ENTREVISTA COM A PORTA-BANDEIRA ANDRESSA LEAL
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Técnica |
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"E DEUS CRIOU O MUNDO... E TAMBEM O MUNDO DO SAMBA CAPIXABA... E NESTE MUNDO ELE INCLUIU UMA NEGRA METIDA A INTELECTUAL E UMA BRANCA METIDA A PORTA BANDEIRA... E DEUS ESCREVE CERTO EM LINHAS TORTAS..."
A equipe Viva Samba tem a honra de prestar esta homenagem aquela que já nasceu dizendo: "Eu sou Porta Bandeira e pronto!" Andressa Leal Santos, filha do saudoso Sinvaldo Moreira Santos (Siri), pessoa esta que fez muito pelo nosso carnaval e que já não se encontra mais entre nós, e Rosa Maria Leal Santos, que continua fazendo há mais de trinta anos a roupa do Rei Momo Capixaba. Andressa nasceu no dia dezesseis de janeiro, acho que foi neste dia que ela fez sua primeira apresentação para o público presente. Ela já passou pela Pega no Samba e Novo Império, mas a Unidos de Jucutuquara mora no seu coração. Assim como seus pais, sua história já está tatuada no mundo do samba. Todos os prêmios do carnaval capixaba ela já recebeu. Notas máximas ninguém tem mais do que ela. Já foi convidada para desfilar em escolas do Rio de Janeiro, nunca aceitou porque o nosso carnaval está acima de tudo. Ela que tem luz própria, nunca deu importância às críticas e preconceitos que não foram poucos, sabem por quê? Ela nasceu para ser Porta Bandeira e ponto final. Neste
ano de dois mil e nove ela completa vinte e cinco anos de avenida
e entrega o pavilhão com todo o glamour, elegância e
competência que ela sempre tem. Não pensem vocês
que o carnaval acabou para ela. A Andressa simplesmente deixa de ser
Porta Bandeira, porque quer trilhar novos rumos na sua vida. |
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Como
começou no mundo do samba? |
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x Nasci no berço do samba (com muito orgulho), e iniciei minha carreira como Porta-Estandarte na Unidos de Jucutuquara aos nove anos – quando a agremiação ainda era Bloco Carnavalesco, em virtude da saída da Neuza Maria Alves. x |
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Porque
você escolheu ser Porta-Bandeira? |
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X Dada as circunstâncias de que a Neuza havia deixado o Bloco às vésperas do desfile, fui convidada pelo Mestre-sala Maurinho, a enfrentar este desafio, e desde então nunca mais saí! Tenho muito orgulho em dizer que aprendi a dar meus primeiros passos com Vânia Sarlo, ela foi de muita importância na minha carreira, junto com minha mãe, que sempre esteve ao meu lado. X |
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Ser
filha do Sinvaldo Siri influenciou na sua carreira? |
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X Tinham impactos negativos e positivos ao ser filha de Sinvaldo Siri. Positivos: Porque meu pai sempre foi uma pessoa muito querida e responsável, além de defensor e precursor do carnaval capixaba. E Negativos porque, para algumas pessoas, inicialmente todas as notas “10” conquistadas pelo meu mérito, só foram merecidas pelo fato de ser a “filha do coordenador do carnaval...” e isso era péssimo! X |
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O
que mais te marcou durante todos esses anos de carnaval? |
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X Cada ano teve uma referência diferente que me marcou... Mas de todos os anos, o que mais me arrepia, que mais me impulsiona, é ver a arquibancada inteira levantando num só momento, como se fosse uma coreografia, e vários sons gritando o meu nome... Esse é realmente um momento mágico para mim! X |
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O que é defender o pavilhão de uma agremiação? |
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Defender um pavilhão é um estágio que você
pratica, com base para sua vida toda (profissional, amorosa, familiar,
etc...) É um misto de sentimentos tais quais: responsabilidade
e orgulho, dor e alegria, amor e ódio, sinceridade e falsidade,
humildade... Resumindo: Você a cada dia tem que representar um
papel diferente... Mas se você me perguntar qual a melhor palavra
para representar isso tudo eu digo: SABEDORIA... Pois com sabedoria
você tem equilíbrio para administrar todos esses sentimentos! |
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Uma porta bandeira tem que ter afinidade com o mestre sala? Você
já se recusou a desfilar com alguém? |
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Afinidade é primordial, porém é preciso muita prática
para vencer os desafios de públicos diferentes, de ambientes
diferentes, etc... E isso você consegue com muito ensaio. E nunca
precisei passar pelo constrangimento de me negar a desfilar com ninguém. |
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Qual foi seu melhor momento desfilando? |
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Tive vários momentos felizes e tristes. O momento mais feliz foi neste ano de 2009 quando desfilei ao lado de Verônica (minha mestre de Cerimônia) que atualmente está com câncer de mama e quando eu pensei que não iria conseguir atravessar a avenida, ela na minha frente, acerta sua prótese com um largo sorriso no rosto e me diz: Você está linda demais! Neste momento eu pensei: se ela que está com tantos problemas de saúde ainda consegue sorrir, porque eu não consigo concluir meu desafio?... Foi um momento ímpar e de muita garra! E momento triste foi no ano de 2003 quando desfilei no Novo Império e vi a fantasia do meu mestre-sala Kira se despencando a cada passo que ele dava e eu não pude fazer absolutamente nada. Foi um momento de impotência e desespero! Só nós sabemos o que passamos... Mas faz parte!... Ele também foi um guerreiro! x |
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Você já sofreu preconceito no samba? |
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Demais!
Por ter pele e cabelos claros. Por ter iniciado minha carreira na
Jucutuquara (Eles diziam que eu era da escola de samba elitizada e
de branco). Por dividir o cargo com um segundo casal aos quais eram
negros e eu e meu mestre-sala brancos. Por ser de outra comunidade...
Enfim! Cada agremiação tinha a seu instrumento para
abertura de ferida. Mas eu nunca me deixei abalar com a atitude dos
outros. E sempre tive personalidade para lidar com essas situações! |
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Se você tivesse o poder de mudar algo no samba capixaba, o que
mudaria? |
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X Se algum Ser Humano tivesse o poder de mudar alguma coisa no samba... O samba não existiria mais, pois ele é composto de tantas coisas boas e ruins que se não as tivessem não seria o mundo do samba e nem teria tanta graça...rs...rs...rs... Mas se fosse para implementar algo: Eu iria lutar para criação da “Cidade do Samba Capixaba” – local onde ocorreriam todos os eventos pertinentes ao samba, construção de barracão pesados e leves para todas as agremiações e local para implantação de projetos sociais relativos ao carnaval, cujos objetivos principais seriam a geração de renda e desenvolvimento humano! X |
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Você dançou com o Maurinho e com o João Filipe filho
dele em épocas diferentes, nos fale desta experiência.
Eles tem o mesmo estilo? |
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As experiências são totalmente diferentes, e estamos falando
de duas pessoas de gerações diferentes, que têm
em comum a humanidade, o amor e o dom para tal. Antigamente os estilos eram muito diferentes, e eram permitidos vários passos que atualmente não são mais concebíveis, tais como: colocar os joelhos no chão, passos com mais elasticidade, etc... Hoje em dia, o bailado do casal de mestre-sala e porta-bandeira é fino, mais requintado e um bailado com passos marcados e cada movimento milimetricamente pensado. Antigamente não: o que saísse era aquilo e acabou... Estamos falando de duas épocas totalmente diferentes e de duas pessoas super talentosas que têm muito amor pelo que fazem! Por isso que foi tão fantástico bailar, tanto com o pai quanto com o filho. |
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Quais seus projetos daqui pra frente? |
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Pretendo caprichar em projetos para Oficinas de Dança voltadas
para a área social em comunidades. |
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Nos deixe uma mensagem: |
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"O mais importante da vida é você saber bailar conforme a música e ser uma pessoa nota 8,5 e nota 10,0, nunca permitindo que raça, cor e nem classe social, interfiram na sua integridade. Porque o único que poderá fazer o julgamento de sua vida, é Deus!" Quero
deixar registrado aqui que minha mãe é meu anjo da guarda,
e é ela quem cuida da minha roupa e de mim... Quem dera se
eu pudesse dar uma "Rosa" como a minha para cada Porta-Bandeira. |

Andressa Leal e Maurinho Carnaval
