ENTREVISTA COM O COMPOSITOR TONICO DO CAVACO

Ficha Técnica

“O CORPO A MORTE LEVA
A VOZ SOME NA BRISA
A DOR SOBE PRAS TREVAS
O NOME A OBRA IMORTALIZA
A MORTE VENCE O ESPÍRITO
A BRISA TRAS A MÚSICA
QUE NA VIDA É SEMPRE A LUZ MAIS FORTE
ILUMINA A GENTE ALEM DA MORTE
VEM A MIM, ÓH, MÚSICA!
VEM NO AR
OUVE DE ONDE ESTÁS A MINHA SÚPLICA
QUE EU BEM SEI TALVEZ NÃO SEJA A ÚNICA
VENHA A MIM, ÓH, MÚSICA!
VÊM SECAR DO POVO AS LÁGRIMAS
QUE TODOS JÁ SOFREM DEMAIS
E AJUDA O MUNDO A VIVER EM PAZ!”

Súplica – (João Nogueira e Paulo César Pinheiro)

“O TONICO COMO COMPOSITOR É CAPAZ DE COLOCAR
MELODIA ATÉ EM BULA DE REMÉDIO!”
Rogerinho do Cavaco – (Jornalista, cantor e compositor)

 

No dia nove de dezembro de mil novecentos e quarenta e oito nascia nesta cidade de Vitória (ES), mais um autodidata do samba capixaba. Alguns amigos carinhosamente falam que ele já nasceu zangado, e eu digo: ele é zangado, mas tem um bom coração. Tanto tem, que em sua casa já acolheu e ainda acolhe, vários sambistas quando estão “desnorteados” assim como ele diz. Ele vem de uma família muito numerosa, seu pai teve trinta e dois filhos. Mas Deus abençoou para a música apenas dois; ele e o Clemilton que foi um grande compositor autor do samba “Nossas matas nosso verde nossas fontes” da Unidos da Piedade, "Rei por um dia" para a Unidos de Jucutuquara, entre tantos outros.

Estamos falando do senhor Antonio Rocha Dias, o grandioso Tonico do Cavaco. Funcionário público, mas a sua verdadeira profissão é ser sambista nato. Autor e compositor de várias obras. Já fez sambas para agremiações de Vitória, Guarapari e também para o estado do Rio de Janeiro, como escolas de sambas de Valença e Itaperuna. Ganhou festivais... A sua última vitória foi o samba enredo da Tradição Serrana para o carnaval dois mil e dez, de sua autoria e mais cinco compositores. Achei muito interessante, que, durante todo o tempo que a equipe Viva Samba passou em sua casa, ele sempre tirava uma recordação dos amigos e nos mostrava, tipo, um compacto duplo com a gravação original de “Mulher Luz” de autoria do falecido José Virginio (ou será Virgilio?) e “Estrela Clara” de autoria do nosso querido Francisco Velasco. Tirou também uma sacola com o número da candidatura do Sinvaldo Siri, fotografias... Sem contar que, todo o tempo, ele falava nos seus parceiros e pedindo pra eu não esquecer de colocá-los na entrevista, que são eles: Mancha, Cláudio, Dílson de Farias, Attilio Juffo, Fernando Monteiro, Marquinhos Gente Bamba, Zinho Furão, Costa Pereira, Fefeu, Rogerinho do Cavaco e outros...

O Tonico no carnaval, não é apenas um compositor vaidoso que só quer ganhar samba para ir pra mídia, ele é uma espécie de faz tudo pela sua escola. Adora trabalhar no barracão pesado, no dia do desfile está na harmonia fazendo a sua parte... É conselheiro e já foi presidente da Jucutuquara. Quando abriu o armário e puxou um cabide com a camisa escrita “presidente”, e disse: “esta camisa eu não usei!” Vi lágrimas em seus olhos, e isso me emocionou... Quem tem amor por sua agremiação, sabe o que é isso.


Quando começou no samba?
Em mil novecentos e setenta. O pessoal do futebol desfilava no Bloco “Deixa Cair” lá do Morro da Fonte Grande, era um bloco muito organizado, muito familiar... Ai me convidaram, eu fui meio tímido, desfilei numa ala e gostei muito. Depois o bloco acabou, fundamos o bloco “Unidos de Jucutuquara”. Daí não parei mais.
E a carreira de compositor?

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Esta história de compositor é muito engraçada (risos). Eu nunca tinha feito um samba na minha vida, não sabia nem como se fazia. O primeiro samba do bloco foi do Everaldo Nascimento (falecido), que fazia samba pro “Deixa Cair”. Quando teve a primeira escolha de samba na Jucutuquara, que foi na Choupana do Rio Branco, eu concorri com um samba que não era meu, eu só tinha algumas partes neste samba. O samba era do falecido Francisco Gonçalves que não queria colocar o nome dele na reta, a minha participação era mínima. Ai o “Esse dois quarenta e cinco” que era do Novo Império foi defender, ficamos em terceiro lugar, ganhamos troféu, nosso nome foi pra mídia, eu fui gostando da coisa... Não é por vaidade não (risos), só sei que eu gostei tanto da brincadeira que passei a compor. Durante três anos fiquei em terceiro lugar com sambas só meu. No quarto ou quinto ano, eu tirei em primeiro lugar e lavei a alma. O meu primeiro samba gravado, foi junto com o “Neném Cara Lascada ou Cara Preta”, amigo do Papo Furado.


Qual samba de sua autoria que foi para a avenida ou não, que você mais gostou?
Pra te dizer a verdade, e olha que eu não sou vaidoso (risos) eu gostei de quase todos (risos). Na verdade foram dois: Jucutuquara - “O mistério da ilha revelado pelas cartas do tarô” e Santa Lúcia - “Exaltação a liberdade do negro”. Este foi o primeiro samba enredo que eu ganhei em escola de samba. Até então eu tinha ganhado só no bloco.
Quem você gostaria de ver interpretando um samba seu?
Nego da Império Serrano. Seria meu sonho realizado ouvir meu samba naquela voz.
Como é ser compositor na nossa terra?
Aqui em Vitória não é difícil pra se ter inspiração. Aqui tem muita coisa bonita, onde é fácil tirar um acorde. O difícil é o mercado. As portas ainda estão fechadas, mas vai melhorar. Hoje estou na Velha Guarda Musical da Jucutuquara e está afiadíssima.
Presidente da Jucutuquara, como foi esta passagem na sua vida?
Foi um sufoco total... (suspiro). A verdade é que como na maioria das escolas e na Jucutuquara não é diferente, existem pessoas que querem se dar bem, e não querem ver o bem da Escola. A minha própria Diretoria me traiu porque eu não entrei no jogo deles. Ai aconteceu aquele desastre, onde ninguém se entendia, os carros não foram para a avenida como deveriam ir... Um fracasso... No ano seguinte foi mais um sufoco quando resolvi mudar. Infelizmente a minha escola era muito preconceituosa e racista em relação à opção sexual das pessoas. Quando convidei sambistas competentes para formar uma comissão de carnaval e que não estavam interessados em mamar nas tetas da escola, a coisa começou a funcionar, eles começaram a fazer enredo, desenhar carros... Era "seu" Tonico pra lá "seu" Tonico pra cá... Eu falei que os queria do meu lado porque neles eu confiava. Com isso os outros começaram a se reunir para me colocarem pra fora da escola. Mas eu tô satisfeito porque a Escola aprendeu a fazer carnaval com essas pessoas que eu coloquei lá. Hoje eu falo isso pra qualquer um. Esses meninos fizeram o melhor carnaval que a Jucutuquara já colocou na avenida. Foi em dois mil e quatro.
E a experiência adquirida nisso tudo, depois de ter passado pela jaula dos leões. Porque em toda Escola de samba, ser presidente é uma verdadeira batalha você não acha?
Sim claro que acho. Mas eu fico feliz, principalmente por aquelas pessoas que reconhecem o meu trabalho. Tudo que eu fiz pelo samba, pela Jucutuquara... Eu gosto de trabalhar no barracão, eu gosto de ver a Jucutuquara nas cabeças... Ganhando o carnaval... Afinal de contas eu sou Jucutuquara. Todo presidente que ali chega eu estou junto.
E a vaidade no samba?
A vaidade às vezes é pura inveja de quem não sabe fazer. Mas eu só tenho que agradecer a Deus, a minha família e principalmente a uma pessoa que não esta mais aqui entre a gente que é a Rosilda Falcão. Eu tenho saudade dela até hoje. Ela sempre acreditou em mim, no meu talento. Quando saí da Velha Guarda Capixaba por motivos que não vem ao caso agora, ela foi à primeira pessoa a ligar pra mim. Ela estava acima de qualquer vaidade com o artista capixaba. Ela queria fazer a cultura da nossa terra.
Para uma Escola fazer um bom desfile, o que é mais importante?
É o desafio. Primeiro fazer uma boa diretoria, e esta diretoria trabalhar bem com a comunidade, organizar a escola internamente. Depois trabalhar o enredo. Mas tem que ser um enredo dentro do poder aquisitivo da escola tem que ser um enredo que dê vida e que seja a cara da escola também, mas tudo dentro do orçamento. A escola tem que ter um samba de acordo com a quantidade de componentes. O diretor de harmonia tem que educar o componente.
Um acontecimento interessante nesta sua vida de samba?
O samba em si pra mim é uma cachaça. Tenho vários acontecimentos, mas agora não lembro. Mas o mais interessante foi quando o Papo Furado deixou todo o povo da gravadora “Som Livre” encantado com a sua voz quando ele na porta começou a cantar “Mulher Luz” de autoria do Zé Virgilio, compositor capixaba (antigamente o disco das escolas era gravado no Rio de Janeiro). Depois ele cantou o alusivo da Piedade, depois cantou "meu terno branco de domingo"... Ai ele foi aplaudido de pé por todo mundo da gravadora. Ele foi convidado pelo diretor presidente para se lançar no mercado do samba, assim como Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Agepê e outros da época. O diretor deu umas dez a dose fitas cassetes pra ele aprender as músicas. Ali tinham várias músicas inéditas do João Nogueira, Paulo César Pinheiro... Voltamos a Vitória. Ele trocou tudo por cachaça no bar do Chico. E ainda disse: “Vê se eu vou largar minha família pra virar artista?” E eu que achei que ia embarcar nessa junto dele dancei (risos).
Antigamente a disputa para samba enredo era muito mais competitiva. E você ainda tinha um agravante de ter que disputar com seu próprio irmão, como era isso?
Nossa era uma competição legal. E o meu irmão também era muito bom. Tinha ano que ele ouvia meu samba e falava, este samba tá muito bom, eu não vou fazer pra competir com você. E eu fazia a mesma coisa quando via que ele tinha um trabalho pra ganhar na disputa. Ai ninguém atrapalhava ninguém. A gente ia entrava na torcida fazia campanha...
Você esta no carnaval há muito tempo, já passou por vários momentos, e o carnaval hoje, qual sua opinião?
Hoje virou empresa. Em relação aos compositores o órgão de arrecadação dos músicos arrecada muito e não repassa pra gente o suficiente. No geral, o carnaval de Vitória chegou a ser o segundo melhor, mas a ganância de algumas pessoas fez com que acabasse. O único meio de resgatar o nosso carnaval foi o que a Cláudia Cabral fez, passar para uma semana antes. Eu bato palmas pra ela até hoje. Hoje as escolas estão crescendo, se não fosse dessa maneira acho que não daria certo.
Projetos para dois mil e dez?
Graças a Deus vou realizar um sonho que não é só meu, mas eu agradeço muito a falecida Rosilda, ela me lançou na carreira solo e o seu sonho era me ver gravando um CD. Agora eu vou conseguir realizar este sonho pela Lei “Rubem Braga”.
Nos deixe uma mensagem:
Gostaria que nossos amigos do samba, valorizassem mais a vida e o que se tem de melhor, que é a família.

 

 


 

 


 

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