ENTREVISTA COM PAULO BALBINO E ELISA COELHO

Ficha Técnica

“DEBULHAR O TRIGO
RECOLHER CADA BAGO DO TRIGO
FORJAR NO TRIGO O MILAGRE DO PÃO
E SE FARTAR DE PÃO...”
(Cio da Terra - Chico Buarque e Milton Nascimento)

Hoje venho aqui falar de mais uma dupla que dá certo. Para muita gente esta dupla não existe, porque a metade dela prefere ficar nos bastidores, mas é de extrema importância para a obra ser concluída. Uma vez quando o Paulo Balbino estava recebendo um dos seus vários prêmios do Carnaval Capixaba, ele agradeceu a sua esposa Elisa, ai alguém falou que ninguém nunca via esta esposa, um amigo meu respondeu: "Ela é que nem nossa Senhora de Fátima, só aparece para três criancinhas, que são elas: Iamara, Arion e Tadeu". (rsrsrs)

Elisa Nunes Coelho, professora de artes e balet, (não sei o que seria dela se não existisse a dança), formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mãe da Karollyne, nasceu na cidade de Guarapari no 27 de novembro, dia que eu vou lá tomar café com bolo e fofocar como sempre (rsrsrs). Com os ensaios da comissão de frente nos tornaram grandes amigas. Ela é peça chave para que esta comissão saia perfeita. O Paulo faz a coreografia e ela se responsabiliza pelos ensaios, e que ensaios... Sempre muito precisa, dedicada e uma paciência que só ela tem, cuida da roupagem não só da primeira ala, mas está sempre verificando se tudo está certo dentro do barracão.

Paulo Roberto Balbino, professor de educação física e também formado pela UFES, personal trainer, bailarino, coreógrafo e carnavalesco, nascido no dia 21 de junho na cidade de Rio Novo do Sul. O Paulo fazia carnaval em Guarapari quando o Mauro Pinto da Unidos da Piedade o trouxe para Vitória, onde se consagrou com a sua maneira irreverente de fazer carnaval.

Amado por uns e criticados por outros, onde o acusam de deixar a comunidade de fora do carnaval, sem direito de subir nos carros, confeccionar suas próprias fantasias... Enfim, sempre o estão acusando de tirar o povo da posição de destaque nas escolas, e por onde ele passa não deixa lastro, ou seja, não deixa trabalho feito. Mas estas mesmas escolas sempre têm pelo menos um prêmio ganho no nosso carnaval graças ao trabalho do Paulo. Em 2004 a comissão de frente da Piedade ganhou todos os prêmios, em 2006 a Barreiros além de ganhar o título do Grupo de Acesso, papou também dez, dos nove prêmios oferecidos pelo Jornal "A Tribuna", só ficando para trás mestre sala e porta bandeira. Em 2007 e 2008, a Andaraí conseguiu dois vice-campeonatos inéditos na sua história.

Algumas pessoas falam que ele é polêmico, mas ele afirma que gosta das coisas certas e concluídas com responsabilidade. Hoje está assumindo novamente a Andaraí e garante que vai vir para a briga, pois está reestruturando a escola com uma Diretoria renovada, e também vai se aprimorar muito nos carros alegóricos, já que para alguns críticos dizem que ele não sabe fazer carros. Agora é a vez dele mostrar que sabe e muito bem, pois a Andaraí estará investindo e dando condições para isso. Nós da equipe Viva Samba estávamos num delicioso café com bolo, que é sempre servido na casa deles toda tarde, e aproveitamos para fazer umas perguntinhas básicas (rsrsrs).


Como vocês chegaram ao mundo do samba?

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Na verdade não gostava de carnaval, não sou folião, sempre corria léguas, mas admirava a arte de fazer carnaval. Quando conheci a Elisa, começamos a trabalhar juntos na dança e ela me convidou a desfilar, no ano seguinte me tornei carnavalesco de uma escola em Guarapari. Numa dessas idas ao Rio para fazer compras fui abordado por um assistente do Joãozinho Trinta e convidado para desfilar na Beija-Flor. Desfilei como composição de carro, depois semi-destaque. Quando o Milton Cunha veio para a Beija-Flor eu passei a ser destaque. Nesse meio tempo o Laíla sabendo que eu era bailarino, me convidou para fazer parte da trupe que viajaria para a Suíça, foi quando eu passei muito tempo dentro dos barracões e quadra ensaiando o show, e pude viver a realidade de se fazer carnaval. Depois dessa viagem a minha vida mudou, a Comissão de Carnaval da Beija-Flor me passou para destaque do carro Abre alas. A Fabíola esposa do Anísio vinha no 1A e eu no 1B.
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Sou foliã de berço, filha de porta estandarte e uma das fundadoras da escola de samba Mocidade Alegre de Olaria em Guarapari, onde desfilo a vinte e nove anos, alguns desses como Madrinha de Bateria.
Paulo como você começou como carnavalesco?

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Eu e a Elisa produzimos alguns espetáculos de dança e decoração de aniversários e casamentos em Guarapari, as pessoas vendo que eu tinha noção de figurino e cenografia, me convidaram a ser carnavalesco.
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Elisa como é ser casada com carnavalesco?
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É conviver num mundo de fantasia durante todo o ano, uma overdose que as vezes me cansa, porém é indefinível a explosão de emoção quando vejo todas as idéias tomarem formas na avenida.
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Sabemos que o mundo do samba é uma fogueira de vaidades, como vocês lidam com isso?

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É muito difícil, todos nós temos um mínimo de vaidade. Alguns imitam o pavão, mas todo carnavalesco tem que trabalhar com sua vaidade e a dos seus componentes. Então só usando de algumas estratégias, uma saída pela tangente, se fazer de morto e um bom jogo de cintura, ainda bem que somos bailarinos.
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Acho que vaidade faz parte do mundo artístico, uma vez que buscamos o belo, é só tomarmos cuidado para não se perder neste universo.
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O que foi mais marcante na vida de vocês durante todo este tempo de carnaval?

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Foi a primeira vez que entrei na quadra da Beija-Flor, e ouvi a bateria do mestre Paulinho, aquilo me arrepiou, depois do alto do carro alegórico, viver a emoção da queima dos fogos na entrada da Marquês de Sapucaí, não tenho como expressar minha emoção.
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Foi ser integrante de um show maravilhoso que a Beija-flor apresentou em Zurich na Suíça e ver mais de vinte mil pessoas aplaudindo a arte do meu país.
Qual o enredo que você mais gostou de ter desenvolvido?

“Sou terra, fogo, água e ar, cinqüenta anos de história, sou Piedade sou estrela vou brilhar”, com todas as dificuldades possíveis e imagináveis.
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Não desenvolvo enredo, isso cabe ao carnavalesco, participo com ele desde o embrião, ou seja, a sua idéia ainda em formação até a Escola ir para a avenida. Mas a menina dos meus olhos foi à comissão de frente da Andaraí de 2008 (odaliscas).
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Tradicionalmente as escolas de sambas nasceram nas comunidades, como vocês envolvem estas comunidades a participarem deste evento?

Nos vinhemos de Guarapari, mas nosso ateliê continua lá, e na época que fazíamos o carnaval da Mocidade de Olaria, a gente formou um time de aderecistas maravilhoso, que eram do bairro e hoje continuam trabalhando conosco e são responsáveis por tudo que sai de nossas cabeças, sinto muito orgulho disso. Nesse ano de dois mil e nove na Barreiros, distribuímos protótipos para serem confeccionados na comunidade e o trabalho foi excelente, continuarei com este trabalho na Andaraí, mas confesso que sou muito chato com acabamentos. Quem sabe para o carnaval de dois mil e dez eu consiga trazer a comunidade para meu socorro.
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Faço minhas as palavras do Paulo.
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Se vocês fossem presidente de uma agremiação o que mudariam?

Cada pessoa líder tem uma forma de administrar, e eu tenho a minha, mas acho que o que falta na maioria das Escolas de Vitória é organização, planejamento, organograma, planilha de custos compatíveis com a sua realidade. Um trabalho realizado com a participação da comunidade para que juntos lutássemos com um objetivo maior.
Jamais seria presidente, prefiro ficar com a parte artística.
Qual a maior dificuldade que vocês encontram num barracão de Escola de Samba?

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Sempre trabalhei com escolas muito carentes, sem quadra e sem estrutura nenhuma, e o grande desafio é fazer carnaval com pouca grana, ou quase nenhuma. Quando fico sabendo dos valores que a MUG e Jucutuquara gastam, fico imaginando se eu tivesse um terço... Quanta coisa a mais eu poderia fazer? Porque tenho muitas idéias, mas chega um momento que não consigo mais voar, é como se chumbasse meus pés no chão, sinto que meus sonhos, meus projetos ainda não foram para a avenida, mas estou lutando para mudar isso e já consegui muita coisa com pouco dinheiro.
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Penso que seja o material humano, uma vez que até mesmo remunerado, sentimos uma dificuldade na mão de obra especializada, ou seja, bons aderecistas que primam por um bom acabamento.
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Qual a experiência que vocês adquiriram nas agremiações que vocês passaram?

Ah cada Escola tem suas particularidades, seus desafios, suas dificuldades... E acho que a gente cresce muito nesses momentos, são valores que aprendemos por toda uma vida. Eu sou uma esponja, absorvo muito, muito mesmo.
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Aprendi que se não houver “afinação” da orquestra que rege uma agremiação, ela jamais será digna de aplausos. X
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Paulo, nos fale sobre o seu retorno para a Andaraí, o enredo já esta pronto?

Veja bem, tem muita gente que me critica pelo fato de estar sempre saindo de uma escola para outra, mas como falei no início a falta de organização e de palavra me incomoda muito. Se eu cumprir minha parte e você a sua não temos problemas. Quando isso não acontece prefiro me retirar, que partir para a briga. Quando as coisas são postas à prova e chegam à conclusão do meu real valor na escola, me coloco aberto à negociações. Nunca fechei as portas por onde passei, na intenção de voltar e ser bem recebido, como tem acontecido.
Quais são os Projetos para 2010?

Nossa! São muitas idéias! Estou estudando muito este projeto e se Deus me permitir e a Andaraí me possibilitar quero mostrar que “O PÃO NOSSO DE CADA POVO” foi responsável pela construção e mutação tecnológica, cultural, política e social, econômica e psicológica, e que é tão importante para a humanidade, para a vida, como a argamassa é para a construção e a medula é para os mortais. Vou mostrar a minha concepção, fazer a minha leitura, e deixar a cargo dos jurados a condição de avaliar o meu trabalho.
Continuar o trabalho que venho realizando com a comissão de frente, controle de qualidade das fantasias que ficam sob nossa responsabilidade, e ajudar o máximo possível para que as idéias saiam de nossas cabeças e se materializem na avenida.
Nos deixem uma mensagem:

"Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz" (Gonzaguinha).
Não tente nunca podar as asas de um artista, você não conseguirá, embarque no seu vôo e o alcançará. Voar... É ser feliz... Ser feliz é voar...

 


Elisa Coelho e Paulo Balbino

 

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