Bateria de Jucutuquara – a batida de Nego Déco
por Dione Ferolla Varejão


A bateria da Unidos de Jucutuquara é uma atração do carnaval capixaba e Mestre Ditão está à sua frente desde 1972, quando a turma de rapazes fundadores do bloco, lhe outorgaram a responsabilidade de comandá-la por sua natural liderança e intimidade com os instrumentos.

Mestre Ditão é músico reconhecido por ser um exímio percussionista, habilidade herdada do pai Sr. Jorge, cavaquinista carioca, que veio para Jucutuquara a fim de montar as máquinas da Fábrica de Tecidos.

As batidas do bloco sempre se aproximaram muito das batidas das escolas de samba. E a cada triunfo da agremiação, a responsabilidade aumenta.

E na bateria passaram muitos batuqueiros, alguns permanecem, outros se foram. A renovação é constante e hoje existe uma turma nova e uma comissão de diretores, como Mestre Genivaldo, Edmilson e Aninha dos Tamborins que levam com compromisso e responsabilidade todo trabalho e evolução da bateria. O pessoal da harmonia, liderados por Devaldo Batista, o Mancha Negra, incentiva a bateria e estão sempre atentos ao trabalho sério que juntos desenvolvem.

Alguns ritmistas se foram e deixaram saudades, como Chaleira, nas caixas, Paulinho, irmão do compositor Tonico do Cavaco, no surdo de terceira e nos pratos, Puíca . Sente-se muita saudade também do repinique e o repenique é uma história a parte.

As chamadas e bossas de repeniques do carnaval de Vitória nasceram na Unidos de Jucutuquara e foram lançadas por Délcio Santos Filho- Nego Déco.

Nego Déco era um artista popular, autodidata musical, talvez o mais importante para a evolução de todas as baterias do Estado. Déco veio do Rio de Janeiro trazendo as entradas de bateria, a batida do repenique, pandeiro, atabaque e todos os instrumentos de percussão. Ele chegou muito novo e sua batida diferente logo se juntou às características da bateria de Jucutuquara. Era um grande músico, um grande percussionista, sempre esteve ligado a música, a flauta de bambu ou tirando som no próprio rosto. Déco aprendeu a tocar bateria com latas de vinte litros de banha, de goiabada, aprendeu violão tocando em brinquedos de plástico.

Certa vez Xangô da Mangueira veio fazer um show no Teatro Carlos Gomes e ia tocar uma música com batida afro, de candomblé. Perguntou a Luluca, do Bar do Luluca, se conhecia um músico. Luluca não teve dúvidas, veio a Jucutuquara e levou Nego Déco. E quando Déco fez a batida nas congas, na tumbadora, Xangô certificou-se de que havia encontrado o músico certo para acompanhá-lo.

Nego Déco tocou no Grupo de Didinho e acompanhou João Bosco em show na boate da Ilha da Fumaça. Tocou em algumas bandas e foi chamado por Martinho da Vila para viajar, não foi, preferiu a vida em Jucutuquara.

Déco morreu sem perceber a importância que ele teve no processo, não foi por falta de reconhecimento, pois todos admiravam sua veia artística. Déco morreu analfabeto, pois sempre fugiu da escola, tinha quarenta e nove anos e vinte e cinco de Unidos de Jucutuquara.

Até hoje, algum tempo depois de seu falecimento, sente-se a falta de sua batida. Às vezes Mestre Fabinho, o Fabinho Perereca, parece “ser tomado pelo espírito de Déco” e faz a batida igualzinha. Déco deixou saudade e fica aqui o reconhecimento a um batuqueiro que tocava com a alma e o coração totalmente dedicado a Nação de Jucutuquara.

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* Dione Ferolla Varejão é sambista, turismóloga, mestre em teatro, pesquisadora de cultura popular, com foco no samba, professora universitária, é membro do conselho deliberativo e da ala dos compositores do GRCES Unidos de Jucutuquara.

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