ENTREVISTA COM O CARNAVALESCO ALEX SANTIAGO

Ficha Técnica

“NUMA FOLHA QUALQUER.
EU DESENHO UM SOL AMARELO
E COM CINCO OU SEIS RETAS
É FÁCIL FAZER UM CASTELO...
CORRO O LÁPIS EM TORNO
DA MÃO E ME DOU UMA LUVA
E SE FAÇO CHOVER
COM DOIS RISCOS
TENHO UM GUARDA CHUVA...”

“E O FUTURO É UMA ASTRONAVE
QUE TENTAMOS PILOTAR
NÃO TEM TEMPO, NEM PIEDADE...
NEM TEM HORA DE CHEGAR
SEM PEDIR LICENÇA
MUDA NOSSA VIDA
E DEPOIS CONVIDA
A RIR OU CHORAR...”

Aquarela (Toquinho/Vinicius de Moraes)

Agora vamos falar de um carnavalesco muito precoce. Aos seis anos de idade fez seu primeiro desenho e estava tão perfeito que sua mãe não acreditou. Achou que ele estava mentindo e lhe deu uma surra como boa nordestina que é, e ainda por cima o obrigou a fazer o mesmo desenho ao lado dela. E ele fez. Daí comprou um caderno e ele acabou o desenho naquele dia. Depois veio outro, outro e outro... Não parou mais.

Quando ele nos foi apresentado para assinar o carnaval da Piedade, juro a vocês que fiquei assustada pela sua falta de experiência no mundo do samba capixaba. Depois foi mostrando seus desenhos e o que ele poderia fazer a partir da setorização do enredo mostrado. Logo sentimos que ele daria trabalho. E deu mesmo, até ganhou o prêmio “FAISÃO DE OURO” de melhor carnavalesco.

Faço público meu agradecimento a este menino. Quando me olhou e disse que tinha desenhado uma ala em minha homenagem. Foi à ala do “pente quente”, e eu seria a “nega maluca e chique”. Não entendi muito bem (RISOS), mas amei. Foi o meu melhor momento de desfile em toda a minha vida de samba. Agora imaginem vocês como ficou a labareda da minha vaidade...

Este “cabra da peste” se chama Alex Santiago Duarte Leite da Silva. Nasceu na região do agreste pernambucano, no dia dezesseis de maio, na cidade de Pesqueira, próximo a Caetés, cidade do presidente do nosso país...

Estudante de educação física pela Universidade Federal do Espírito Santo e de arquitetura e urbanismo pela faculdade Nacional, o Alex é muito tranqüilo, talvez porque ainda não adquiriu os “vícios”, no bom sentido, de um carnavalesco mais experiente.

Agora recebeu proposta do GRES Pega no Samba para fazer o carnaval dois mil e dez e se diz muito entusiasmado com o novo desafio.

“DAS TREVAS À LUZ DO CONHECIMENTO – A ARTE DE EDUCAR”. Este é o titulo do enredo 2010 de autoria do Alex Santiago que a Pega no Samba vai mostrar na avenida.


Como começou no samba?

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Em Pernambuco tem um universo cultural muito forte. Tem escolas de samba, tem blocos, tem artes... Comecei a desenhar nas paredes do meu quarto. Minha tia viveu no convento de São Francisco e eu tive educação religiosa. Nos projetos sociais eu aprendi com os padres muita coisa, inclusive trabalhar com imagens sacras, vitrais etc. Com nove anos, uma escola de lá tinha uma madrinha mirim e precisava de um costeiro. Ai eu desenhei e eles gostaram. Foi assim que cheguei ao samba. Acho que foi meu primeiro trabalho como carnavalesco (risos). Fiz muitas coisas para os blocos da minha cidade também, eles gostavam dos meus desenhos.
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E em Vitória quando chegou?

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Na verdade eu cheguei primeiro em Santa Teresa. Casei-me, e depois vim para Vitória fazer arquitetura, que sempre foi meu sonho. Trabalhei em São Roque do Canaã como mobilizador cultural, e o município ganhou o prêmio da Unicef. Já em Vitória trabalhei como assistente do carnavalesco Osvaldo na Imperatriz do Forte e ficamos em segundo lugar do Grupo de Acesso, perdendo para a Mocidade Unida da Glória. Depois assinei como carnavalesco pela primeira vez na Unidos da Piedade.

E a vaidade que o mundo do samba carrega, o que acha disso?
Eu lido bem com isso, acho que minha calma é um ponto positivo. Eu acabo não falando o que deveria. Às vezes sofro com isso, mas aprendi que dessa forma eu consigo muito mais o que eu quero. Nunca faço um pré-conceito do ser humano antes de conhecê-lo.
Como foi fazer um carnaval pela primeira vez numa escola de tradição como a Piedade, mas que vinha com uma carga de problemas e dificuldades tanto com a autoestima quanto financeiros?
Quando cheguei na Piedade já encontrei o enredo pronto e uma equipe formada, e gostei muito. Contei com a experiência das pessoas. Hoje vejo o carnaval com outros olhos, adquiri um amadurecimento profissional. E o enredo ajudou muito no desenvolvimento do meu trabalho.
Se você fosse presidente qual seria sua prioridade numa agremiação?
Na realidade o presidente e carnavalesco são os mais visados dentro de uma escola de samba. O papel principal do presidente é articular, ele tem que saber vender seu peixe, correr atrás, ser firme nas decisões e dar a palavra final. Nunca ter medo.
Que tipo de enredo você prefere fazer? Com qual tema você se indentifica mais?
Não tenho afinidade com enredos místicos, afros... Claro, se preciso for farei da melhor maneira possível, mas não é muito minha praia. Prefiro enredos mais modernos, mais futuristas, mais lúdicos... Gosto de trabalhar com aquilo que não se vê. A Rua Sete fluiu bem porque nós colocamos na avenida o lado moderno e emotivo de cada época que a rua vivenciou, como Madame Prado, Diário da Rua Sete, jóias, folheados e até o pente quente, que hoje é chapinha, escova progressiva etc... Adorei trabalhar este enredo na avenida. Gosto também de enredos históricos.
Qual a maior dificuldade que você encontra dentro do barracão de escola de samba?
A falta de recursos... A gente sonha e não podemos tornar este sonho realidade. Seria muito bom se a iniciativa privada olhasse o nosso carnaval com mais carinho. A falta de profissionalismo atrapalha muito também. Sem contar com o fator desaparecimento de mercadoria, que ninguém sabe pra onde vai.
Você está assumindo uma nova agremiação que é a Pega no Samba. Enfim, quais seus projetos, o enredo é seu ou não?
Sim, já fechei com a Neuzinha. A princípio eu não gostei da proposta de enredo que me foi apresentado. Então eu pesquisei e estou fazendo um novo. Acabei vendo a educação com novo contexto. O enredo não é adaptação da “Amigos da Gurigica” como já foi colocado, é um enredo novo.
Como você mesmo disse, na Piedade quando chegou já tinha uma equipe formada, e agora como está sendo seu trabalho?
Estou contando com algumas pessoas que me ajudaram, porque ninguém faz nada sozinho. Alguns professores da história da arte estão comigo também. Depois que eu coloquei comissão de frente e carro alegórico no papel, eu fechei tudo.
Reza a lenda que a Pega no Samba lhe ofereceu cobrir qualquer proposta que lhe propuserem, inclusive a cobertura total de sua faculdade. É verdade?
Não é verdade. Na realidade, eu recebi proposta também da “Rosas de Ouro”. Mas eu gostei da postura da Neuzinha, a achei muito objetiva e decidida. Mostrou-me que a escola vai se estruturar com toda uma logística de apoio. Senti muita confiança. E o tema mexeu comigo.


Carnavalesco Alex Santiago e Iamara


Neuzinha do Pega, Alex Santiago e Iamara Nascimento

 

 


 

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