ENTREVISTA COM O SECRETÁRIO DE CULTURA ALCIONE PINHEIRO

Ficha Técnica

“HOJE EU VOU SAMBAR NA PISTA, VOCÊ VAI DE GALERIA
QUERO QUE VOCÊ ME ASSISTA NA MAIS FINA COMPANHIA
SE VOCÊ SENTIR SAUDADE, POR FAVOR, NÃO DÊ NA VISTA.
BATE PALMAS COM VONTADE, FAZ DE CONTA QUE É TURISTA.
HOJE O SAMBA SAIU LALALAIA, PROCURANDO VOCÊ...
QUEM TE VIU, QUEM TE VÊ...”

Trecho da Música “Quem te viu, quem te vê” (Chico Buarque de Holanda)

“NÃO QUERO QUE MINHA CASA SEJA CERCADA POR MUROS DE
TODOS OS LADOS E QUE AS MINHAS JANELAS
ESTEJAM TAPADAS. QUERO QUE A CULTURA DE TODOS OS
POVOS, ANDEM PELA MINHA CASA COM O MÁXIMO DE
LIBERDADE POSSÍVEL.”
Mahatma Gandhi – Líder pacifista da humanidade - (02/10/1869 – 30/01/1948)

Hoje eu não sei se conversei com um amigo, com um sambista, com um mestre-sala ou com o Secretário de Cultura da cidade de Vitória. Mas isso não importa, só sei que conversei com um apaixonado por Escolas de Sambas e pela cultura capixaba.

Este moço que tem cara de menino, brinca, faz molecagem com a gente... Durante a entrevista ele sempre fazia uma brincadeira comigo, mas na hora da seriedade ninguém consegue segurá-lo. Ele está sempre se cobrando, e gosta das coisas corretas com todos os pingos nos “is”. Talvez o entrevistado de hoje seja o único Secretário de Cultura do mundo que também é mestre-sala. Mas se já tivemos até Ministro cantor e compositor, que mal há nisso?

O filho do senhor Antonio Alayde Pinheiro (in memorian) e senhora Terezinha Alvarenga Pinheiro chama-se Alcione Alvarenga Pinheiro que nasceu no dia oito de dezembro de mil novecentos e sessenta e sete, dia de “Nossa Senhora da Conceição”, nesta cidade de Vitória ES. Jornalista graduado pela Faesa, casado há vinte anos com a Jane Costa. Seus filhos são: o Lucas e a Letícia, e, diga-se de passagem; eles formam uma bela família.

A Jane vai desfilar no carnaval de dois mil e dez junto do experiente mestre-sala Kira, já que o nosso entrevistado não deve, por exercer um cargo público de suma importância.

O Alcione começou na vida cultural muito cedo. Desde menino sempre acompanhou as escolas de sambas, foi marcador de quadrilha, participava ativamente de eventos no bairro do Itararé onde nasceu, e tem orgulho em dizer que é da periferia. Trabalhou na rádio Espírito Santo com o saudoso Francisco Gonçalves fazendo cobertura do “Brasil Terra da Gente”, que era das vinte e duas as zero hora todos os dias. Este programa era totalmente voltado para o carnaval capixaba. Era uma espécie de “Viva Samba” nas ondas do rádio, onde todo mundo sabia tudo que estava se passando no mundo do samba. Até porque naquela época talvez o programa fosse o único veiculo de comunicação do nosso samba.

O nosso Secretário tem nesta gestão o compromisso de levar a diversidade da nossa cultura para um lugar mais elevado e não esta medindo esforços para isso.


Primeiro nos fale do Alcione pessoa física no mundo do samba, como que aconteceu?
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Na verdade eu fui nascido e criado na periferia, em Itararé, nos blocos, eu tinha uma ligação muito grande com os “bois” que o senhor “Corró” que era um líder do bairro fazia durante o carnaval. Tanto o Toninho Loyola e o Zé Avelino eram integrantes da bateria da Unidos da Piedade, e, o meu pai, lógico, já foi do “Chapéu do Lado”. Então é uma longa história, ao qual eu lamento muito não conhecer mais profundamente a história do meu pai com a batucada e a escola de samba Unidos da Piedade. No meu caso em especial, eu comecei mais ou menos aos nove ou dez anos. Na Santa Lúcia foi onde eu comecei mesmo a participar ativamente. Eu não me lembro a data precisamente, mas lembro que era na avenida Rio Branco, rua esta que era calçada ainda com paralelepípedo. Os ensaios aconteciam ali. E eu tocava tarol, era muito garotinho.
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E ser mestre-sala?

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Se não estou enganado, na época quem era presidente da Santa Lúcia, era o
senhor Waldomiro, e, o seu filho Marco Antonio era mestre-sala, fui convidado por eles para ser o segundo. Desfilei duas vezes. Passei pela Mocidade da Praia onde eu tenho até hoje a bandeira da escola, e só entrego depois que a Mocidade retornar ao carnaval capixaba. Era muito bons os ensaios que aconteciam no IBC*. Passei também, pela Monte Belo e Mocidade Serrana. Depois o carnaval acabou. Quando voltou, não consegui me ambientar, até porque minha comunidade que é o Itararé não tem escola de samba. E quem não é da comunidade onde tem uma, é muito difícil pra chegar. Mas mesmo assim eu desfilei como segundo na Andaraí, em seguida como primeiro na Barreiros. Mas tive um problema que machuquei o tendão e acabei não desfilando. Desfilei como segundo casal na Pega no Samba. Em dois mil e sete e oito desfilei como primeiro casal na mesma escola. Em dois mil e nove, não desfilei porque virei secretário.

* IBC – Instituto Brasileiro do Café, armazém situado em Jardim da Penha.

Como é administrar vida pública, sendo você, Secretário de Cultura, com todo este envolvimento que tem com o samba? Existem muitas cobranças?
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Sim! Mas eu também me cobro muito, porque eu conheço a realidade do samba. Das escolas de samba eu conheço a fundo e convivo com as pessoas. Eu tenho o lado pessoal de ver o samba crescer... Eu sei onde estão as fragilidades do samba, sei quem trabalha com sinceridade, sei quem está interessado em outras coisas que não favorecem o samba. Eu me cobro muito, porque sei a fama de cada um que passou, que passa e sei também os que querem voltar para o samba. Eu conheço a fama de cada um, tanto o lado bom quanto o lado ruim. Então se torna muito difícil pra mim porque tenho que jogar pesado com essas pessoas algumas vezes. Por outro lado eu tenho a premissa de pautar a gestão com a legalidade, e não fugimos a isso.
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E os dirigentes como veem um sambista gestor da cultura capixaba?
Minha missão é, tratar isso aqui como órgão público, garantindo que a gente tenha lisura na gestão. Muitas vezes os dirigentes não entendem, achando que a gente pode dar jeitinho em tudo. Ou as pessoas vão se adequando a legislação, ou vão ficar pra trás. Quando cheguei aqui em dois mil e quatro, a Luciana Velloso Santos era gestora, e fizemos a transição; somos amigos até hoje. Dentro do PT eu era a pessoa que tinha condições de dar continuidade ao carnaval, e eu estou muito feliz porque conseguimos levar o carnaval com tranquilidade.
O povo pede a Cidade do Samba Capixaba, e o Secretário, o que responde?
Quem primeiro tocou no assunto sobre a Cidade do Samba, fui eu, quando ainda não era Secretário de Cultura. Em dois mil e quatro quando fizemos uma visita ao sambódromo, durante a transição de gestão, eu levantei este assunto, até porque eu já tinha ido ao Rio e constatei o quanto seria importante para nós sambistas. O complexo esportivo pode ficar ali mesmo, até para preservarmos nossa baía. Mas teríamos que adquirir algum espaço. Isso é interesse de nossa gestão tanto prefeitura quanto secretaria.
Se o Alcione sambista fosse presidente de alguma agremiação, qual seria sua prioridade, já que você já foi do meio, mas nunca foi um dirigente?
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Uma vez me falaram que eu poderia ser presidente da LIGA, ai eu respondi que minha trajetória é outra. De qualquer maneira se eu fosse presidente, a primeira coisa que eu faria era organizar a casa do ponto de vista administrativo gerencial. Porque? As escolas de samba hoje podem e devem funcionar como empresa e se você tiver mesmo que seja uma micro-empresa organizada e bem definida você pode fazer planejamento e se organizar. É um absurdo uma cidade como Vitória, que tem escolas de sambas a mais de dez anos e que não sabem fazer planejamento, prestação de contas, não sabem fazer captação de recursos, fazer formação de mão de obra. E que tem presidentes que se perpetuam dentro dos cargos. É um absurdo. Eu faria funcionar uma diretoria de verdade. Onde você pudesse fazer eleição, mudanças... Ninguém pode se perpetuar em lugar nenhum, porque escola de samba não é iniciativa privada. Ninguém é dono de escola de samba. Por isso que eu sou duro com os dirigentes, porque eu conheço. Mas eu sou duro, porque eu aposto numa escola de samba como geradora de emprego e renda, eu sei que isso é possível e importante para a comunidade. Eu acredito neste instrumento de transformação social. Numa escola de samba encontramos diversas formas de manifestações culturais.
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Porque é tão difícil a iniciativa privada chegar no nosso carnaval, segundo os dirigentes de Escolas de Sambas?
Hoje o setor empresarial está mais confiante. As escolas estão buscando e conquistando esse espaço. A iniciativa privada pode olhar com bons olhos o nosso carnaval deste ano. As escolas estão se profissionalizando, aja vista que ano passado uma escola não desfilou porque não estava preparada para desfilar. Recuou, voltou um passo, agora tenho certeza que vai avançar dois. Isso ai já demonstra que as escolas estão se profissionalizando.
O que mais te aprecia numa escola de samba?
Com certeza a diversidade popular, essa diversidade é o que mais me encanta. Também essa mistura de religião, classes sociais, intelectuais... Isso tudo me facina... Quando você entra numa quadra, quando você, está desfilando, você está do mesmo tamanho dos demais integrantes. Se você está num carro alegórico, ou no chão, ou carregando instrumento, ou a bandeira, todo mundo é rei. O saber que as pessoas estão ali curtindo. Eu não canso de falar que desfile de escola de samba não tem espaço para violência. O desfile é um ambiente de paz.
Quem você gostaria de ver desfilando no carnaval capixaba?
Eu gostaria de ver meu pai se ainda fosse vivo. Eu gostaria muito de vê-lo na bateria. Quando ele falava da batucada “Chapéu do lado”, da Piedade... Eu não pude ter este prazer. Gostaria também de ver meus filhos desfilando, apesar da minha filha já ter me acompanhado.
Como pessoa pública, qual sua visão do carnaval?
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Continuo batendo na tecla em ser muito exigente. Claro que serei sempre participativo, ouvindo muito as pessoas e tentando fazer o melhor. A minha intenção enquanto gestor público hoje é fazer o carnaval crescer. Mas isso não depende só dos órgãos públicos, depende também do comprometimento das escolas de sambas, de uma Liga séria, comprometida, e focada para o carnaval. Porque se, nós tivermos um retrocesso no meio do caminho teremos problemas. Porque não foi fácil trazer o Governo de volta pra cá, todo mundo sabe que existia uma desconfiança do passado, eu já falei isso lá no inicio. Mas todo mundo sabe disso. Inclusive nós estamos enfrentando e convivendo com estas pessoas que chegaram a pisar na bola. Eu não tenho problemas em dizer essas coisas, porque todo mundo sabe. Mas eu acho que todo mundo é recuperável e o carnaval está em ascensão.
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Nos conte um fato interessante que aconteceu durante sua trajetória no samba?
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Antigamente a gente saia de um ensaio e íamos atrás de outra escola. Numa bela noite saímos do ensaio da Santa Lúcia e fomos para a Andaraí que era pertinho. Chegando lá o intérprete (não sei se já era o Lauro), não tinha ido, ai anunciaram se tinha alguém que sabia cantar samba enredo. Como eu sabia todos os sambas daqui e do Rio, eu levantei a mão e eles me chamaram. Ai eu mandei brasa, só que eu cantei tão bem que nunca mais me chamaram (risos). Na verdade eu sabia as letras, mas não sabia cantar.
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Qual sua escola de coração?
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Sempre Santa Lúcia, as pessoas falam que eu falo isso porque ela não existe mais. Mas de certa forma foi onde eu comecei, onde eu desfilei pela primeira vez como mestre-sala... Eu tenho um carinho muito grande pela Santa Lúcia. Eu tenho uma certa paixão pela Piedade, porque meu pai desfilou lá, eu frequentei a escola, gosto muito da Piedade. A Andaraí era uma escola que a gente frequentava, mas eu não lembro de ter criado um vínculo com a Andaraí. Apesar de eu já ter desfilado lá, depois não deu certo, eu me senti desprestigiado... Mas na realidade quem é do samba acaba torcendo para que todas as escolas se dêem bem.
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Quando você deixar de ser Secretário, voltará a ser mestre-sala?
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Adorei esta pergunta. Esta pergunta é boa, porque eu posso mandar um recado. Quero dizer aos sambistas e principalmente aos mestres-salas, que eu enquanto Secretário, não posso desfilar na avenida, mas posso dançar na quadra. E de preferência com todas as portas bandeiras e em todas as quadras que eu for visitar. Eu chego nas quadras fico doido pra dar uma palhinha e ninguém me convida. Eu gosto de dançar. Eu não quero ficar na saudade não. Eu quero dançar.
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A Cultura tem interesse em mudar a data do carnaval?
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Não! O nosso carnaval consolidou-se em ser uma semana antes do carnaval oficial. Parabéns para Luiz Paulo Velloso Lucas acho que ele foi muito feliz quando teve essa idéia. Acho que ele pensou corretamente. Enquanto temos gente aqui querendo voltar o carnaval para o dia oficial, São Paulo e Rio de Janeiro estão pensando em tirar. Até porque já tem gente que acha que o desfile de escolas de sambas é um espetáculo à parte do carnaval. E eu penso assim também, desfile de escola de samba é uma coisa e carnaval tradicional é outra coisa diferente.
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Nos deixe uma mensagem:
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Primeiro para os dirigentes e depois para as pessoas que gostam do samba. É preciso olhar o ambiente das escolas de sambas como um ambiente de inclusão e transformação social. Olhar esse ambiente como fonte de geração de emprego e de renda. Por isso é preciso ter carinho com quem participa dessa manifestação popular. Porque são essas pessoas que fazem de fato o espetáculo. Dirigente não é dono de escola de samba, dirigente não é dono do carnaval capixaba, dirigente não faz esse evento sozinho. Os dirigentes só estão ali para coordenar este espetáculo. Então é preciso que tratem essas pessoas com respeito para que a gente possa agregar os interesses públicos, privados e porque não pessoais.
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Secretário Alcione e sua esposa Jane

 

 

 


 

 


 

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