PROFISSIONALIZAÇÃO DO SAMBA
Por David da Silveira*

A história do carnaval capixaba desde sempre esteve acompanhada e vinculada à administração pública, especialmente no que diz respeito ao desfile das escolas de samba. Este laço, a despeito do valor da contribuição dada para a efetivação dos desfiles, muito pouco tem contribuído para a efetiva capacitação e qualificação dos sambistas e o desenvolvimento profissional das agremiações capixabas.

O apoio e a subvenção financeira, que de fato não viabiliza o desfile, mas apenas disponibiliza um pequeno valor na totalidade das despesas necessárias à colocação da escola na avenida, poderia até ser dispensado se a atuação do ente público deixasse o simples assistencialismo e investisse no profissionalismo das agremiações.

Para ilustrar esta assertiva, constamos que são poucas as agremiações que possuem estrutura física própria para produção de alegorias e fantasias e a realização de ensaios, onde a maioria realiza-os até no meio da rua, deixando de arrecadar recursos valiosos através de bilheteria, venda de souvenirs e bar.

A montagem de uma estrutura na área adjacente ao sambão do povo, por exemplo, seria uma alternativa a ser estudada, à exemplo da Cidade do Samba/RJ, onde a agremiações poderiam montar seus barracões, ter espaço para disponível para a realização de ensaios, shows e eventos turísticos.

Outra situação é a total ausência de cursos, eventos e oficinas para capacitação e qualificação de pessoal para atuar nas diversas áreas do samba onde é possível haver geração de emprego e renda. Um exemplo é a produção de fantasias e alegorias. Um programa público de capacitação, bem estruturado, poderia abrir mercado de trabalho para o ano todo para aqueles que atuam na área, criando alternativas locais em relação ao mercado do Rio de Janeiro.

Situações como esta apontam para a importância da profissionalização do samba capixaba. Não devemos continuar mantendo esta relação com os órgãos públicos para o exercício de nossas atividades, ou seja, só na época do carnaval. Devemos sim, organizados através da Liga da Escolas de Samba do Espírito Santo – LICES, fazer gestões junto ao poder público para que sejam definidos e implantadas estruturas e projetos definitivos que possibilitem as agremiações a buscarem a profissionalização.

Devemos buscar uma nova forma de relacionamento com os órgãos públicos fundada principalmente no fomento às atividades de produção e qualificação profissional, com vistas a consolidação do mercado de trabalho para o sambista capixaba. Temos de dar um basta nesta relação de dependência vinculada apenas ao desfile. Precisamos sim da parceria do órgão públicos muito mais para engrandecer e profissionalizar as agremiações, do que esta participação episódica que não cria alternativas de geração de renda definitivas.

Temos no ES samba de qualidade capaz de se rivalizar com os bambas do Rio de janeiro e São Paulo. Nosso desfile fica melhor a cada ano. Não devemos nada a ninguém. Porém devemos buscar a profissionalização de nossas agremiações para que possamos nos auto sustentar. O que não pode prosperar é esta histórica relação de dependência episódica com as instituições públicas que até então, tem se mostrado incapaz de gerar alternativas de profissionalização e consolidação do mercado de trabalho para o sambista.

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* David Gomes da Silveira é músico, compositor, advogado e proprietário da Loja Empório do Samba, que fica na rua Wlademiro da Silveira nº 102, Jucutuquara.
Telefone: (27) 9961-3060