ENTREVISTA COM O COMPOSITOR TONICO DO CAVACO
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Técnica |
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“O CORPO A MORTE LEVA “O
TONICO COMO COMPOSITOR É CAPAZ DE COLOCAR
Estamos falando do senhor Antonio Rocha Dias, o grandioso Tonico do Cavaco. Funcionário público, mas a sua verdadeira profissão é ser sambista nato. Autor e compositor de várias obras. Já fez sambas para agremiações de Vitória, Guarapari e também para o estado do Rio de Janeiro, como escolas de sambas de Valença e Itaperuna. Ganhou festivais... A sua última vitória foi o samba enredo da Tradição Serrana para o carnaval dois mil e dez, de sua autoria e mais cinco compositores. Achei muito interessante, que, durante todo o tempo que a equipe Viva Samba passou em sua casa, ele sempre tirava uma recordação dos amigos e nos mostrava, tipo, um compacto duplo com a gravação original de “Mulher Luz” de autoria do falecido José Virginio (ou será Virgilio?) e “Estrela Clara” de autoria do nosso querido Francisco Velasco. Tirou também uma sacola com o número da candidatura do Sinvaldo Siri, fotografias... Sem contar que, todo o tempo, ele falava nos seus parceiros e pedindo pra eu não esquecer de colocá-los na entrevista, que são eles: Mancha, Cláudio, Dílson de Farias, Attilio Juffo, Fernando Monteiro, Marquinhos Gente Bamba, Zinho Furão, Costa Pereira, Fefeu, Rogerinho do Cavaco e outros... O Tonico no carnaval, não é apenas um compositor vaidoso que só quer ganhar samba para ir pra mídia, ele é uma espécie de faz tudo pela sua escola. Adora trabalhar no barracão pesado, no dia do desfile está na harmonia fazendo a sua parte... É conselheiro e já foi presidente da Jucutuquara. Quando abriu o armário e puxou um cabide com a camisa escrita “presidente”, e disse: “esta camisa eu não usei!” Vi lágrimas em seus olhos, e isso me emocionou... Quem tem amor por sua agremiação, sabe o que é isso. |
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Quando
começou no samba? |
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Em mil novecentos e setenta. O pessoal do futebol desfilava no Bloco
“Deixa Cair” lá do Morro da Fonte Grande, era um
bloco muito organizado, muito familiar... Ai me convidaram, eu fui meio
tímido, desfilei numa ala e gostei muito. Depois o bloco acabou,
fundamos o bloco “Unidos de Jucutuquara”. Daí não
parei mais. |
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E
a carreira de compositor? |
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X |
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Qual
samba de sua autoria que foi para a avenida ou não, que você
mais gostou? |
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Pra te dizer a verdade, e olha que eu não sou vaidoso (risos)
eu gostei de quase todos (risos). Na verdade foram dois: Jucutuquara
- “O mistério da ilha revelado pelas cartas do tarô”
e Santa Lúcia - “Exaltação a liberdade do
negro”. Este foi o primeiro samba enredo que eu ganhei em escola
de samba. Até então eu tinha ganhado só no bloco. |
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Quem
você gostaria de ver interpretando um samba seu? |
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Nego da Império Serrano. Seria meu sonho realizado ouvir meu samba naquela voz. |
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Como
é ser compositor na nossa terra? |
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Aqui em Vitória não é difícil pra se ter
inspiração. Aqui tem muita coisa bonita, onde é
fácil tirar um acorde. O difícil é o mercado. As
portas ainda estão fechadas, mas vai melhorar. Hoje estou na
Velha Guarda Musical da Jucutuquara e está afiadíssima. |
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Presidente da Jucutuquara, como foi esta passagem na sua vida? |
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Foi um sufoco total... (suspiro). A verdade é que como na maioria
das escolas e na Jucutuquara não é diferente, existem
pessoas que querem se dar bem, e não querem ver o bem da Escola.
A minha própria Diretoria me traiu porque eu não entrei
no jogo deles. Ai aconteceu aquele desastre, onde ninguém se
entendia, os carros não foram para a avenida como deveriam ir...
Um fracasso... No ano seguinte foi mais um sufoco quando resolvi mudar.
Infelizmente a minha escola era muito preconceituosa e racista em relação
à opção sexual das pessoas. Quando convidei sambistas
competentes para formar uma comissão de carnaval e que não
estavam interessados em mamar nas tetas da escola, a coisa começou
a funcionar, eles começaram a fazer enredo, desenhar carros...
Era "seu" Tonico pra lá "seu" Tonico pra
cá... Eu falei que os queria do meu lado porque neles eu confiava.
Com isso os outros começaram a se reunir para me colocarem pra
fora da escola. Mas eu tô satisfeito porque a Escola aprendeu
a fazer carnaval com essas pessoas que eu coloquei lá. Hoje eu
falo isso pra qualquer um. Esses meninos fizeram o melhor carnaval que
a Jucutuquara já colocou na avenida. Foi em dois mil e quatro. |
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E a experiência adquirida nisso tudo, depois de ter passado pela
jaula dos leões. Porque em toda Escola de samba, ser presidente
é uma verdadeira batalha você não acha? |
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Sim claro que acho. Mas eu fico feliz, principalmente por aquelas pessoas
que reconhecem o meu trabalho. Tudo que eu fiz pelo samba, pela Jucutuquara...
Eu gosto de trabalhar no barracão, eu gosto de ver a Jucutuquara
nas cabeças... Ganhando o carnaval... Afinal de contas eu sou
Jucutuquara. Todo presidente que ali chega eu estou junto. |
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E
a vaidade no samba? |
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A vaidade às vezes é pura inveja de quem não sabe
fazer. Mas eu só tenho que agradecer a Deus, a minha família
e principalmente a uma pessoa que não esta mais aqui entre a
gente que é a Rosilda Falcão. Eu tenho saudade dela até
hoje. Ela sempre acreditou em mim, no meu talento. Quando saí
da Velha Guarda Capixaba por motivos que não vem ao caso agora,
ela foi à primeira pessoa a ligar pra mim. Ela estava acima de
qualquer vaidade com o artista capixaba. Ela queria fazer a cultura
da nossa terra. |
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Para
uma Escola fazer um bom desfile, o que é mais importante? |
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É o desafio. Primeiro fazer uma boa diretoria, e esta diretoria
trabalhar bem com a comunidade, organizar a escola internamente. Depois
trabalhar o enredo. Mas tem que ser um enredo dentro do poder aquisitivo
da escola tem que ser um enredo que dê vida e que seja a cara
da escola também, mas tudo dentro do orçamento. A escola
tem que ter um samba de acordo com a quantidade de componentes. O diretor
de harmonia tem que educar o componente. |
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Um
acontecimento interessante nesta sua vida de samba? |
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O samba em si pra mim é uma cachaça. Tenho vários
acontecimentos, mas agora não lembro. Mas o mais interessante
foi quando o Papo Furado deixou todo o povo da gravadora “Som
Livre” encantado com a sua voz quando ele na porta começou
a cantar “Mulher Luz” de autoria do Zé Virgilio,
compositor capixaba (antigamente o disco das escolas era gravado no
Rio de Janeiro). Depois ele cantou o alusivo da Piedade, depois cantou
"meu terno branco de domingo"... Ai ele foi aplaudido de pé
por todo mundo da gravadora. Ele foi convidado pelo diretor presidente
para se lançar no mercado do samba, assim como Zeca Pagodinho,
Almir Guineto, Agepê e outros da época. O diretor deu umas
dez a dose fitas cassetes pra ele aprender as músicas. Ali tinham
várias músicas inéditas do João Nogueira,
Paulo César Pinheiro... Voltamos a Vitória. Ele trocou
tudo por cachaça no bar do Chico. E ainda disse: “Vê
se eu vou largar minha família pra virar artista?” E eu
que achei que ia embarcar nessa junto dele dancei (risos). |
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Antigamente
a disputa para samba enredo era muito mais competitiva. E você
ainda tinha um agravante de ter que disputar com seu próprio
irmão, como era isso? |
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Nossa era uma competição legal. E o meu irmão também
era muito bom. Tinha ano que ele ouvia meu samba e falava, este samba
tá muito bom, eu não vou fazer pra competir com você.
E eu fazia a mesma coisa quando via que ele tinha um trabalho pra ganhar
na disputa. Ai ninguém atrapalhava ninguém. A gente ia
entrava na torcida fazia campanha... |
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Você
esta no carnaval há muito tempo, já passou por vários
momentos, e o carnaval hoje, qual sua opinião? |
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Hoje virou empresa. Em relação aos compositores o órgão
de arrecadação dos músicos arrecada muito e não
repassa pra gente o suficiente. No geral, o carnaval de Vitória
chegou a ser o segundo melhor, mas a ganância de algumas pessoas
fez com que acabasse. O único meio de resgatar o nosso carnaval
foi o que a Cláudia Cabral fez, passar para uma semana antes.
Eu bato palmas pra ela até hoje. Hoje as escolas estão
crescendo, se não fosse dessa maneira acho que não daria
certo. |
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Projetos
para dois mil e dez? |
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Graças a Deus vou realizar um sonho que não é só
meu, mas eu agradeço muito a falecida Rosilda, ela me lançou
na carreira solo e o seu sonho era me ver gravando um CD. Agora eu vou
conseguir realizar este sonho pela Lei “Rubem Braga”. |
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Gostaria que nossos amigos do samba, valorizassem mais a vida e o que
se tem de melhor, que é a família. |
