ENTREVISTA COM O MESTRE ALOISIO ABREU
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Técnica |
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“PANDEIRO
NÃO É ABSURDO, MAS É O MEU NOME
Este menino está no auge de seus setenta e oito anos, e olha vocês que ele garante que ainda dá um “bom caldo”, eu não entendi nada (risos). Nasceu no dia primeiro de setembro de mil novecentos e trinta e um, no morro da Piedade. Foi para o Rio de Janeiro servir ao exército, e lá aprendeu muita coisa de samba. Viúvo, com cinco filhos, mas a quantidade de netos já perdeu as contas... Aposentado, ou melhor, “fiscal da natureza” como ele mesmo diz. Adora tomar uma cachacinha, acompanhar um bom samba com os amigos que não são poucos, gosta também de ficar na dele. Pessoa simples, quieta, sempre com seu chapéu na cabeça e muito lindinho... Onde tem eventos da sua escola de coração, ele esta marcando presença, e o mais interessante, rodeado de amigos de várias gerações. Todos os títulos que a Piedade ganhou, lá estava ele à frente da bateria. Mas isso não faz diferença nenhuma. Segundo ele, o título só vem se todos trabalharem igual, cada um no seu cada um. Passamos
boa parte da manhã sentados num dos bancos da praça,
onde um dia já funcionou a Prefeitura de Vitória. Muito
interessante quando o mesmo recordou que ali na Rua Sete de Setembro
não era lugar pra qualquer um, muito menos para sambista do
morro. E agora ele estava sentado falando de samba, quem diria. Reza
a lenda que ele é de pouca conversa e não gosta de dar
entrevistas. Nós da Equipe Viva Samba não tivemos problemas
nenhum com este pandeirista simpático e agradável. A
cada minuto da entrevista sempre chegava alguém para cumprimentá-lo
com carinho. “O
VERDADEIRO CONHECIMENTO VEM DE DENTRO” |
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Qual
o significado do samba para o senhor? |
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O samba não tem significado, tem alma. Começamos fazendo
samba maluco, de qualquer jeito, no fundo do quintal mesmo. Depois o
samba de qualidade foi se formando. Mas naquele tempo as pessoas achavam
que samba era coisa de molecagem, de bandido, cachaceiro... O samba
era muito visado. As famílias não deixavam suas filhas
participarem. O morro não se misturava com o povo da baixada,
e nem o pessoal da baixada subia o morro. Agora está muito bom,
todo mundo participa. |
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E
a Piedade, como surgiu? |
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X *
O Hermógenes ao qual o Mestre Aloísio se refere, é
o nosso historiador e folclorista Hermógenes Lima da Fonseca,
(12/12/1916 – 1996). |
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Que
instrumento o senhor tocava? |
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Vários. Mas o pandeiro era o que eu mais gostava e ainda gosto.
É uma pena que não se usam mais nas baterias, só
para exibição dos passistas. Sinto falta também
do triângulo, frigideira, agogô... |
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Como
o senhor chegou a ser mestre de bateria? |
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Antigamente não existia esse negócio de mestre não. Ai o pessoal viram no Rio, e quando a Piedade surgiu, falaram que era para eu ser mestre. Eu não quis não, falei que não era minha praia, que não levava jeito pra coisa, mas eles insistiram e eu aceitei. Ainda bem que eu consegui segurar a peteca. |
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Qual
a diferença do carnaval daquela época para agora? |
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As escolas tinham que recolher mais cedo, e era no carnaval mesmo. E
durante os três dias. Agora é uma semana antes. Acho que
é melhor, porque a gente pode assistir o desfile do Rio. Antigamente
as pessoas brigavam pelo amor a escola, agora é tudo diferente.
As escolas levavam mais de duas horas para desfilar, era muito bom. |
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E a disputa como era? |
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Há minha filha! Era muito mais pesado. Acontecia até briga
na Princesa Isabel. A “Amigos da Gurigica” era muito implicante
que era danada, eles queriam ganhar na marra, e, ganharam muitos títulos. |
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O que o senhor acha mais importante para se colocar uma escola na avenida? |
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Organização! Você tem que começar pelos ensaios.
Começar na hora certa, todo mundo ensaiando para fazer bonito
na passarela e poder ganhar o carnaval. Senão a coisa não
funciona. Trabalhar direito pra quando chegar no dia não ficar
aquela correria, Deus me livre. |
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Como
o senhor vê, uma bateria de escola de samba hoje? |
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Hoje não existe mais samba, existe marcha. Dizem que é
devido a cronometragem. Falam que não dá mais pra fazer
samba cadenciado porque demora muito e as escolas são grandes.
No Rio tudo bem, mas aqui não precisa ser assim, porque as escolas
são pequenas. |
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E a bateria é o coração da escola? porque? |
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Não! Não tem nada a ver a bateria ser o coração
da escola. Uma boa bateria ajuda muito no andamento do samba, do desfile
e tudo mais. Mas a escola é um só coração,
isto é, um só corpo e este corpo não podem ser
mutilado. |
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Nos
fale da Piedade hoje? |
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O povo, como se diz na língua moderna; o povo é muito
“marrento”. Mas dizem que todas as escolas são assim.
Antigamente as pessoas tinham mais amor. Dava gosto de ver. Agora você
vê “batuqueiros”, diretores... Falando que só
vão tocar, se pagarem, se derem cervejas, camisa... Isto tá
errado... Não é assim que se faz à escola ganhar. |
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Já
desfilou em outra agremiação que não fosse a Piedade? |
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Nunca! A minha escola é a Piedade, a “Mais Querida”,
como o povo fala. A Piedade é minha bandeira. Enquanto minhas
pernas aguentarem, eu desfilarei na Piedade, e no chão, porque
no chão a gente se diverte mais. |

Mestre
Aloisio Parú
