ENTREVISTA COM A RAINHA DE BATERIA FERNANDA FIGUEREDO
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Técnica |
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“NEM
MELHOR NEM PIOR, APENAS DIFERENTE”
Filha de seu Edvaldo e dona Kátia nasceu em oito de outubro
de mil novecentos e oitenta e dois na maternidade de Vila Velha, essa
negra com samba no pé e de uma exuberância inconfundível
chegou ao Rio de Janeiro e mostrou que o capixaba também tem
ginga, e muita ginga, tanto que encantou os dirigentes de uma das
escolas de samba mais tradicionais e conservadora do carnaval carioca
a “Acadêmicos do Salgueiro”. A Fernanda não
é simplesmente uma rainha de bateria, ela traz uma herança
com a responsabilidade de não deixar a “coroa”
cair, sim é coroa mesmo, não é peteca, pois a
mãe dela também foi rainha de bateria durante muito
tempo na Mocidade Unida da Glória. Fernanda Figueredo não
fica parada no tempo, luta com esforço para conquistar seus
sonhos, e está sempre procurando se aperfeiçoar nas
duas carreiras que escolheu para sua vida, a de Assistente Social
e de sambista, não é a toa que ela foi até Parintins
para ver o concurso dos Bois Caprichoso e Garantido para ter um melhor
conhecimento do carnaval brasileiro.
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Porque
a MUG? |
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x Porque é a escola onde minha família sempre participou e eu já nasci na MUG, é a minha escola do coração. x |
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Como
conseguiu ser rainha de bateria da MUG? |
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X Na verdade a minha mãe que fez a minha inscrição sem eu saber, quando a MUG voltou do renascer das cinzas. X |
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E
qual foi a sua reação na hora? |
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X Um dia eu estava na quadra sambando com o pagode (eu só gostava de pagode), ai o Jô e o Sury que eram os carnavalescos da época, perguntaram a minha mãe porque ela não tinha me escrito para concorrer, ai eu ouvi minha mãe dizer que já tinha tomado providencias a este respeito, a minha reação não foi boa porque eu não queria mesmo. X |
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E
tinham muitas candidatas? |
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X Sim, mas também tinham minha mãe e minha irmã, concorrendo também. Minha irmã ganhou para primeira princesa e eu para rainha da bateria. Ai foi o pessoal da minha rua, amigos da família e tudo mais para fazer torcida, na época torcida também contava. X |
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E não pintou aquele ciúme de “irmã de miss”,
por você ter ganhado? |
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Nada,
acho que elas armaram pra eu ganhar mesmo, porque elas ficaram mais
felizes que eu que só tinha dezesseis anos e tudo pra mim era
muito novo. |
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E como foi a sua trajetória no samba capixaba até agora? |
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Fui
rainha da Mocidade Unida da Glória durante três anos consecutivos
2002, 2003 e 2004, depois em 2005 desfilei no carro abre alas da Unidos
de Jucutuquara, em 2006 fui rainha da bateria da Imperatriz do Forte,
depois retornei em 2007 a minha Mocidade que é a minha escola
de coração e alma. |
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Como você foi descoberta na Acadêmicos do Salgueiro? |
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Através
de um ensaio que aconteceu na pracinha do Saara no Rio, eu estava lá
para comprar acessórios para minha fantasia, ai eles me viram
sambando, pediram meu telefone e depois me ligaram pedindo pra eu ir
até a quadra pra tratar do assunto. Fui no ensaio e novamente
sambei e eles reforçaram o convite. Não acreditei muito,
mas quando chegou em meados de janeiro veio à confirmação. |
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Como foi a recepção das passistas de lá, já
que você era uma intrusa? |
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Bom,
não tive resistência, até porque nunca me coloquei
nem pior, ou melhor, que qualquer uma delas. Procurei fazer meu espaço
devagar e respeitando-as. Tive sim um certo receio em relação
ao samba carioca que é diferente do nosso. Mas isso com o tempo
foi se dissipando e eu fiquei com mais segurança, e mostrei e
faço questão de enfatizar que não sou carioca e
sim capixaba, para as pessoas aprenderem que existem grandes sambistas
que não são cariocas. |
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Você foi convidada a ser Musa do Salgueiro logo no início? |
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X Não, em dois mil e seis quando fui convidada, foi pra vir na frente do carro alegórico. O carro quebrou e eu tentei não deixar buraco, quando veio a justificativa do jurado, veio um elogio a mim e ele enfatizou que não tirou mais pontos porque a passista trabalhou para que isso não acontecesse, ai os diretores me agradeceram e no ano seguinte eu fui eleita Musa da Salgueiro. X |
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Qual a diferença entre o carnaval carioca e o capixaba? |
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O
carnaval carioca está voltado para o comercial, os globais, etc...
O carnaval capixaba é diferente, exemplo, Salgueiro e MUG são
duas escolas distintas. O
nosso carnaval é mais família, todo mundo se conhece e
fazemos carnaval para nos divertir, mesmo com todos os problemas existentes.
Eu gosto dos dois, porque eles são estilos diferentes mas a essência
é a mesma. |
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Quem cuida da sua produção? |
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O
Alex Passarela faz minhas fantasias, minha irmã Priscila cuida
da minha maquiagem e minha mãe do meu bem estar. |
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Você foi ao Festival de Parintins, me fale o que você viu
e gostou e o que não gostou? |
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Primeiro as pessoas tem que ver o festival como um teatro a céu
aberto e não como um desfile de carnaval, o evento não
tem nada a ver com o nosso samba. Surgem carros que lá eles chamam
de módulos e esses módulos formam alegorias que vão
se modificando e formando novas figuras, novas representações
e contam a história do caboclo ribeirinho e das mistificações
contadas pelas pessoas e religiosidade da região. Gostei muito do valor que eles dão aos nativos. Lá eles chamam os destaques de itens, lá as rainhas são chamadas de cunhãs. Não se pode colocar nenhum artista, nenhuma pessoa de fora pode representar esses itens, é obrigatório ser da região amazonense, eles dão valor às pessoas da terra. Os artistas são estimulados desde pequenos a estarem criando. Existe um concurso onde só as crianças podem participar mostrando a construção, confecção, criação e apresentação. Eu não gostei dos acabamentos, já que lá, o importante é o impacto, e a iluminação ajuda muito. Não é como estamos acostumados com os carros alegóricos de carnaval. |
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O que você mudaria numa escola de samba? |
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Certas
hierarquias dentro das escolas. Muitas vezes temos que aceitar as condições
impostas sem debater e existem ocasiões que não se pode
opinar, só um grupo seleto, e a maioria tem que aceitar e se
adaptar. |
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Nos deixe uma mensagem? |
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Existe
vida paralela ao samba, muitas pessoas não sabem conciliar vida
particular e carnaval. O conhecimento é a única arma que
ninguém pode nos tirar. |
Rainha Fernanda Figeredo e Iamara Nascimento
