BATUQUEIRO
CAPIXABA - UM PATRIMÔNIO CULTURAL!
por
Dione Ferolla Varejão
Comenta-se que
alguns ritmistas das baterias de Escolas de Samba não gostam quando
são chamados de batuqueiros. Os instrumentistas parecem entender
que batucar é uma ação desmerecida ou inferior, mas
não é, pois um dos maiores legados que o povo africano ofereceu
ao mundo, foi justamente a “tríade divina” composta pelo
batuque, o canto e a dança. O batuque já funcionou como meio
de comunicação no período da escravatura e contribuiu
como forma de preservação de tradição cultural.
Além do mais, é considerado sagrado na religião do
candomblé quando batem saudando os orixás. Todos os ritmos
advindos desses maravilhosos instrumentos de percussão ” são
tremendamente admirados e amados em todos os cantos do mundo, ora pela sensualidade
transmitida pelo ritmo, ora pela boa energia que conquista e arrasta multidões.
Em Vitória, no Estado do Espírito Santo, este assunto merece ser tratado com vagar, cuidado e reflexão, haja vista que essa reflexão busca fundamentos. E para alcançar esse objetivo, nos voltamos aos primórdios do carnaval brasileiro e nos situamos na cidade do Rio de Janeiro, então capital da república, onde o carnaval de rua sofreu forte influência européia e religiosa trazidas pela Corte ali instalada. Essa influência determinou a formação dos primeiros blocos , ranchos e escolas de samba, que seguiram o modelo das procissões em louvor aos santos católicos. Concluímos que as escolas de samba cariocas derivaram dos ranchos carnavalescos, agremiações que nasceram como instituições religiosas, mas que devido, principalmente, a sensualidade e beleza da Ala das Baianas formada por negras pastoras, passou definitivamente para os festejos profanos do carnaval.
Mello Moraes Filho em Festas e Tradições do Brasil diz que:
“na
procissão de Nossa Senhora do Rosário, o famoso séqüito
eram as traieiras de lindas mulatas, vestidas de saias brancas, entremeadas
de rendas, de camisas finíssimas e de elevado preço, deixando
transparecer os seios morenos, ardentes e lascivos.”
Na cidade de Vitória no século 19, o carnaval seguia moldes
europeus, com forte influência parisiense, a começar pelos
tecidos importados oferecidos no comércio da capital para a confecção
das fantasias e dos adereços. Com variadas formas de brincar, nas
ruas ou nos salões, o capixaba sempre soube fazer a sua festa de
celebração a Momo.
Independente de classes sociais, pobres e ricos brincaram nos salões, no tablado da Praça Oito, no Cavalo de Batalha na Vila Rubim, nos blocos e nas batucadas. E quando da criação da primeira Escola de Samba nos idos de 1950, o capixaba buscou inspiração no carnaval carioca que já possuía Escolas desde 1928. Portanto o capixaba buscou inspiração, mas sua derivação é totalmente diversa, o que dá ao carnaval capixaba um diferencial único.
Nossas Escolas de Samba não derivaram de Ranchos Carnavalescos, já que não os tivemos em terras capixabas. Nossas Escolas nasceram das Batucadas - agremiações familiares espalhadas pelos bairros da capital. No Morro da Fonte Grande e na Piedade surgiram as mais famosas: Mocidade da Fonte Grande, Chapéu de Lado e Palmeiras, em outros bairros nasceram a Centenário, Santa Lúcia, Andaraí, Prazer das Morenas, Cangüira do Morro do Moscoso, Estrela da Vila Rubim, Gurigica do Centro, Império da Vila e São Torquato, a maioria transformou-se em Escolas de Samba que hoje brilham no Sambão do Povo.
Por isso ser batuqueiro capixaba é valorizar a história, a raiz, é ser tradição, é ter orgulho de fazer samba com o especialíssimo jeito capixaba de ser.
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* Dione Ferolla Varejão é sambista, turismóloga, mestre em teatro, pesquisadora de cultura popular, com foco no samba, professora universitária, é membro do conselho deliberativo e da ala dos compositores do GRCES Unidos de Jucutuquara.
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