Arrojo já!
Por Déborah Sathler*

Os “consumidores de samba” ficam cada vez mais exigentes. Isto é fato e notório. E a tendência é essa mesmo. Querer mais brilho, mais profissionalismo, mais luxo, mais estrutura e mais show é a realidade em que nos deparamos. E o nosso público-alvo não está errado. Mas para que as expectativas deles que são as mesmas que as nossas tornem-se realidade falta arrojo. O arrojo segundo o dicionário da Língua Portuguesa Soares Moura é ser ousado, destemido, arriscar, ir á frente, arrastar e ser determinado. As escolas de samba capixaba precisam urgentemente ser arrojadas. Os freqüentadores das quadras e os espectadores do desfile devem ser encarados como clientes. E nas grandes escolas os clientes ainda são outros como: consumidores de bateria show, parceiros, público de eventos na quadra, componentes de seus projetos sociais e familiares. Outro público é o interno da escola que vai desde o caixa, o pessoal do bar, a diretoria, os patrocinadores, a comunidade e até o presidente. Infelizmente somente as escolas ditas ”grandes” enxergam os públicos. E será que não são grandes por que sabem tratar e reconhecer quem é seu público-alvo? Eu não tenho dúvidas. A questão é essa. Nas grandes organizações ou nas pequenas definir para quem você vai prestar serviços e como pensam essas pessoas é primordial. Ta aí a chave da questão. Mas você pode me perguntar? Bom, o primeiro passo é reconhecer meu público-alvo e saber como trabalhar com ele e o segundo? O segundo é planejar uma ou vinte estratégias para cada um deles. Entra em cena então uma ferramenta importantíssima nos dias atuais o Planejamento Estratégico. Hoje nenhuma, mas nenhuma empresa de sucesso, entidade ou associação sobrevive sem um diagnóstico, um plano de ação de cada setor, cronograma, prazos e estratégias. E por que as escolas de samba abrem mão desta ferramenta que dita onde estamos? Para onde vamos? O que queremos? E o que vamos ser daqui a cinco, dez ou vinte anos? Será que as escolas de samba não precisam planejar seu futuro? Afinal não queremos o Carnaval para mais dois ou três anos. Queremos longevidade e para isso é preciso planejar e aprender com quem consegue se sustentar no mercado. E a escola de samba é um patrimônio cultural, gera renda, distribui renda e então deve ser gerenciada como qualquer outra organização.

Insisto no Planejamento Estratégico, pois é a mais atual ferramenta disponível de gestão. E o que é o Planejamento Estratégico? È pensar para que a organização dure. É ter em mente que a instituição, no caso, escola de samba, é maior que as pessoas que fazem parte delas. Pois as pessoas vão passar, seja ela presidente, diretor. A escola fica. E para que ela não acabe ou fracasse devemos pensar seus rumos, planejar ações de curto, médio e longo prazo. Ou mesmo para tirar uma escola do fracasso e planejar seu sucesso. Um exemplo é o Governo do Estado do Espírito Santo que todos achavam que nada mais ia dar certo. Qual foi a ferramenta utilizada? Planejamento Estratégico. Procurem ter acesso ao Plano 20/25 do Governo do Estado lançado há mais ou menos dois anos trás você vai ver que cada área foi pensada como deve estar daqui a 20 e 25 anos, mas não pensado aleatoriamente, tudo dentro de diagnósticos, prazos, cronogramas. Cada setor do Governo foi pensado separadamente e depois pensaram no todo. Esse é um bom exemplo, de outros, pois é nestes que temos que nos espelhar. A Companhia Vale do Rio Doce planejou lá atrás que seria a maior mineradora do mundo e está conseguindo, a Arcelor Mittal planejou lá atrás que ia ser comprada por uma grande empresa de siderugia. Nada acontece por acaso, tudo é planejado. Não adianta vim falar aqui que vamos ser o segundo melhor Carnaval do Brasil se não nos prepararmos para isso. Não existe mágica. Existe trabalho. Aliás, esta utopia de mágica é típica de mentes adormecidas no tempo. Planejar custos, recursos humanos e os espaços físicos deveria ser aprendido na escola ou dentro de casa, não é? Mas não é tão trivial assim. As escolas de samba têm suas especificidades, e sabemos disto. Mas pense comigo. Se cada um que faz parte de uma escola usasse o que sabe fazer de melhor e desse a sua contribuição, não seria mais fácil? Se o contador não fosse diretor de Harmonia, mas da tesouraria, se os jornalistas em vez destaques fossem assessores de imprensa ou colaboradores, se os estudantes de turismo ajudassem em um projeto de eventos, se os administradores ajudassem a administrar. Pensou? O que falta é aproveitamento de voluntários e isso é planejamento. Direcionar áreas específicas também é planejamento. Envolver a comunidade é estratégia e dever de uma escola de samba. Saber qual é a missão e a visão do que queremos ser é necessário. Lançar mão de colocar isso e muito mais no papel é desperdício. Realmente temos que repensar e copiar bons modelos que deram certos. Despir-se da falta de humildade é fundamental. Não sabemos tudo, ninguém sabe tudo. Vou dar um exemplo mais próximo da nossa realidade e prático. Em 2006 quando assumi a Diretoria de Comunicação da MUG tinha uma dura tarefa de reorganizar todo o setor. O que fiz? Cheguei, sentei, senti a realidade, tracei um diagnóstico e metas a serem perseguidas. E... Planejamento Estratégico da área de Comunicação da MUG. Afinal a comunicação é um dos setores que alavancam as escolas, mas esse é assunto para depois. Não têm jeito gente, o sucesso só vem antes do trabalho no dicionário. Era um setor meio esquecido na escola, defendi a importância do setor junto á diretoria e adotamos duas medidas rápidas e de impacto, transformamos a comunicação em diretoria como todas as outras áreas e instituímos a recepção dos jornalistas na quadra. Passado isso fiquei um mês e fiz o planejamento do setor. Pensei o que seria bom para a MUG. O que eu como jornalista gostaria de saber da escola. Fiz um diagnóstico dos pontos fortes e fracos. E detectei que a escola tinha várias carências, como na área de atendimento á imprensa, eventos para jornalistas e responsabilidade social. Diante disto instituímos a centralização de atendimento á imprensa, estabelecemos fontes seguras, assim a imprensa sabia para quem ligar e com quem falar. Um jornalista atendendo outro jornalista é básico. O que também acabou gerando muita mídia espontânea para a escola. Fiz por dois anos consecutivos a “Festa Imprensa que eu gosto” na quadra da MUG reunindo trezentos jornalistas de diversas editorias estabelecendo contatos e divulgando a escola, inclusive essa festa foi até copiada por outra escola, que bom, sinal que deu certo. O evento contou com grandes patrocinadores como Arcelor, 1004 Comunicação entre outros. Foi colocado o site no ar, pintamos o endereço do site na quadra, entregamos cartões de visita do site e fizemos revista. Nasceu a MUG do Futuro, projeto social gratuito que no ano passado formou 70 crianças, estabelecendo vínculos mais fortes com a comunidade. As crianças do projeto foram garotos propaganda da Campanha Caravana Garoto no lançamento do sorvete. Este ano as aulas começam em julho e a meta é atingir 150 crianças. Em maio será lançado dentro da quadra da MUG outro projeto planejado, o do CD do Ricardinho da MUG para imprensa e para o público. Ufa! Não pense que foi fácil, nada é fácil e isso só aconteceu porque traçamos metas, cumprimos prazos e definimos prioridades. Dentro do Planejamento ainda há muito mais coisa que ainda ficou por fazer, mas com trabalho e perseguição de metas iremos cumprir. O que me entristece é darmos o primeiro passo e vermos co-irmãs que ainda nem despertaram para isso. È triste. Não há tempo para perdermos tempo, já perdemos demais. Não há espaço para perdermos espaço na mídia, já perdemos demais.

Se nós quisermos ser grandes devemos pensar grande. Planejar não é fácil, mas é só começar. Arrojo já!

 

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* Déborah Sathler é jornalista, pós graduada em Comunicação Empresarial, gerente da Rádio Espírito Santo/TVE, consultora e vencedora por duas vezes do Prêmio ABERJE de Jornalismo e Diretora de Comunicação da MUG.
e-mail: deborahsathler@gmail.com