ENTREVISTA COM ELDA ALVARENGA
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Técnica |
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QUEM É ESTA TAL DE ELDA? Vocês não devem estar entendendo nada, mas eu faço questão de responder. Talvez essa foi a pergunta que eu mais ouvi até a hora que a Piedade entrou na avenida em 2009. Esta tal de Elda que sempre esteve no anonimato neste ano de 2009 conseguiu emocionar muita gente. Ela foi a responsável por colocar oitenta baianas na avenida e que nada mais nada menos conseguiu levar o prêmio popular do carnaval “Faisão de Ouro" de melhor Ala de Baianas. Ela se chama Elda Alvarenga, nascida nesta cidade de Vitória no dia quatorze de outubro de mil novecentos e setenta. A maior parte de sua infância morou no Forte de São João. Professora universitária e sempre lutando por causas sociais, principalmente pelos direitos e conquistas das mulheres de todo o mundo. Diante de todas as lamentações depois que a Piedade foi pra avenida sem baianas em 2008, as pessoas criticando sem saber o motivo, gente que deu as costas, gente que desacreditou totalmente, gente que falou que não desfilava mais, e gente que até tinha vergonha de dizer que era Piedade. Ela a verdadeira guerreira, que vindo de uma formação evangélica arregaçou as mangas e assumiu a ala das baianas dizem que foi com o chicote, outros com mão de ferro, outros falam que ela teve jogo de cintura, não importa, a única ala que só pode desfilar pessoas do sexo feminino foi pra avenida dirigida por uma mulher que ninguém conhece no mundo do samba. Se as escolas do Rio, São Paulo e Vitória tiveram presidentes mulheres campeãs, a Piedade teve uma ala inteira de mulheres campeãs homenageando um único homem: "São Benedito do Rosário". “VALEI-ME
SÃO BENEDITO!!!!”
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Como
chegou até as Escolas de Samba, já que você cresceu
em uma família evangélica? |
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x Mesmo tendo sido criada em uma religião não católica, a minha adolescência foi muito permeada pela música. Nós organizávamos bailes e festas onde podíamos curtir uma boa música. Mas o samba somente me foi apresentado quando as relações patriarcais e poucas políticas da Igreja me fizeram buscar outras formas de me aproximar das pessoas, de conviver e de me relacionar com o mundo. Fui apresentada ao samba nesse momento de rompimento de antigas tradições e de construções até de um novo círculo de amigos. Minha primeira aproximação foi em São Torquato, bairro onde nasceu e viveu meu companheiro até a idade adulta e ainda mantém uma forte relação de parentesco e amizade por lá. Depois fui me aproximando das atividades desenvolvidas no centro. Logo o samba já fazia parte de minha vida. x |
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O
que sentiu quando desfilou pela primeira vez? |
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X Foi mágico, eu era muito insegura, não sambo e como pela primeira vez estava em um desfile de escolas de samba, temia não dá conta de representar bem a minha escola. Mas quando entramos na avenida, eu e muitos desses novos amigos, foi mágico e muito rápido, foi contagiante a alegria e o ritimo. Adorei essa primeira experiência. X |
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Porque
a Piedade? |
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X A Piedade é do centro, esses meus amigos são e ao que parece, sempre serão Piedade, eu me apaixonei por ela a medida que me apaixonava por eles. Depois foi a escola que me acolheu, me ensinou o pouco que sei de samba e é a escola em que me sinto em casa. X |
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Porque
você resolveu assumir a ala das baianas? |
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X Eu sofria a cada desfile que a Piedade não se apresentava com todo o seu potencial. Via um pouco das dificuldades da escola e a muito tempo tinha vontade de ajudar mas não sabia muito bem como fazer devido a minha pouca experiência com o samba e mais especificadamente com escolas de samba. Mas quem é professor, gosta de organizar, arrumar e meio que de brincadeira me desafiei a colocar baianas na avenida como forma de contribuir para que a minha escola voltasse a brilhar novamente, voltar ao lugar de destaque de onde ela nunca devia ter saído. Mas ocorre que a brincadeira colou e um tempo depois fui convidada a organizar as baianas. Eu temi muito no início, mas depois percebi que com o apoio da escola as mulheres viriam, e elas vieram. X |
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Como foi colocar oitenta baianas na avenida em 2009, já que a
escola desfilou sem baianas em 2008? |
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Foi
quase tão mágico como a minha primeira vez, eu vi a escola
fazer um lindo desfile e me senti, desta vez, parte desse processo,
responsável, como muitos outros pelo desfile que estava fazendo. |
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Foi difícil, já que até então você
não tinha uma participação ativa na escola? |
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No
início sim, mas tive muito apoio dos meus amigos da Piedade,
do carnavalesco e da Diretoria, além é claro do apoio
das baianas que aprenderam a confiar nessa nova coordenação. |
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E a recepção da Comunidade e Diretoria, como foi? |
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Foi
bacana. No início foi difícil dos dois lados, eu não
conhecia as pessoas e elas não me conheciam, mas fomos construindo
uma relação de confiança e de respeito. Como eu
já participava dos ensaios e das atividades da escola, não
era totalmente desconhecida e também as pessoas da comunidade
não me achavam totalmente estranha. |
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Reza a lenda que a Piedade nunca colocou tanta baiana na avenida e que
em 2010 você colocará 100 baianas é verdade? |
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Ainda
não conversamos muito profundamente sobre 2010, mas se esse for
o desejo da escola, colocar mais vinte no nosso segundo ano é
um novo desafio, mas que a gente enfrenta com menos preocupação
do que em 2009, afinal quem não deseja ser baiana da Piedade? |
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Você tem algum projeto para a escola? |
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X Eu estou a disposição da escola para contribuir naquilo que tiver condições e for necessário, penso que é preciso e possível pensar muitos projetos, mas precisam ser demandados pela comunidade e pela diretoria. X |
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Se você pudesse mudar alguma coisa nas escolas de samba, o que
mudaria? |
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A
forma de financiamento, penso que as escolas teriam que pensar formas
autogestionadas para se manterem além dos parcos recursos que
recebem do poder público. Para a autonomia financeira a escola
poderia utilizar o potencial da comunidade, montar oficinas e cooperativa
de artesão para confecção de fantasias e instrumentos,
nós precisamos deixar de ser dependentes do Rio nessas coisas.
Isso é processo, mas precisamos dar o primeiro passo. |
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Nos deixe uma mensagem. |
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Que
a gente possa a cada dia viver o samba com todo o seu pontecial. |
