. Ele passa o que ele deseja, a idéia, ai eu faço a criação e a execução. Isso é na Império, junto do carnavalesco Carlito Carlos.
E o sonho de ser carnavalesco, existe?
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Não! Porque eu gosto de fazer algumas coisas para o carnaval, gosto de centralizações em alguns pontos, tipo Mestre-sala e Porta-Bandeira, comissão de frente, destaques... Agora no contexto, assumir uma escola de samba é muita responsabilidade. Sem contar que fazer carnaval em três meses é muito pouco, teríamos que ter no mínimo seis meses. Penso que num espaço tão curto de tempo eu não conseguiria montar carnaval, não conseguiria colocar tudo que eu penso na avenida.
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A confecção da indumentaria da comissão de frente da Jucutuquara foi de sua responsabilidade, e muito elogiada pela mídia, o que tem a dizer?
Eu fiquei muito feliz. O figurino foi do carnavalesco Orlando Júnior que é muito talentoso e foi muito feliz na idéia. Agradeço a presidente Bernadeth Ladslau que acreditou no meu trabalho e me pediu no que eu pudesse fazer de melhor. E a partir do momento que você trabalha com o apoio de uma Diretoria que quer o melhor pra escola tudo se torna mais fácil.
Se você pudesse ser presidente da sua escola qual seria a prioridade?
Trazer uma comunidade ativa pra dentro da própria escola, sei que é difícil. Mas fazer a comunidade trabalhar de alguma forma com movimentos comunitários, criar escolas de futebol, escola de samba infantil, fazer que a comunidade se sinta importante dentre de sua agremiação. Minha meta seria criar projetos sociais.
Nós do mundo do samba já ouvimos alguns questionamentos, inclusive de pessoas da própria família imperiana, que a Novo Império tem uma quadra excelente, uma comunidade grande , mas que no dia do desfile não consegue fazer o carnaval acontecer. Mas que hoje a escola esta se reestruturando. Porque o carnaval da Império não acontecia da maneira desejada?
A Império nos últimos anos, tem passado problemas muitos sérios com os ensaios da sexta-feira que sempre foi o seu forte, este problema se chama Disque Silêncio. E isso impedia que a agremiação fizesse um bom desenvolvimento com seu ensaio, isso acabou atrapalhando todo o carnaval.
Durante este tempo todo de desfile, o que mais te marcou?
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Em dois mil e dois, a Império era a terceira escola a desfilar. Nós estávamos na concentração e tínhamos consciência que o trabalho estava pronto com êxito, mas veio aquela chuva torrencial e acabou com o nosso desfile. Foi uma pena. Ninguém esperava aquela chuva. Mas o meu melhor momento foi a comissão de frente da Jucutuquara dois mil e nove. Foi muito bom ter confeccionado a roupa de uma comissão de frente que praticamente ganhou todo os prêmios do carnaval, eu não tenho palavras.
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O que você mais gosta de fazer no carnaval?
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Mestre-sala e Porta-bandeira. Porque eu não sei explicar, só sei que sinto muita emoção. Mesmo com os “petis” de algumas estrelas. Além de gostar de confeccionar a roupa eu já tive o privilégio de acompanhar alguns casais na avenida, como Andressa e Kira, Renata e Kira, Anderson e Renata, e agora devo acompanhar a Delma e o Tony. É emocionante o que o público faz, eu gosto muito.
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Carnaval dos anos oitenta para nossos dias, o que mudou?
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Nos anos oitenta era um carnaval que havia calor humano das pessoas, era um carnaval mais raça, mais emoção. Hoje o carnaval está mais cartola, é o carnaval das pessoas que buscam uma escola que está na mídia, as pessoas estão querendo mais conforto pra desfilar. E isso está correto, o carnaval é pra ser um divertimento e não um estresse.
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O tempo que ficamos sem carnaval, qual sua avaliação?
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Acho que prejudicou e muito. Acredito que se o carnaval não tivesse parado a estruturação hoje seria muito melhor.
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Projetos para o carnaval dois mil e dez?
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Estou voltando para a Império com força total, eu confio na nova diretoria. Voltei a assumir o casal de mestre-sala e porta-bandeira. Farei a roupa dos dois casais. Também a roupa Eliana esposa do Robertinho da MUG e da Angélica esposa do Arnoud vice-presidente da MUG, que eu faço toda estrutura e a parte de costura e o Alex faz a parte dos bordados, trabalhamos em conjunto há anos.
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Quem gostaria de ver desfilando na sua escola?
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Bem, primeiro eu gostaria de ver você na minha escola né? Mas existem pessoas que eu gosto de ver desfilando na minha escola, como a Sônia, alguns integrantes me emocionam, o calor humano que o Império exala na avenida é o que me faz ficar naquela escola até hoje.
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Qual a mensagem que você vai nos deixar:
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Que cada um acredite no seu potencial. Existe uma frase que diz o seguinte: “Posso não ser o melhor, mas a minha arte incomoda”.
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1ª Fantasia de MS e PB confeccionada por Marcelo Jancke para Karla e Roberto da Novo Império

 


 

 


 

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