ENTREVISTA COM O COMPOSITOR BETINHO CAPOEIRA
| Ficha
Técnica |
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"A
MÚSICA, OS ARTISTAS E TODO ESTE CONTEXTO NO QUAL A VIDA ME
INSERIU, ATÉ MESMO NA LOCALIDADE ONDE NASCI, SENDO UM BAIRRO
HISTORICAMENTE LIGADO A GRANDES NOMES DA MÚSICA, FOI FUNDAMENTAL
NA MINHA FORMAÇÃO CIDADÃ COMO HOMEM".
Participou
de várias rodas de samba no bloco Cacique de Ramos junto com
Zeca Pagodinho, Fundo de Quintal, Dudu Nobre, Jorge Aragão
e outros. Onde o encontramos está com seu cavaco em baixo do
braço, se ele tem um lugarzinho pra sentar, tira o cavaco e
começa a sair os acordes, sempre muito bem afinado. Eu estava
lá no samba da escadaria, quando ele chegou sempre muito gentil
comigo e sentou-se ao meu lado, ai pensei porque não entrevistá-lo?
Fiz o pedido a este sambista declarado e apaixonado pela Imperatriz
Leopoldinense no Rio e pela Mocidade Unida da Glória em Vitória
e ele aceitou. Como a Equipe “Viva Samba” está
sempre prevenida tirei meu material da bolsa e começamos a
conversar ao som de uma boa roda de samba com os baluartes de nossa
cidade. |
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Você
nasceu num bairro que é um famoso reduto de samba, como o Bloco
Cacique de Ramos, a Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense e outros,
como desfilou pela primeira vez? |
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x Eu participava dos blocos de sujos que existiam na época, depois desfilei pela primeira vez na Imperatriz, empurrando carro, eu era apoio e tinha muito orgulho disso. x |
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Você
não quis seguir a carreira clássica como sua avó? |
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X Fui aluno durante oito anos do Coral Handel, o mais conhecido do Rio de Janeiro. Eu segui a música popular pelas circunstâncias da vida mesmo, minha avó foi primeira soprano nos anos 30, 40 e 50 no Teatro Municipal, o tio Danilo era violonista sete cordas da rádio Duque de Caxias e o tio Carlinhos do Cavaco que foi meu grande incentivador se tornou um referencial ao qual me inspirei nos primeiros anos quando decidi tocar o mesmo instrumento que ele. X |
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E
depois disso o que fez? |
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X Aos quatorze anos iniciei o meu aprendizado em percussão na minha Imperatriz, um ano depois eu já dominava todos os instrumentos ligados ao estilo musical. Fui primeiro tenor intérprete da Imperatriz Leopoldinense e Paraíso do Tuiuti. Paralelamente fui desenvolvendo minha habilidade com o cavaco, meu instrumento por vocação. X |
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E
quando compôs pela primeira vez, foi samba-enredo? |
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X Não, a minha primeira música foi de capoeira, eu era mestre daí meu apelido “Betinho Capoeira”, em noventa e seis eu comecei a compor pela minha escola. X |
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Como você chegou a Vitória? |
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Em dois mil e dois. Por conta da violência no Rio, eu tinha meu
filho pequeno, ai decidi vir pro Espírito Santo em busca de maior
tranquilidade, mas sempre com a música me acompanhando. |
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Você já chegou vivendo da música? |
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Não, como tenho formação técnica em enfermagem
e instrumentação cirúrgica fui trabalhar nesta
área. No nosso país ainda não dá pra sobreviver
só da música. Fui pára-quedista militar por dois
anos ainda no Rio, hoje sou funcionário público atuando
há três anos como professor de música no IASES para
menores que cumprem medida sócio-educativa de internação. |
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E seu primeiro contato com o samba capixaba como foi? |
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Foram com a Bernadeth Ladislau e a Vânia Sarlo, tenho muito que
agradecê-las. No bar do Mano Gim, foi que comecei com meu trabalho
de samba aqui em Vitória. |
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Seu primeiro samba enredo em Vitória foi quando? |
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Foi
em 2005 para a Jucutuquara, o Falcão era presidente e me convidou
a fazer um samba e participar do concurso. Em
2006 e 2007, fiz sambas para a Piedade, não ouve concurso ai
o Vassoura que era presidente na época me convidou, eu fiz
o samba e ganhei notas máximas na avenida. Ganhei na Mocidade
Unida da Glória também neste mesmo ano de 2007... Em
2009 ganhei na Rosas de Ouro e fiz o samba pro Bloco Amarra o Burro.
Todos os sambas de composições minhas que foram para
a avenida eu fiz parte do quadro de intérpretes. |
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Você faz só samba enredo ou faz outras composições
também? |
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X O compositor não pode viver só de samba-enredo... Em dois mil e sete participei do festival de música no Armazém Cinco, conquistamos o quarto lugar e fiquei muito contente, diante da quantidade e qualidade das composições que ali concorreram, sem contar que tinham noventa e duas canções. Mas já participei de vários outros festivais, aqui e no Rio de Janeiro também. X |
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Você chegou a formar um grupo de samba, nos conte um pouco. |
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Sim, o “Sandália de Pescador”, foi em dois mil e
oito, participamos do Fesmuquim, Carmélia, Carnaval de Vitória,
o grupo tem como padrinho ninguém menos que o sambista Edson
Papo Furado. |
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Alguns mestres e ritmistas defendem a bateria como a peça mais
importante da escola de samba, é o “coração”
como eles dizem, você como compositor o que pensa disso? |
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A bateria como todos os outros seguimentos da escola é importante.
Vejo a bateria como coração de uma maneira diferente...
Ela é o coração porque faz a marcação,
da a cadência a escola, a bateria tem que ser profissional assim
como todos os quesitos, porque a nota máxima que é importante
na disputa pelo título. Todos têm que fazer seu trabalho
com seriedade. |
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Se você fosse presidente de uma agremiação, o que
faria para melhorar? |
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Não tenho esta pretensão, mas colocaria pessoas sérias
para julgar o samba enredo, porque este quesito que leva a bandeira
para a avenida, ele que leva as notas de harmonia, evolução...
E como diz nosso grande Papo Furado: ”Faz o couro arrepiar”.
Mas pra isso é preciso ter pessoas sérias para fazerem
este trabalho. |
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Faça seu comentário sobre os sambas julgados, tanto nas
quadras quanto na avenida para o carnaval dois mil e nove. |
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Cabeça de jurado ninguém sabe o que se passa, e cada um
tem a sua opinião. Agora teve samba enredo que ganhou notas máximas
e todos os títulos sem merecer, pois todos sabem que o samba
era plagiado da escola de samba “Reino Unido” de Manaus
no carnaval dois mil e sete, e o que é mais grave todos sabem
e ninguém faz nada. |
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Você tem algum projeto em andamento? |
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Acabei de gravar dez músicas dos meus alunos do Instituto de
Atendimento Sócio Educativo do Espírito Santo. São
adolescentes em conflito com a lei, gosto deste trabalhado e me sinto
realizado com a possibilidade de trazê-los de volta a sociedade. |
