ENTREVISTA COM O WEMERSON TORRES - DIRETOR DE COMUNICAÇÃO DA MUG

Ficha Técnica

"NÃO PORÍAMOS A MÃO NO FOGO PELAS NOSSAS OPINIÕES: NÃO TEMOS ASSIM TANTA CERTEZA DELAS. MAS TALVEZ NOS DEIXEMOS QUEIMAR PARA PODERMOS TER E MUDAR AS NOSSAS OPINIÕES"
(Friedrich Nietzsche – filósofo alemão)

"PRECISAMOS DE ALGUÉM QUE PENSE QUE ESTAMOS ERRADOS PARA CRESCERMOS EM NOSSAS OPINIÕES"

Hoje a conversa é com um mineiro de Resplendor–MG, que veio do Vale do Rio Doce para a nossa terra ainda criança. Wemerson Torres nasceu no dia seis de março, mesmo dia do Michelangelo, que foi um grande exemplo da arte renascentista italiana e ao mesmo tempo o maior rival do Leonardo da Vinci. Ele é funcionário público da Prefeitura de Vila Velha. Professor, profissão esta que se orgulha muito. Foi criado pela sua mãe que se separou do seu pai quando era muito pequeno.

Este rapaz bonito e educado às vezes é mal interpretado por não ter medo de fazer colocações que vão contra a maioria dos demais. Tem opiniões próprias e acredita nelas. Fez comentários sobre a administração do Carnaval Capixaba, dizendo que a Mocidade não desceria para o Grupo de Acesso em 2007 se a Liga tivesse estrutura. Sendo que alguns sambistas defendem a mesma dizendo que, as escolas não devem deixar acontecer incidentes como tal.

Quando colocou em um de seus textos na Coluna Interativa do Site Viva Samba que a Unidos de Barreiros poderia brigar junto com a Andaraí e Novo Império, e, a mesma quase foi vice-campeã do carnaval dois mil e nove e ficaria à frente de sua escola de coração, sendo que as outras duas não ficaram bem posicionadas, foi muito criticado.

Mas também foi muito elogiado quando fez um texto defendendo a democratização nas escolas e escolha de enredos. A Equipe Viva Samba bateu um papo com este jovem, que é apaixonado pela Mocidade Unida da Glória e que defende sua bandeira com toda força e garra que todo bom muguiano tem.


Como chegou ao mundo do samba?

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Foi por acaso. Quando viemos de Minas Gerais, minha mãe veio morar na casa de minha avó, na Glória. Estudei no Polivalente da Glória, e às vezes, matava aulas para ficar brincando na MUG, subindo e descendo dos carros alegóricos. E assim comecei a me interessar pelo carnaval. Mas depois me mudei da Glória, e a MUG, como todos sabem, ficou anos parada. Em dois mil e cinco retornei a freqüentar a escola. Em dois mil e seis desfilei em carro alegórico. Neste mesmo ano, fui convidado a participar da Diretoria de Comunicação. Em dois mil e sete Robertinho e Slim, me convidaram para ser Diretor de Comunicação, juntamente com a Débora Sathler, e lá estou até hoje e pretendo ficar por um bom tempo. Atualmente moro no Bairro Cobilândia, mas sempre estou na MUG, local onde fiz muitos amigos... Mas também tenho opositores. Mas, faz parte da vida, como dizia Nelson Rodrigues “Toda unanimidade é burra”.
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O que te marcou nestes anos de samba?

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Eu acho que nesses anos de samba nada me marcou mais que o desfile da MUG de dois mil e sete. Foi um ano em que vimos o título escapar e nos sentimos impotentes para fazer o que quer que seja. Aquele ano não existiu para os muguianos. Nunca vi um desfile tão lindo de uma hora para outra se tornar num pesadelo. Mas, fiquei revoltado com a nossa LIGA, só de pensar que um pouco mais de organização tinha evitado que descêssemos ao Grupo de Acesso. Não havia guincho disponível para retirar o carro, e mesmo assim a Liga nos puniu, como se a culpa pela falta de estrutura não fosse dela também. O carro demorou muito a ser retirado, sei disso, mas se o guincho estivesse posicionado em seu lugar, tiraríamos o carro com 10 minutos. Não ganharíamos o título, porém não desceríamos para o Grupo de Acesso. Lembro como se fosse hoje do Robertinho entrando embaixo do carro, enquanto nós empurrávamos o carro para frente e para trás, na esperança de que ele se movimentasse na direção certa. Isso me marcou profundamente...
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O que você já fez no carnaval, que funções, que atividades, qual sua participação na prática, além de folião e escritor?
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Bom, o que me dá mais prazer é estar sempre participando na minha escola. Se eu deixar de ser Diretor de Comunicação, não tem problema, vou fazer outra coisa. Mas, de lá eu não saio... (risos). Já saí no carro no ano do café. Fui destaque central do Pega no Samba, no ano de dois mil e oito. Saí na São Torquato em dois mil e nove, como composição de carro. E sempre fui comentarista nos sites. Comecei escrevendo no site carnavalcapixaba.com, do meu grande amigo, quase irmão, Lucas Monteiro. Também escrevo enredos, mas sempre deixo de entregá-los na esperança de que eu possa entregar na MUG, mas nunca tinha oportunidade. Este ano estou concorrendo na MUG, vamos ver, estou esperando o resultado do concurso. Também já produzi um espetáculo de dança numa escola em que eu trabalhava. Mesclei teatro e música encenando “De passo a passo, faço os passos até Anchieta”, enredo da MUG campeão de dois mil e três. Foi muito legal. Sempre que posso incluo a cultura do samba nas minhas aulas...
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O que você mudaria numa escola de samba?

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A relação com os profissionais. Se existe uma diretoria séria numa escola, ela deve ser ouvida, sempre. É claro que a palavra final é do presidente da escola. Na MUG, o presidente Robertinho sempre consulta todos a respeito dos assuntos da escola. Temos reuniões semanais e ele participa os setores da escola e isso é muito importante para garantir a unidade da escola. Todos têm de ser ouvidos, todos devem se expressar. Algumas pessoas não entendem isso. Ouvir as pessoas não quer dizer que se vai fazer o que elas propõem, mas demonstra respeito com os participantes. Uma escola não se faz com meia dúzia decidindo. Até é melhor de se controlar as verbas se todos tem noção do que ocorre na escola. É mais fácil fazer coisas ilícitas, se só você e mais umas três pessoas estão por dentro de tudo. Acho que isso é algo que a MUG poderias repassar as outras escolas, pois lá todos sabemos o que é comprado e aonde vai o dinheiro que a escola arrecada, caso contrário eu não estaria lá, não sou conivente com maracutaias.
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Você é Diretor da MUG e já passou por outras escolas também, como que é lidar com a fogueira de vaidades que nós sabemos que não é pequena?

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Não é fácil realmente. Sempre que você vai muito em algumas escolas as pessoas já começam a te olhar estranho, fazer perguntas, querer saber o porquê de tantas visitas e etc. E na sua escola não é diferente. Quando saí de destaque no Pega, já era Diretor de Comunicação da MUG, aí tive de escutar algumas piadinhas, do tipo... “Fica gastando dinheiro em outra escola, ao invés de gastar na sua escola”. Mas, não ligo muito para esse tipo de comentário fútil. Até porque o dinheiro é meu e eu gasto onde eu quiser.
Em outra oportunidade aconteceu algo semelhante. O Sury, carnavalesco de São Torquato é muito meu amigo, tive uma grande contribuição no retorno dele para a MUG, então eu fui algumas vezes ajudá-lo na São Torquato no ano passado. Não vejo nada de errado nisso, mas algumas pessoas te olham com o nariz torcido quando você freqüenta muito ou ajuda outra escola. Isso é infantilidade. Uma pessoa muito querida na MUG, Edilene, coordenadora da ala dos passistas, disse-me uma coisa que eu nunca esqueci “Existe uma escola que é a sua escola de raiz”. A minha escola de raiz é a MUG, e isso não significa que um dia, eu não possa estar ajudando ou trabalhando em outra. Isso engrandece o carnaval.
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Quem você gostaria de ver desfilando na sua escola?

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Eu acho que não é “quem”, mas o meu sonho maior é “o que” eu gostaria de ver desfilando na MUG. Gostaria que um dia a MUG, e não só ela, mas todas as escolas, fizessem um desfile mais irreverente, inteligente, descontraído, sem se preocupar com o título, mas que deixassem esse, vir como uma conseqüência da felicidade do folião. Conseqüência de um desfile bem feito. Estive conversando com um Folclorista Capixaba e ele me disse que há muito tempo que o carnaval do Rio não é mais tido como Folclore, ou seja, algo que emane das massas, do povo. Hoje é algo comercial. O desfile do Rio hoje é como um comercial de TV, em horário nobre. O importante é mostrar a marca do patrocinador, mesmo que de forma implícita. Isso é muito triste de se ouvir. Então, prefiro ver um carnaval mediano mais irreverente e inteligente do que um grande carnaval, como o do Rio e de São Paulo, com um grande fundo comercial. Aliás, o nosso neste ano foi pior do que o de SP e RJ neste quesito, quando deixaram que se colocassem até Banners de patrocinadores no fundo do último carro. Isso foi o fim. Sei que as escolas precisam de dinheiro, mas há outros meios. Temos que ter bom senso na hora de tomar certas decisões.
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O ano de dois mil e nove toda a mídia de samba apostou que seria o ano da MUG, isso não aconteceu? Por que?

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Olha, não se pode acreditar muito na mídia, pois eles só enxergam as escolas de samba no mês do desfile. Como a mídia pode falar isso, se eles não acompanham o desenrolar do carnaval? Sou um pesquisador do Carnaval, não sou um folião entusiasmado. Quando os desfiles de sexta acabaram, eu sabia que a Jucutuquara precisaria errar muito para que a MUG pudesse ser campeã, pois as outras já erram sempre. Erramos em alguns quesitos, no desfile e antes dele. Os erros cometidos antes foram debatidos e corrigidos e os da hora do desfile são fatalidades, muitas vezes decorrentes de erros anteriores que aconteceram no desenrolar dos trabalhos. Eu nunca enxergo ninguém como favorito, até porque tudo pode acontecer na hora da avenida, é lá que as coisas se decidem em nível de MUG e Jucutuquara. As duas sempre têm as mesmas chances. Dizer que o ano de dois mil e nove era o da MUG, equivale a dizer, então, que o ano de dois mil e dez será o ano de Jucutuquara. Isso não existe. Nós vamos pra cima deles, como de costume, quem sabe não será o “nosso ano!” Eu acredito na minha escola.
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A MUG abriu concurso para enredo, você acha que isso pode ser o início de uma democracia, já que você comentou sobre o assunto em um dos seus artigos neste site? Você fez algum enredo?

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Sim, escrevi um enredo no concurso. Não vou dizer o tema, até porque como achei que ficou muito legal, vou reapresentá-lo em outra escola, caso eu não seja contemplado. Mas, meu maior sonho é ver minha escola desfilando o meu enredo. “Meu” por enquanto, pois depois de escolhido (se for), ele passa a ser da escola.
A MUG é uma escola democrática. Algumas pessoas até falam que Robertinho é até democrático demais. Eu não acho isso. O Robertinho é uma pessoa muito sensível às questões da escola e muito disposto. Muitas pessoas me cumprimentaram pelo intento, mas devo essa conquista a Robertinho. Ele foi o responsável pelo concurso. Eu já vinha conversando com ele há uns dois anos sobre o quanto isso (o concurso) seria bom pra escola. Só que eu propus algo um pouco diferente. Na minha concepção, nós faríamos algo diferente. Faríamos como fez sabiamente a Unidos de Jucutuquara há alguns anos. A escola define um tema, por exemplo: Lendas Capixabas. E os enredistas desenvolveriam os enredos sobre esses temas e a escola escolheria o melhor. Dessa forma não se tira a autonomia da escola sobre a escolha do tema. Propus que se fizesse esse tipo de concurso no ano passado, com a história de Zacimba Gaba. Mas, se a escola deu liberdade de todos proporem temas, também achei legal. O importante é garantir a democracia, a participação de todos.
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O que você acha dos caminhos que o carnaval capixaba tem tomado?

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Olha, temos de ter muito cuidado. As escolas pequenas não estão crescendo e isso é perigoso. As prefeituras tinham que doar terrenos para que as escolas construíssem pelo menos suas alegorias. Não precisa ser no bairro da escola, mas tem de ser um local onde se possam construir os carros e fazer um barracão de fantasias.
Outra coisa horrível foi o que eu li em algum lugar, não me lembro onde, mas acho que foi no Jornal A Gazeta, que as escolas do Grupo de Acesso estão correndo o risco de desfilarem em outro Município, como assim? Acho que todas as escolas, dos dois grupos devem desfilar no Sambão do Povo. O acesso deveria ser na data do Carnaval Oficial, com ingressos a R$ 2,00. Afinal de contas, a estrutura já vai estar lá, não se gastaria nada por isso.
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Você tem algum projeto para o carnaval de dois mil e dez?

Sim. Quero sair novamente como destaque. Mas, por enquanto ainda é um plano. Como faço minha própria fantasia, isso me toma muito tempo. Tenho que amadurecer bem a idéia.
Nos deixe uma mensagem

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Acho que a mensagem mais proveitosa que posso deixar para as pessoas é que nunca se deixe enganar. Existem muitos “lobos em peles de carneiro” no nosso samba. Precisamos fazer valer nossa opinião sempre com muito respeito as pessoas e às escolas, principalmente.
Muitas vezes sei que minhas idéias não serão aceitas na minha escola ou em qualquer outra, mas, mesmo assim, não me furto o direito de falar. Ao menos saberão minha opinião, mesmo que não seja aceita. Esse é meu jeito, que sei que às vezes me causa problemas, mas até hoje não consegui mudar. Por exemplo, acho que todos os eventos ligados ao Samba devem ser feitos no Sambão, ou em quadras de escolas, tais como, sorteios da ordem dos desfiles, lançamento do CD, apuração. Isso vai valorizando a Casa do Samba Capixaba, o Sambão do Povo; e as quadras. Agora, por que no Álvares Cabral? Eles estão ajudando nossas escolas em que? Bom. É o que eu penso.

Forte abraço a todos e torçam por suas escolas, mas não “destorçam” para as outras! Freqüentem as quadras!
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