ENTREVISTA COM A MADRINHA DE BATERIA STAEL MAGESCKI

Ficha Técnica

“NUNCA SEGUI O QUE DIZEM QUE ESTÁ NA MODA.
ACHO QUE A MULHER DEVE USAR O QUE LHE CAI BEM.
POR ISSO CRIEI UM ESTILO APROPRIADO AO MEU TIPO E AO MEU GÊNERO ARTISTICO.”
Carmem Miranda - 1909–1955 (Cantora portuguesa, naturalizada brasileira)


“ROUPA NÃO TEM IMPORTÂNCIA. MODA TEM.
É UM DOCUMENTO HISTÓRICO. É CRIAÇÃO E LIBERDADE”.
GOSTO QUE A MULHER FALE, QUE SE EXPRESSE...”
Zuzu Angel – 1921–1976 (estilista)


A entrevistada de hoje é com uma sambista nata, que tem a irreverência da nossa “Pequena Notável” Carmem Miranda, e, ao mesmo tempo a legitimidade da nossa “Grande” estilista Zuzu Angel. A brasilidade dessas estrelas deixou marcas na história.

Estamos falando da Stael Magesck, Madrinha da Bateria da escola de samba Imperatriz do Forte. Escola esta que a mesma tem muito orgulho de ser representante. Por várias vezes durante a entrevista, ela se emocionava quando se referia a Imperatriz.

Ela é atriz, bailarina, maquiadora e designer em modas. Filha do senhor Julival e senhora Lenilda. Nasceu no dia seis de julho em Vitória, e se orgulha de ser capixaba. Tem dois filhos lindos que foram adotados ainda muito pequeninos, são eles os bichanos: Ernesto Guevara e Merylin Monroe. Que carinhosamente atendem pelo apelido de Bebe e Bibi. Esta minha amiga é tão atenciosa que só descobriu que a Merylin era um menino, oito meses depois. Olha só o problema que criou na cabeça deste felino (risos).

A Stael valoriza o artista capixaba. Está completando um ano do projeto “Casa Aberta”. Onde abre seu ateliê no centro de Vitória, sempre uma vez por mês, para os mesmos apresentarem seus trabalhos: músicas, poesias, enfim... Uma casa alternativa.

Quando a equipe Viva Samba chegou, fomos recebidos com muito carinho, simplicidade, e, ao mesmo tempo com uma energia que não sabemos decifrar. Apaixonada pelo nosso carnaval e mais precisamente pela Imperatriz, acredita que se tivermos igualdade em nosso samba, o carnaval capixaba cresce. O seu maior orgulho é ser Madrinha da Bateria da Imperatriz e ser reconhecida pela maioria da comunidade, o quanto ama esta escola.

 


Como chegou ao Mundo do Samba?
Aos dez anos de idade, na Mocidade Serrana, eu morava em Bairro de Fátima, minha tia era rainha da bateria, a outra era porta bandeira, elas passavam na minha casa me pegavam e íamos para os ensaios. Minha mãe ficava muito preocupada, mas eu não podia deixar de ir. Comecei a desfilar quando o carnaval ainda era na Princesa Isabel. Depois no Sambão até acontecer o recesso..
Por que a Imperatriz?

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Quando o carnaval voltou, a Mocidade Serrana já não existia. Como eu já trabalhava com teatro, terminava o ensaio que era no Carlos Gomes, íamos para a rua Barão de Monjardim, onde aconteciam os ensaios da Imperatriz do Forte. Lá encontrava com muitos artistas como o Waldir Castiglione, a Nana etc... Todos os artistas que já eram da velha guarda do teatro capixaba estavam ali. Eu fui me identificando com o ambiente. Desfilei numa ala, no ano seguinte o carnavalesco me chamou pra ser destaque de chão no outro ano também. Chegava nos ensaios me identificava com a bateria. Passei a ser chefe da ala das passistas. A Imperatriz me dá muito prazer. Eu me identifico muito com esta escola.

E Madrinha de Bateria, como foi o convite?
Quando o enredo foi sobre o teatro capixaba, o Magno e Cláudio carnavalescos da época, me convidaram pra vir representando na frente da bateria. Por eu ser do teatro e já ter todo um envolvimento com a escola, fui convidada a ser Madrinha. Estou até hoje, já são seis anos.
Quais os quesitos necessários para ser uma Madrinha de Bateria?
Não existe quesito, você tem que interagir com a comunidade. Mas isso tem que ser de uma forma natural tem que vir do coração... Você não tem que ser perfeita. A empatia comigo e a Imperatriz foi mútua. Quando o ensaio é na quadra em frente o Salesiano que eu vou subindo as escadas às meninas vem até a mim pra poderem me carregar, pegam minha mala, me reverenciam... Os velhinhos vêm me abraçar, as senhoras... Tudo vai acontecendo. Eu sinto uma coisa que é diferente quando estou na Imperatriz. Eu me sinto a verdadeira Madrinha e sou muito feliz com isso.
O que é Stael Madrinha x Rainha x Bateria?
É tão engraçado isto. Eu falo que pra mim não existe diferença nenhuma, até porque ninguém é melhor nem pior. Desde quando eu entrei, passaram várias meninas ela entram, saem, entram outras... E quando eu falo que estou cansada, alguém fala: Não, não, não... Você é a cara da Imperatriz e você tem que ficar. Por isso que eu fico. Eu me sinto à vontade com a comunidade. Lógico que não consigo agradar a todo mundo, o que é muito natural. Hoje eu tenho meninas na Imperatriz que sou Madrinha de verdade, fico muito feliz com isso. Passo e as crianças me chamam de Madrinha. Isso é muito bom. Vi algumas crianças crescerem ali. Na Imperatriz me sinto em casa.
Se você pudesse mudar algo no nosso Carnaval, o que seria?
Eu mudaria para ter um carnaval com mais igualdade. Tentaria dar condições para todas as escolas. Até pra gente poder brigar de igual pra igual. Agente vê tantas promessas, mas não vemos nada acontecer. A Vila do Samba que nunca acontece. Já fomos em lugares menores que o nosso e vemos a Vila do Samba acontecendo e o carnaval crescendo. Mas o nosso precisa de muita coisa ainda. Só consigo ver promessas, promessas, promessas. Temos que ter oficinas pra aprendermos a reciclar, pra termos bom aproveitamento de material... Isso é apenas uma das coisas que é preciso fazer para o carnaval capixaba crescer. Temos grandes talentos, mas não temos estruturas para melhorar.
Qual o desfile que mais te marcou?
Gostei muito deste ano. Eu interagi muito com o público. Até falei pra mim mesma, não importa a classificação da escola, mas estou contente por ser Imperatriz. Mas teve uma época que eu ainda não era Madrinha da Bateria que também gostei muito, foi quando a escola homenageou o Saldanha da Gama e ficou em terceiro lugar. Fiquei muito feliz com aquele desfile.
E a labareda da vaidade, como administra?
Eu acho que sou muito acessível. Se a pessoa for atenciosa comigo, chegou, falou comigo, eu estou sempre disponível. Não dou confiança pra quem tem orgulho. Não faço parte de um mundinho de quem está preocupada com outras rainhas e madrinhas. Faço tudo de acordo como eu posso. Vivo da minha arte e tenho muito orgulho disso. Essa briga de rainha com madrinha eu não gosto e não quero passar por isto. De que adianta pro seu ego quando você gasta horrores numa fantasia, enquanto dentro de uma comunidade sabemos que temos crianças passando fome? Se o carnaval é a melhor coisa da minha vida, não posso fazer disso um inferno, porque o inferno somos nós que criamos. Mas ainda assim a gente sempre passa por alguns pedaços. A Claudia Raia tem uma frase que eu gosto muito, que é: “eu não sou feia nem bonita, mas dependendo do ângulo eu sou muito interessante”.
Você deixaria a sua Escola para ser Madinha em outra agremiação?
Não. Não porque Madrinha de Bateria de escola é igual ser madrinha de filho de alguém. É uma coisa que tem que ter realmente empatia mesmo. Isso não é dinheiro... O samba não bota comida no seu prato, o samba é amor. Acho que se um dia eu cansar de ser Madrinha da Imperatriz ou alguém chegar pra mim e falar que não me querem mais na frente da bateria, eu vou participar de outra forma dentro da escola. Mas ser Madrinha de outra escola jamais. Posso ser destaque de outra escola, desfilar numa ala, num carro... Mas a bateria é algo muito especial, é o coração da escola. Quando você pega intimidade com aqueles ritmistas, com aquela comunidade, é tudo de bom na vida, eu chego ficar arrepiada em falar. Já me fizeram esta pergunta, e eu respondi que seria medíocre, até porque eu não dependo do carnaval pra estar na mídia. O carnaval não é pra eu estar aparecendo nos jornais. O carnaval pra mim é o amor que eu tenho, é o momento... Se eu ficar velhinha e eles ainda me quiserem eu vou adorar (risos). Uma vez me falaram que Madrinha tinha que bancar a escola, ai eu respondi: Olha não foi por isso que me convidaram. Quando entrei foi por outro motivo, e se um dia eu tiver que sair vou sair e não vou ser Madrinha de outra escola.
Atriz, maquiadora, bailarina e designer em moda... Já pensou ou recebeu algum convite pra ser carnavalesca?
Já me falaram que eu tinha que ser presidente da escola, eu respondi: Deus me livre! Mas ser carnavalesca, quem sabe no futuro... Até porque é uma área que eu gosto muito. Gosto da criação, gosto de ver a coisa surgir da imaginação. Mas agora está muito cedo para isso. Ser madrinha e carnavalesca não dá pra administrar ainda.
Projetos para dois mil e dez quais são?
Estamos querendo colocar em cartaz o “Por favor, mate minha empregada III”. Agora é pra matar mesmo. Queremos acabar com ela de uma vez. Com a companhia de dança estamos fazendo “Fedra”, onde eu faço o papel principal do espetáculo. Tenho as coleções onde eu gosto de fazer duas por ano, verão e inverno. Estou adorando trabalhar como produtora do “Casa Aberta”, e pretendo continuar. Estou gostando desta idéia de unir moda com arte. Pretendo fazer a quinta do chá, pra reunir às senhoras as quintas-feiras a tarde. E a Imperatriz que é minha paixão e pretendo continuar lá fazendo o que eu posso pela minha escola.
Nos deixe uma mensagem:
Vou mandar uma frase da Cecília Meireles que eu gosto muito:
“Não tenho tempo pra mais nada, ser feliz já me consome muito”
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Stael Magescki Madrinha de Bateria da Imperatriz do Forte


Os seus "filhinhos" Bebe e Bibi


Stael Magescki Madrinha de Bateria da Imperatriz do Forte


 


 

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